Carla Zambelli: por que a prisão no exterior virou jogada estratégica?

Entenda como a defesa usa a jurisdição europeia para ganhar tempo contra STF

Defesa de Zambelli tenta na Itália converter o isolamento em Roma em ganho de tempo contra o sistema prisional brasileiro.

Defesa de Zambelli tenta na Itália converter o isolamento em Roma em ganho de tempo contra o sistema prisional brasileiro. | Lula Marques/EBC

A autorização da extradição de Carla Zambelli pela Justiça italiana, ocorrida em 25 de março de 2026, revela que a prisão no exterior pode ser, paradoxalmente, uma ferramenta de defesa. Para especialistas, permanecer em solo europeu não é apenas fuga, mas uma escolha deliberada por um sistema jurídico que oferece ritos mais lentos.

Geopolítica da jurisdição e o limite da cidadania

A ex-deputada apostou na cidadania iure sanguinis para evitar o cumprimento da pena de 10 anos imposta pelo STF. Contudo, o Tribunal de Roma entendeu que o vínculo é meramente formal, prevalecendo o tratado de 1989 entre Brasil e Itália, que autoriza a entrega de nacionais em crimes comuns.

O tempo como estratégia contra o STF

No xadrez jurídico, cada recurso apresentado na Itália representa meses de fôlego e distância do sistema prisional brasileiro. Mesmo detida em Roma desde julho de 2025, o atraso no processo de extradição serve para desgastar a narrativa da acusação e aguardar possíveis mudanças no cenário político nacional.

A estratégia do “ganhar tempo” visa uma possível prescrição ou alteração de entendimento jurídico no Brasil enquanto a ré permanece sob custódia europeia. Para a defesa, o isolamento em uma cela italiana é um custo aceitável diante da rigidez imediata que a espera no sistema penitenciário brasileiro.

Direito e escolha de campo na Corte de Cassação

Com o recurso previsto para a Corte de Cassação até abril de 2026, o campo de batalha jurídico se desloca para a última instância judicial italiana. Esta etapa é crucial, pois analisa se houve violação de garantias fundamentais durante o processo de extradição, funcionando como um “escudo” final antes da decisão política.

A palavra final caberá ao Ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio, que possui 45 dias para homologar a decisão judicial. Se a estratégia de “escolha de campo” falhar na última instância, o voo sob custódia para o Brasil marcará o fim de um dos capítulos mais complexos da cooperação jurídica internacional recente.