Turista encontra fóssil que parece sorrir há 350 milhões de anos em ilha inglesa de só 150 habitantes

Pedra encontrada por Christine Clark em Holy Island parecia uma dentadura, mas era parte de um antigo animal marinho

Partido longitudinalmente e curvado dentro da rocha, o caule fossilizado de um crinoide ganhou a aparência de uma boca com dentes. (Foto: Divulgação/Tony Jolliffe)

Partido longitudinalmente e curvado dentro da rocha, o caule fossilizado de um crinoide ganhou a aparência de uma boca com dentes. (Foto: Divulgação/Tony Jolliffe)

Pouco depois do Natal de 2025, Christine Clark caminhava pela praia de Holy Island of Lindisfarne com os olhos voltados para os seixos. A britânica de 64 anos procurava pequenas contas fossilizadas quando encontrou algo bem diferente: uma pedra curvada, marcada por divisões regulares, que parecia exibir uma fileira de dentes. “Parecia uma dentadura postiça”, contou.

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Na pequena ilha inglesa de aproximadamente 150 habitantes, que o avanço do mar isola duas vezes por dia, o achado logo ganhou mais atenção do que Christine esperava. Ela levou a pedra para casa e publicou uma fotografia em um grupo de identificação de fósseis no Facebook. Milhares de curtidas e comentários depois, cresceu a suspeita de que aquele sorriso havia pertencido a um antigo animal marinho.

A resposta veio do Serviço Geológico Britânico: a suposta dentadura nunca teve dentes. Era parte do caule de um crinoide, formada por pequenos segmentos que permaneceram unidos. Partida no sentido do comprimento e curvada dentro da rocha, a coluna ganhou a aparência de uma boca e conservou esse formato por cerca de 350 milhões de anos, até chamar a atenção de Christine durante uma caminhada.

Maré mudava o caminho

Christine passa as férias todos os anos em Lindisfarne com o marido, Gerard. Chegar e sair da ilha depende do movimento do mar: duas vezes por dia, a água cobre o acesso terrestre e interrompe a ligação com o continente. Quando a praia está ao alcance dos visitantes, ela costuma percorrer os seixos em busca de fósseis.

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Seu interesse está principalmente nas contas de Cuddy, pequenos discos que formavam o caule de crinoides e aparecem com frequência na região. Durante séculos, esses fragmentos foram recolhidos e transformados em colares.

Naquela caminhada, Christine esperava encontrar mais um disco solto. Em vez disso, viu vários segmentos ainda presos uns aos outros. Curvado dentro da rocha, o conjunto parecia uma dentadura e transformou uma busca já habitual em uma descoberta que acabaria diante de milhares de pessoas nas redes sociais.

Contas de Cuthbert

O nome dessas contas nasceu muito antes de alguém saber que elas haviam pertencido a um animal marinho. Cuddy é uma forma carinhosa de se referir a São Cuthbert, monge que chegou a Lindisfarne em 670, viveu no mosteiro local e foi enterrado na região.

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Com o passar dos séculos, o santuário dedicado a ele ganhou fama como lugar de milagres. Quando as pequenas peças começaram a ser encontradas no século 14, moradores atribuíram sua origem ao santo. Acreditavam que Cuthbert as produzia durante seu processo espiritual e que recolhê-las poderia aproximar o devoto dessa experiência.

A ciência mudou a explicação, mas não apagou o costume. Os antigos objetos de devoção continuaram espalhados pela praia, agora reconhecidos como partes fossilizadas de crinoides. Christine procurava justamente essas contas quando encontrou algo que parecia ter guardado todos os discos juntos e ainda os curvado na forma de um sorriso.

Dentes que não eram

Jan Hennissen, paleontólogo do Serviço Geológico Britânico, identificou o achado como uma coluna de crinoide formada por ossículos conectados. Esses pequenos discos compõem o caule do animal, mas costumam se desprender depois de sua morte. Por isso, peças isoladas são muito mais comuns do que sequências ainda unidas.

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O exemplar recolhido por Christine seguiu outro caminho. A coluna se partiu no sentido do comprimento e depois se curvou dentro da rocha. As divisões entre os segmentos passaram a lembrar o espaço entre dentes, criando a aparência que chamou sua atenção na praia.

A análise indica que o fóssil provavelmente veio da Formação Alston, composta por calcário escuro de cerca de 350 milhões de anos. O sorriso que divertiu as redes sociais era, na verdade, o resultado de uma quebra ocorrida em um vestígio de vida marinha muito antiga.

Flores que lembram animais

Crinoides surgiram no período Cambriano, há mais de 500 milhões de anos, e ainda podem ser encontrados nos oceanos. Um caule flexível prende o animal ao fundo do mar, enquanto braços ramificados se abrem ao redor da parte principal do corpo.

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A aparência delicada fez com que recebessem o nome de lírios-do-mar, embora pertençam ao reino animal. São parentes dos ouriços e dos pepinos-do-mar e integram o filo dos equinodermos.

Encontrar um crinoide completo é relativamente raro. Depois da morte, seu esqueleto tende a se desmontar, espalhando os discos do caule. Na costa de Northumberland, essas pequenas peças aparecem com facilidade muito maior do que colunas preservadas como a encontrada por Christine.

Sorriso guadado com ela

Quando a fotografia começou a circular, Christine recebeu propostas de pessoas interessadas em comprar o fóssil. Ela decidiu não vendê-lo por enquanto. A peça continuará com a mulher que primeiro enxergou uma dentadura onde milhões de anos haviam deixado apenas um caule curvado.

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Christine saiu em busca das contas de Cuddy e voltou com algo muito menos comum: vários segmentos ainda unidos, preservados por cerca de 350 milhões de anos. A análise desfez a impressão de dentadura, mas não aquilo que tornara o achado inesquecível.

Ela decidiu conservar a peça. Em vida, o crinoide não tinha boca nem dentes. Curvado dentro da rocha, porém, encontrou outra forma de ser reconhecido depois de todo esse tempo: pelo sorriso que nunca teve.