Homem mais radioativo do mundo teve DNA destruído em segundos e ficou vivo por 83 dias

Exposição extrema à radiação no Japão revelou até onde o corpo humano pode resistir antes de entrar em colapso

Erro operacional em instalação nuclear levou a uma das maiores doses de radiação já registradas em um trabalhador

Erro operacional em instalação nuclear levou a uma das maiores doses de radiação já registradas em um trabalhador | Divulgação/Domínio Público

Um acidente no Japão expôs de forma crua os limites do corpo humano diante da radiação.

O episódio ocorreu em 30 de setembro de 1999, na cidade de Tokaimura, província de Ibaraki, em uma instalação operada pela empresa JCO. 

Entre os trabalhadores atingidos estava Hisashi Ouchi, que receberia uma das maiores doses de radiação já documentadas em um ser humano.

Procedimento ignorado 

Os funcionários manipulavam uma solução de urânio enriquecido destinada ao processamento de combustível nuclear.

O procedimento exigia o uso de tanques, desenvolvidos justamente para impedir a criticidade, estágio em que o material físsil sustenta uma reação em cadeia.

Em vez disso, os homens optaram por despejar manualmente a solução em um recipiente que não comportava aquele volume com segurança. A escolha, feita para acelerar a tarefa, alterou completamente o desfecho da operação.

O limite seguro foi ultrapassado e a reação nuclear teve início. Não houve explosão tradicional nem fogo, mas um clarão azul intenso indicou a liberação abrupta de radiação. Os alarmes foram acionados, porém a exposição já havia ocorrido.

Dimensão da dose recebida

Entre os três técnicos presentes, Ouchi ocupava a posição mais próxima do recipiente no momento em que a reação teve início. Os cálculos posteriores indicaram que ele foi exposto a aproximadamente 17 sieverts de radiação.

Para ter uma noção, uma dose de 4 sieverts já é classificada como extremamente perigosa e pode levar à morte. Quando a exposição ultrapassa 8 sieverts, a sobrevivência é quase impossível.

Por isso, 17 sieverts configuram um nível considerado praticamente incompatível com a vida. Ainda assim, Ouchi seguiu consciente durante o transporte até o hospital.

Deterioração progressiva

Nos dias seguintes, os exames revelaram a gravidade do quadro. Os glóbulos brancos do homem praticamente desapareceram, deixando o organismo sem defesa imunológica.

Os testes também apontaram danos extensos e irreversíveis ao DNA das células. Sem conseguir se multiplicar, o corpo perdeu a capacidade de regeneração, o que levou a:

  • Desprendimento da pele porque as células não conseguiam se reproduzir;
  • Deterioração dos tecidos internos;
  • Proliferação de infecções diante da ausência de resposta imunológica;
  • Sangramentos internos;
  • Falência progressiva de órgãos.

Ouchi foi submetido a sucessivas transfusões de sangue, a procedimentos para estimular a produção celular e até a um transplante de células-tronco. 

Ainda assim, o corpo não respondeu aos tratamentos e continuou a entrar em colapso progressivo.

Quase três meses de sofrimento

Ouchi ficou internado por 83 dias em constante sofrimento.

Ao longo do tempo, o coração precisou ser reanimado após paradas cardiorrespiratórias. Já pulmões e rins perderam a capacidade de manter as funções vitais, o que demandou suporte intensivo permanente.

Há relatos de que, em intervalos de lucidez, ele teria manifestado o desejo de interromper os procedimentos devido ao sofrimento extremo. 

Mesmo sem perspectiva de reversão, a equipe médica manteve as intervenções, escolha que até hoje alimenta discussões éticas.

A morte foi confirmada em 21 de dezembro de 1999, causada por falência múltipla de órgãos.

Falhas que causaram acidente

As apurações oficiais indicaram que o acidente não ocorreu por falha tecnológica, mas por decisões humanas. Entre os motivos destacados estavam:

  • Desrespeito às normas de segurança;
  • Adoção de práticas improvisadas no manuseio do material radioativo;
  • Treinamento inadequado da equipe envolvida;
  • Cultura de trabalho que priorizava rapidez em vez de segurança.

A empresa administradora teve de pagar indenizações milionárias às vítimas, mas a unidade de Tokaimura só encerrou as atividades em 2011.

Outros casos envolvendo radiação

O acidente na usina de Chernobyl Nuclear Power Plant, em 1986, é considerado o pior desastre radioativo da história.

Além das mortes imediatas, deixou sequelas em sobreviventes e impactos observados até na geração seguinte.

Em 1945, as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki também liberaram níveis altíssimos de radiação. 

Ainda assim, Chernobyl é apontado como mais grave por ter liberado cerca de 400 vezes mais material radioativo.