Impeachment do presidente e crise bancária: entenda o que está acontecendo no Paraguai

Crise do Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso ao próprio dinheiro, provocou protestos e levou o presidente Santiago Peña a anunciar sua renúncia

Crise também afeta brasileiros que residem no país/ Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

O Paraguai enfrenta uma das maiores crises políticas e financeiras de sua história recente. O colapso do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do país, desencadeou uma onda de protestos, deixou milhões de correntistas sem acesso imediato às economias e colocou o presidente Santiago Peña no centro de um escândalo que ameaça seu mandato.

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A crise começou após o Banco Central do Paraguai (BCP) identificar graves problemas financeiros na instituição e determinar sua intervenção. A situação ganhou proporções políticas depois que vieram à tona as relações entre o banco e integrantes do governo, incluindo o próprio presidente.

Em meio à pressão popular e à perda de apoio político, Peña anunciou sua renúncia na quinta-feira (5). No entanto, o Congresso não aceitou formalmente sua saída, e os parlamentares deram prosseguimento ao processo de impeachment. Nesta sexta-feira (6), o presidente também passou a ser alvo de três investigações criminais relacionadas ao caso.

Entenda os principais acontecimentos e por que o Paraguai enfrenta uma crise que envolve o sistema bancário e a cúpula do governo.

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O que aconteceu com o Ueno Bank?

O estopim da crise foi a situação financeira do Ueno Bank, uma das principais instituições digitais do Paraguai, que reunia aproximadamente 2,9 milhões de clientes, quase metade da população do país.

Na terça-feira (3), o Banco Central paraguaio anunciou a intervenção na instituição após identificar problemas graves em seus demonstrativos financeiros e constatar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.

Entre as irregularidades apontadas estão empréstimos a empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco, além de questionamentos sobre despesas contabilizadas como ativos.

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Com a decisão, os serviços da instituição foram suspensos, incluindo operações pelo aplicativo e utilização de cartões. Milhões de correntistas ficaram temporariamente sem acesso às próprias contas e economias.

O problema também atingiu recursos públicos. O Ueno Bank administrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos estatais, incluindo valores relacionados ao sistema de previdência social e a empresas públicas.

O Ministério Público também determinou medidas contra oito executivos e dirigentes ligados à instituição. Entre eles está o principal acionista do grupo, Miguel Vázquez, que se apresentou às autoridades.

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Por que a crise atingiu o presidente Santiago Peña?

A situação ganhou contornos políticos por causa das relações entre o Ueno Bank e o presidente paraguaio, Santiago Peña.

Antes de assumir a Presidência, em 2023, Peña foi sócio do Grupo Vázquez, holding responsável pelo controle da instituição financeira. Ele vendeu sua participação em março de 2025, já durante o mandato.

Outro ponto que provocou questionamentos foi a trajetória de Carlos Carvallo, que presidiu o Ueno antes de assumir o comando do Banco Central, em 2023, por indicação de Peña.

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A oposição passou a questionar possíveis conflitos de interesse, a fiscalização exercida pelo órgão regulador e a destinação de recursos públicos ao banco.

As suspeitas também envolvem possíveis favorecimentos à instituição e omissão diante de irregularidades financeiras. Peña nega ter cometido ilegalidades e afirma que está disposto a colaborar com as investigações.

A crise provocou ainda a renúncia de Carlos Carvallo do comando do Banco Central, em meio à pressão sobre a atuação da autoridade monetária na fiscalização do Ueno Bank.

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Santiago Peña renunciou? Entenda o impeachment

Na quinta-feira (5), Santiago Peña anunciou que apresentaria sua renúncia à Presidência do Paraguai. A decisão ocorreu em meio ao avanço das articulações pelo impeachment e à perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado, legenda governista.

Em uma mensagem direcionada à população, o presidente afirmou que sua decisão considerava a estabilidade do país, a paz social e a preservação das instituições democráticas.

A saída, entretanto, não foi formalizada pelo Congresso. Pouco depois do anúncio, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o início do processo de impeachment, com 78 votos favoráveis.

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Uma sessão conjunta do Congresso chegou a ser convocada para analisar a renúncia, mas acabou suspensa por falta de quórum, após parlamentares governistas deixarem o plenário.

Com isso, Peña continuou formalmente no cargo e passou a enfrentar o julgamento político no Senado.

O presidente solicitou uma prorrogação de 72 horas para preparar sua defesa. O pedido provocou divergências entre os parlamentares, que discutem o prazo necessário para garantir o direito de defesa sem interromper o andamento do processo.

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Para aprovar a destituição, são necessários pelo menos 30 votos favoráveis entre os 45 senadores.

Presidente também é alvo de investigações criminais

Além do processo de impeachment, Santiago Peña passou a ser investigado pelo Ministério Público paraguaio em três procedimentos criminais relacionados ao escândalo do Ueno Bank.

As apurações envolvem suspeitas sobre a fiscalização da instituição financeira, a destinação de recursos públicos ao banco e a atuação de autoridades e ex-integrantes do governo.

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As investigações também alcançam o vice-presidente Pedro Alliana, além de autoridades e ex-funcionários do Banco Central e de órgãos públicos relacionados às operações financeiras.

O Ministério Público informou que as apurações consideram denúncias apresentadas por parlamentares.

Peña afirmou que pretende colaborar com as autoridades e que apresentará informações necessárias para esclarecer o caso.

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Como a crise afeta os brasileiros que vivem no Paraguai?

O impacto da crise também atingiu milhares de brasileiros que escolheram o Paraguai como destino para morar, estudar ou empreender. Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores, cerca de 270 mil brasileiros viviam no país em 2025, formando a maior comunidade brasileira na América do Sul.

Nos últimos anos, o movimento migratório foi impulsionado por fatores como a busca por menor carga tributária, oportunidades de negócios, custos de vida e insatisfação com o cenário econômico e político brasileiro.

Parte desses imigrantes também utilizava o Ueno Bank para receber pagamentos, guardar economias e movimentar o dinheiro no cotidiano. A facilidade para abrir contas fez com que a instituição se tornasse uma das principais opções entre estudantes brasileiros de medicina, pequenos comerciantes da região de fronteira, produtores rurais e empresários.

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Com o bloqueio dos serviços, muitos ficaram sem acesso ao dinheiro usado para pagar aluguel, mensalidades universitárias, alimentação e despesas dos próprios negócios. Entre os atingidos está o produtor audiovisual brasileiro Fernando Zani Ramírez, de 35 anos, que mora há quase 16 anos no Paraguai.

Em entrevista à Gazeta de S. Paulo, ele classificou o cenário como delicado e surreal. Além de ficar sem acesso à própria conta, o profissional relatou que a paralisação também interrompeu o recebimento de pagamentos por serviços realizados por sua produtora. Segundo ele, a falta de acesso aos recursos atingiu trabalhadores, microempreendedores e idosos, que tiveram dificuldades até para comprar alimentos e abastecer veículos.

A expectativa dos correntistas é que os valores sejam devolvidos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos, acionado pelo Banco Central paraguaio. Entretanto, enquanto o ressarcimento não é concluído, brasileiros que dependiam da instituição precisam recorrer a reservas mantidas em outros bancos, cartões emitidos no Brasil ou à ajuda de familiares para manter as despesas.

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A crise também gera incertezas entre empresários que planejam investir no país, embora representantes do setor avaliem que ainda é cedo para falar em uma saída em massa de empresas brasileiras do Paraguai.

Quem pode assumir a Presidência do Paraguai?

O vice-presidente Pedro Alliana é o principal nome na linha de sucessão e poderá assumir o comando do país caso a saída de Peña seja formalizada. A Câmara dos Deputados, porém, rejeitou um pedido de impeachment contra Alliana, preservando sua posição na linha sucessória.

Se a renúncia de Peña for aceita, Alliana deverá assumir a Presidência e concluir o mandato, previsto para agosto de 2028. Caso o impeachment seja aprovado pelo Senado, a sucessão também deverá seguir as regras constitucionais paraguaias.

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Como ficam os clientes que tinham dinheiro no banco?

O Banco Central anunciou medidas para iniciar a devolução dos depósitos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos. Pelas regras paraguaias, o fundo garante valores de até 75 salários mínimos mensais por pessoa ou empresa em cada instituição financeira.

Como primeira medida, as autoridades anunciaram um pagamento antecipado de até 10 milhões de guaranis para os clientes afetados. O Banco Central também trabalha na organização da transferência de depósitos e operações para outras instituições financeiras.

Quem possui valores acima do limite garantido dependerá da apuração dos ativos e passivos do banco para saber quanto poderá recuperar.

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O episódio provocou manifestações populares em Assunção. Correntistas, aposentados e trabalhadores foram às ruas cobrar a devolução do dinheiro e explicações das autoridades.

O Paraguai enfrenta uma crise em todo o sistema bancário?

Apesar da dimensão do caso, a crise está concentrada no Ueno Bank e não significa, necessariamente, que todo o sistema financeiro paraguaio esteja em colapso.

O Banco Central adotou um procedimento especial de resolução da instituição, previsto na legislação para situações de insolvência. O mecanismo permite que a autoridade monetária assuma o controle do banco, reorganize seus ativos e passivos e busque alternativas para proteger os depositantes.

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Mesmo assim, o episódio provocou desconfiança entre investidores, questionamentos sobre a fiscalização bancária e preocupações com a utilização de recursos públicos em instituições privadas.

A crise também colocou em xeque a imagem do Paraguai como um país de estabilidade econômica e ambiente favorável aos negócios.

Por enquanto, o futuro político de Santiago Peña, o resultado do julgamento no Senado e a recuperação dos valores depositados no Ueno Bank permanecem entre os principais desafios das autoridades paraguaias.