Por que governos estão trocando as luzes brancas da estrada por vermelho

Iniciativa visa reduzir a poluição luminosa e preservar a integridadade da fauna local, especialmente morcegos

Luzes vermelhas se mostram menos agressivas à fauna noturna do que luzes brancas

Luzes vermelhas se mostram menos agressivas à fauna noturna do que luzes brancas | Zee and Dani / Reprodução / YouTube

Uma rua em Gladsaxe, município perto de Copenhague, passou a chamar atenção por um detalhe incomum: a luz vermelha nos postes. Apesar de render um visual marcante, a mudança não é estética. Ela tenta reduzir a poluição luminosa e devolver espaço aos morcegos que cruzam a área à noite.

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O caso chama atenção porque mexe numa ideia antiga das cidades: a de que iluminar melhor é sempre iluminar mais. O projeto dinamarquês parte de outra lógica. A meta é iluminar apenas o suficiente para as pessoas não causarem acidentes, mas sem atrapalhar a rotina noturna da fauna local.

Do branco ao vermelho

Apesar de a luz ser crucial para tornar a estrada visível para os seres humanos, esse aumento de visibilidade pode se tornar um problema para animais noturnos. Essas espécies, especialmente os morcegos, se prejudicam por terem uma rota muito iluminada que os deixa vulneráveis a predadores.

Esses animais costumam sair dos abrigos e seguir caminhos escuros entre árvores, furtivamente. Quando uma via corta esse trajeto com brilho constante, parte da colônia pode evitar a travessia ou mudar todo o percurso.

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Espécies de morcegos dinamarqueses comuns, como o vindflagermus (Myotis daubentonii) ficam expostos ao ataque de corujas e outras aves de rapina (Foto: Gilles San Martin / Wikimedia Commons)Espécies de morcegos dinamarqueses comuns, como o vindflagermus (Myotis daubentonii) ficam expostos ao ataque de corujas e outras aves de rapina (Foto: Gilles San Martin / Wikimedia Commons)

O efeito não fica restrito aos morcegos. Em outra frente da vida noturna, o excesso de luz artificial nas cidades interfere na bioluminescência dos vagalumes, o que atrapalha sinais usados no acasalamento. 

O que muda com a luz vermelha?

A diferença está no espectro. A luz branca de LED costuma carregar forte componente azul, que se espalha mais e amplia a sensação de brilho no entorno. Já a luz vermelha tende a ser menos intrusiva, sobretudo em áreas em que a escuridão faz parte do equilíbrio local.

Experimento de campo, publicado em 2017 na Proceedings of the Royal Society B, observou que morcegos mais sensíveis à luz mantiveram atividade semelhante à registrada no escuro sob iluminação vermelha, ao contrário do que ocorreu com luz branca e verde.

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Um estudo mais recente, divulgado em 2024 na Science of the Total Environment, reforçou o alerta. Os autores verificaram que a luz artificial altera o ritmo noturno de insetos e morcegos, com impacto mais forte perto da luz branca e efeito atenuado perto da vermelha.

Por exemplo, os insetos utilizam a luz da Lua como meio de navegação, na chamada fototaxia positiva, e com o excesso de luz artifical eles podem se perder ou serem expostos à predadores (Foto: Arjun Aravind / Pexels)Por exemplo, os insetos utilizam a luz da Lua como meio de navegação, na chamada fototaxia positiva, e com o excesso de luz artifical eles podem se perder ou serem expostos à predadores (Foto: Arjun Aravind / Pexels)

Projeto dinamarquês

Em Gladsaxe, o planejamento distribuiu balizadores baixos ao longo do trecho e manteve áreas de escuridão entre eles. Nos pontos de cruzamento, a iluminação sobe e fica mais evidente para reforçar a segurança viária.

O desenho mostra uma mudança de raciocínio que interessa a outras cidades. Em vez de tratar a noite como um vazio a ser vencido com claridade total, a proposta reconhece que ruas, ciclovias e áreas verdes dividem o mesmo espaço com espécies que também usam a paisagem.

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“Esta é uma área natural especial que o município deseja proteger e preservar”

Philip Jelvard, designer de iluminação da Light Bureau, em entrevista ao EcoNews

Iniciativas semelhantes

O modelo dinamarquês dialoga com outras experiências na Europa. Em Nieuwkoop, nos Países Baixos, a iluminação de uma área residencial foi desenhada para não atrapalhar morcegos raros, com cor e comprimento de onda ajustados para preservar a atividade noturna.

Em Bruxelas, na Bélgica, a região de Jette recebeu um projeto piloto com LED alaranjado na Avenue du Sacré-Cœur. A proposta também visa reduzir o impacto da claridade na fauna local.

Nos Estados Unidos, em trechos costeiros da Flórida, há sinalização para usar luz vermelha ou âmbar perto da praia. Iniciativa foi tomada para evitar que filhotes de tartaruga marinha se desorientem, confundam o brilho urbano com o horizonte do mar e sigam na direção errada.