Uma roupa antiga pode ganhar novos recortes, cores e funções. Retalhos podem se transformar em uma peça completamente diferente e materiais que perderiam sua utilidade podem voltar ao cotidiano com um novo propósito. Essa é a lógica do upcycling, tendência que vem ganhando espaço na moda e na mente dos consumidores e que também pode ser uma ferramenta de criatividade e expressão.
A prática está no centro da exposição digital “Brasil que Cria”, projeto desenvolvido com crianças da Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. A iniciativa reúne moda, fotografia e processos criativos e convida o público a refletir sobre a infância brasileira a partir da imaginação e da autoria das próprias crianças.
Ao longo de oficinas, os “participantes “mini estilistas” desenharam suas ideias e acompanharam a transformação de suas criações em figurinos. As peças foram desenvolvidas com técnicas de upcycling e se tornaram parte de um ensaio fotográfico que resultou em uma exposição virtual.
Afinal, o que é upcycling?
Embora seja frequentemente associado à reciclagem, o upcycling não é exatamente a mesma coisa. Na reciclagem, um material passa por um processo de transformação para ser utilizado novamente. Uma embalagem plástica, por exemplo, pode ser processada e convertida em uma nova matéria-prima.
Já o upcycling busca reaproveitar materiais ou objetos existentes, agregando valor a eles e criando um novo produto. Uma calça antiga pode virar uma bolsa, tecidos podem ser combinados para formar uma nova roupa e peças que seriam descartadas podem ganhar outra função.
Na moda, a técnica também se relaciona ao debate sobre consumo e descarte. Ao reaproveitar roupas e materiais já existentes, designers e criadores exploram novas possibilidades sem necessariamente começar uma produção do zero.
Mas o conceito vai além da sustentabilidade, o processo também estimula a experimentação, já que cada material disponível pode se tornar o ponto de partida para uma nova criação.
Crianças transformaram desenhos em roupas
A exposição “Brasil que Cria” nasceu da parceria entre Hugo Gunzburger, diretor criativo da LAB678 e responsável pelo Brasil com S, e Kamila Camillo, empreendedora social e fundadora do Instituto Crias do Tijolinho. A proposta, segundo os idealizadores, é colocar a criatividade e as referências das crianças no centro da narrativa.
Durante quatro semanas, crianças da Nova Holanda participaram de atividades relacionadas ao desenho, à criação de figurinos e ao upcycling. A proposta foi fazer com que elas participassem do processo criativo, em vez de apenas aparecerem como personagens de uma campanha ou ensaio fotográfico.
Cada figurino teve como ponto de partida ideias e desenhos produzidos pelas próprias crianças. Depois, as criações ganharam forma com o apoio da equipe responsável pelo desenvolvimento das peças. Na última etapa, os participantes também puderam escolher como gostariam de ser fotografados.
“Brasil que Cria” reúne aproximadamente 50 fotografias e apresenta diferentes momentos dessa experiência, incluindo os bastidores, a interação das crianças com as roupas e os retratos finais.
Arte pode contribuir para bem-estar e inclusão
Experiências artísticas podem ter impactos que vão além da aprendizagem de técnicas de desenho, fotografia ou moda. Especialistas da Organização Mundial da Saúde reforçam o potencial das atividades artísticas na promoção da saúde e do bem-estar ao longo da vida.
Os efeitos da arte, porém, não devem ser entendidos apenas como uma questão individual. A participação cultural também pode contribuir para a expressão de experiências, o fortalecimento de vínculos e o sentimento de pertencimento. A UNESCO aponta que as expressões artísticas podem favorecer a participação na vida cultural e a inclusão social, além de oferecer espaços para que crianças e jovens expressem emoções e desenvolvam relações com outras pessoas e comunidades.
Esse debate ganha uma dimensão importante quando se fala sobre territórios periféricos. Durante muito tempo, comunidades populares foram frequentemente retratadas a partir da violência, da pobreza ou da ausência de oportunidades. Projetos culturais podem ajudar a ampliar esse olhar ao reconhecer também as referências, os conhecimentos e a capacidade criativa presentes nesses territórios.
Isso não significa ignorar os desafios sociais enfrentados pelas periferias. A diferença está em não reduzir seus moradores apenas à condição de vulnerabilidade. No caso das crianças, criar pode significar também ocupar espaços de expressão, desenvolver ideias e perceber que suas referências têm valor.
Onde acessar a exposição Digital Brasil que Cria
A mostra pode ser acessada gratuitamente no site do projeto: Acesse a exposição Brasil que Cria
“Nossa proposta foi construir com as crianças uma narrativa em que suas referências, seus sonhos e sua criatividade sejam o ponto de partida. Queremos que o público enxergue essas crianças pela potência que elas têm de imaginar e criar futuros”, afirma Kamila Camillo. Como desdobramento da iniciativa, os responsáveis pelo projeto também preveem o lançamento de uma revista impressa com fotografias, bastidores e reflexões sobre o processo criativo.






