IA vira buscador de informações mas brasileiros ainda acham curadoria humana indispensável; veja

Quase 8 em cada 10 brasileiros dizem confiar na imprensa em algum grau, enquanto pesquisas mostram crescimento do uso de ferramentas de inteligência artificial para buscar informações

Redação jornalística da Gazeta de S.Paulo com vários jornalistas trabalhando

Apesar do crescimento das IAs, jornalistas seguem sendo indispensáveis/ Foto: Gazeta de São Paulo

A inteligência artificial já começa a ocupar um espaço que, durante décadas, pertenceu principalmente aos buscadores, veículos de comunicação e outras fontes tradicionais de informação. 

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No Brasil, 47% dos usuários de internet com 16 anos ou mais já utilizaram ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, segundo o Painel TIC – Integridade da Informação, do Cetic.br. Outro levantamento, da Hedgehog Digital, aponta que oito em cada dez brasileiros utilizam alguma ferramenta de inteligência artificial para realizar pesquisas.

Apesar desse cenário, a confiança na imprensa ainda existe (e precisa continuar firme). Levantamento da multinacional de pesquisa online YouGov  enviado a Gazeta de São Paulo mostra que 79,6% dos brasileiros dizem confiar na imprensa em algum nível. 

Do total, 44,1% afirmam confiar moderadamente, 19,7% um pouco, 9,6% muito e 6,1% extremamente. Na outra ponta, 15,7% dizem não confiar nem um pouco, enquanto 4,7% responderam não saber.

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O que a pesquisa indica?

A pesquisa também ajuda a dimensionar o desafio de identificar informações falsas. Segundo o estudo, 45,2% dos entrevistados concordam que, às vezes, acreditam que notícias falsas são verdadeiras e só depois descobrem que estavam errados. Outros 31,4% não concordam nem discordam da afirmação, enquanto 23,4% discordam.

Nesse cenário, a inteligência artificial pode funcionar como uma ferramenta de apoio para encontrar informações, resumir conteúdos, explicar assuntos complexos e continuar uma busca iniciada em outro lugar. Dados da OpenAI analisados em 2026 mostram que 34,6% das mensagens enviadas por usuários brasileiros ao ChatGPT foram classificadas como pedidos de informação, orientação ou esclarecimento. Já 36,1% foram classificados como solicitações para executar alguma tarefa, como escrever, editar, analisar ou criar.

O uso de chatbots especificamente para se informar também cresceu. Segundo o Digital News Report 2026, do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, 13% dos brasileiros consultam chatbots de inteligência artificial semanalmente para obter informações sobre notícias, acima dos 9% registrados no ano anterior. Apesar do crescimento, apenas 1% dos entrevistados no Brasil aponta os chatbots como sua principal fonte de notícias.

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Entre aqueles que recorrem à IA para entender melhor o noticiário, o comportamento mais comum é continuar uma conversa sobre algo que já foi visto em outra fonte. Globalmente, 42% fazem perguntas adicionais sobre uma notícia, 35% buscam as últimas notícias, 34% pedem resumos, 33% solicitam uma avaliação sobre a confiabilidade de uma fonte e 30% pedem explicações mais simples. No Brasil, fazer perguntas adicionais é o principal uso entre os comportamentos analisados.

Isso não significa, porém, que a resposta produzida por uma inteligência artificial possa ser tratada automaticamente como informação verificada. A própria OpenAI afirma que o ChatGPT pode produzir informações incorretas ou enganosas, inclusive definições, datas, fatos, citações e referências inexistentes, e recomenda que informações importantes sejam verificadas em fontes confiáveis. 

A empresa também orienta que usuários mantenham revisão humana em trabalhos importantes e confiram dados, referências e informações técnicas.

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Por que informações vindas das IAs não devem bastar por si só?

Um dos problemas está justamente na forma como esses sistemas apresentam as respostas. Uma IA pode produzir um texto fluido, organizado e aparentemente seguro mesmo quando contém um erro. 

Esse tipo de ocorrência é conhecido como “alucinação”, quando o modelo gera uma resposta que parece plausível, mas não corresponde aos fatos. Por isso, a existência de uma resposta rápida não elimina a necessidade de conferir a origem da informação.

A questão ganha ainda mais importância diante do cenário identificado pela YouGov. Quase metade dos entrevistados (que ultrapassaram 23 mil pessoas), cerca de 49,1%, considera que organizações de notícias tendem a apresentar apenas um lado da história dependendo de quem as possui ou financia. Outros 36,8% não concordam nem discordam da afirmação, enquanto 14% discordam.

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Ao mesmo tempo, o consumo de jornalismo permanece alto. Segundo o levantamento, 72,5% dos brasileiros afirmam ter lido, ouvido ou assistido a notícias nas últimas 24 horas. Outros 15,8% tiveram contato com conteúdo jornalístico nos últimos sete dias, mas não nas últimas 24 horas.

Entre as principais fontes de atualização aparecem a televisão, citada por 67,4% dos entrevistados, os aplicativos e sites de redes sociais, com 59,4%, e os aplicativos e sites de notícias, com 52,6%. Conversas com amigos e familiares foram mencionadas por 35,9%, seguidas pelo rádio, com 26,9%, e pelos podcasts, com 24,9%.

“Em um ambiente em que a desinformação circula com velocidade, entender como o brasileiro percebe a imprensa ajuda a medir não apenas confiança, mas também os desafios atuais da credibilidade informativa”, afirma David Eastman, diretor-geral da YouGov para América Latina. Segundo ele, o estudo tem como base uma amostra nacionalmente representativa no Brasil.

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Para o público, a expectativa em relação ao jornalismo também envolve posicionamento e diversidade de perspectivas. Para 53,9%, os jornais devem incentivar o debate e desafiar perspectivas. Já 65,3% concordam que preferem jornais que não têm medo de dizer o que pensam. 

Ao mesmo tempo, 34,8% afirmam confiar mais nos grandes jornais, classificados na pesquisa como modelos standard, do que em tabloides, enquanto 39,6% permanecem neutros nessa comparação.

A combinação dos levantamentos aponta para uma mudança na forma como as pessoas chegam à informação. A inteligência artificial pode facilitar o acesso, organizar grandes volumes de conteúdo e ajudar a explicar temas, mas sua resposta não equivale, por si só, a uma informação apurada. 

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Jornalismo é cada vez mais essencial

Em um ambiente no qual 45,2% dos brasileiros dizem já ter confundido uma notícia falsa com uma verdadeira, a verificação de fontes e a curadoria humana continuam tendo papel central.

O cenário também ajuda a explicar por que o jornalismo profissional permanece relevante mesmo diante da multiplicação de ferramentas capazes de responder perguntas em poucos segundos. 

A IA pode participar do caminho até a informação, mas a checagem de documentos, a consulta a fontes, a contextualização dos fatos, a identificação de contradições e a responsabilidade sobre o que é publicado continuam dependendo de processos humanos.

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Em conjunto, os dados revelam um público que consome notícias com frequência, experimenta novas formas de buscar respostas e demonstra interesse crescente por ferramentas de inteligência artificial, mas que também está exposto a um ambiente informacional em que distinguir informação confiável de conteúdo enganoso continua sendo um desafio.