À medida que o calendário político avança rumo ao pleito de outubro, as estratégias de pré-campanha passam a considerar uma variável determinante: o não comparecimento do eleitor. Dados históricos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que o não comparecimento às urnas consolidou-se como uma das dinâmicas mais expressivas da política nacional ao longo dos últimos vinte anos e pode ter novo recorde em 2026.
A trajetória dos números demonstra essa expansão de forma clara: entre as disputas de 2006 e 2022, o volume de faltosos saltou de 21 milhões para 33 milhões. Há quatro anos, o índice atingiu o patamar recorde de 20,95% de ausências, o que representou um acréscimo de 2 milhões de eleitores ausentes em comparação com o pleito de 2018.
Qual a tendência para o volume de abstenções em 2026?
Caso o comportamento mantido ao longo do tempo se repita, as estimativas apontam que o volume de ausentes pode estabelecer um novo marco nas eleições de outubro, aproximando-se dos 35 milhões de pessoas.
Sob a ótica do professor de Políticas Públicas do Ibmec-DF, Arthur Wittenberg, o cenário brasileiro sugere uma reconfiguração de padrão cultural, com semelhanças em relação ao modelo norte-americano.
“Se essa tendência continuar indefinidamente, daqui a pouco teremos candidatos lutando mais para mobilizar o eleitor do que para conquistar o seu voto”, afirmou o professor.
Conforme o TSE, o eleitorado apto para a votação deste ano está estimado em 158 milhões de pessoas, número 1,46% superior aos 156,4 milhões registrados em 2022.
O crescimento do contingente total de votantes registrados, contudo, não garante redução nas ausências. É sempre importante diferenciar o não comparecimento, que é a ausência física na seção eleitoral, das escolhas por votos nulos ou brancos.
Divergências no comportamento: Esquerda x Direita
Ao avaliar as forças políticas atuantes no país, o acadêmico observa assimetrias no impacto do fenômeno sobre cada espectro.
“A direita costuma ver o fenômeno com menos preocupação porque seu eleitor tende a faltar menos às urnas, embora seja mais difícil de mobilizar. Já o eleitor da esquerda, em geral de menor renda e escolaridade, apresenta taxas maiores de ausência, mas reage mais facilmente à mobilização”, destacou.
Linha do tempo desde 1989 e determinantes sociais
No retorno das eleições diretas em 1989, a taxa de ausência foi contida, registrando 11,9%, patamar que se sustentou na disputa seguinte. O primeiro salto significativo ocorreu em 1998, alcançando 21,5% o maior índice do período pós-redemocratização até aquele momento.
Após anos de oscilação e relativa estabilidade, a curva voltou a crescer a partir de 2010, mantendo uma trajetória ascendente a cada novo ciclo presidencial.
As estatísticas do TSE associam o fenômeno precipuamente a condicionantes de escolaridade e contexto socioeconômico: em 2022, 55% dos eleitores que deixaram de votar possuíam instrução até o Ensino Fundamental.
Fatores como o receio de manifestação política também despontam em levantamentos. Pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica que essa apreensão afeta majoritariamente as mulheres (71,8%), os eleitores negros (73%) e as camadas de menor renda (71,5%).
A distribuição do absenteísmo no território nacional
No recorte regional mapeado pelo órgão eleitoral, a região Sudeste concentra os maiores volumes absolutos de não comparecimento, abrangendo os estados de São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Minas Gerais (MG) e Espírito Santo (ES).
Em contrapartida, as regiões Sul e Nordeste figuram com os menores índices proporcionais de abstenção, apresentando maior assiduidade dos eleitores junto às urnas.






