Uma disputa marcada por fortes contrastes de trajetória, idade e evolução patrimonial. A corrida presidencial coloca frente a frente o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aos 81 anos, em busca do quarto mandato no Palácio do Planalto, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), de 45 anos, alçado à disputa nacional após a inelegibilidade e condenação do pai, Jair Bolsonaro.
Enquanto o petista ostenta 12 anos de experiência no Poder Executivo e uma redução de 40% em seus bens declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde 2018, o parlamentar do PL tenta sua primeira experiência na chefia do Executivo embalado por uma rápida evolução patrimonial, que saltou de R$ 1,74 milhão para R$ 8,19 milhões no mesmo período.
O cruzamento de dados oficiais realizado pela “Crime Brasil“, exclusivo à Gazeta, analisou de diversos órgãos para mostrar o raio-x de ambos os candidatos.
As duas pessoas e o patrimônio de Lula e Flávio
| Lula | Flávio Bolsonaro | |
| Idade na posse (05/01/2027) | 81 anos | 45 anos |
| Experiência executiva | 12 anos de Presidência (2003-2010, 2023-) | Nenhuma. Nunca ocupou cargo executivo |
| Mandatos | Deputado federal constituinte (1987-1991); presidente 3 vezes | Deputado estadual RJ 4 vezes (2003-2018); senador desde 2019 |
| Vice | Geraldo Alckmin (PSB) | Alfredo Gaspar |
| Patrimônio declarado ao TSE | 2018: R$ 7,99 mi → 2022: R$ 7,42 mi → 2026: R$ 4,77 mi (−40% desde 2018) | 2018: R$ 1,74 mi → 2026: R$ 8,19 mi (4,7 vezes; +370% nominal, +211% já corrigido pela inflação, Poder360). 76% é a casa do Lago Sul, R$ 6,23 mi, comprada em 2021 com R$ 3,1 mi do BRB |
| Saúde divulgada | Cirurgia para drenar hematoma na cabeça (10/12/2024, após queda em 19/10/2024); carcinoma basocelular retirado do couro cabeludo (24/04/2026); check-up normal (08/03/2026) | Nenhum boletim oficial |
| Candidato por quê | Condenações anuladas em 2021 | Pai inelegível até 2030 e condenado a 27 anos e 3 meses |
Os vices de Lula e Flávio
As alianças formadas para a disputa presidencial vão além da escolha dos cabeças de chapa; a definição dos candidatos a vice-presidente reflete movimentos estratégicos calculados para atrair eleitorados específicos e dar equilíbrio político às candidaturas.
Geraldo Alckmin (PSB): a ponte com o centro e a gestão consolidada
Na chapa da situação, a manutenção de Geraldo Alckmin (PSB) reforça o arco de aliança ampla que garantiu a vitória no pleito anterior. Ex-governador de São Paulo por quatro mandatos e ex-adversário histórico do PT, Alckmin cumpre o papel de interlocutor constante com o setor produtivo, o mercado financeiro e os eleitores de centro-direita.
Sua presença na chapa traz peso institucional e estabilidade política, acumulando experiência de gestão e atuando como peça-chave na articulação econômica e industrial do governo.
Alfredo Gaspar (PL): a pauta da segurança e a ponte com o Nordeste
Na oposição, a escolha de Alfredo Gaspar para compor a chapa com Flávio Bolsonaro busca responder a duas demandas centrais da campanha do PL. Deputado federal por Alagoas, ex-promotor de Justiça e ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas, Gaspar traz para a chapa o apelo da pauta do combate à criminalidade e da lei e ordem.
Além da bagagem no Ministério Público e no setor de segurança, sua origem nordestina é vista pelo partido como um ativo fundamental para estruturar um palanque competitivo e ampliar a interlocução com o eleitorado da região Nordeste.
Compare as propostas de governo de Flávio Bolsonaro e Lula para os próximos quatro anos
A disputa pelas diretrizes do governo federal contrapõe duas visões distintas sobre o papel do Estado, a gestão da economia e a condução das políticas sociais no País.
De um lado, Flávio Bolsonaro apresenta um projeto focado no liberalismo econômico, na desburocratização e no endurecimento da segurança pública. De outro, Lula propõe um modelo focado no fortalecimento do Estado de bem-estar social, no desenvolvimento sustentável e na indução estatal da economia.
Comparativo dos compromissos nas propostas de governo por área temática:
Papel do Estado e gestão pública
- Flávio: defende uma orientação liberal, conservadora e reformista, focada em um Estado enxuto e eficiente. Propõe a redução da máquina pública com o corte de no mínimo 10 ministérios, a diminuição de cargos comissionados e o combate a supersalários. O plano prioriza a autonomia financeira das famílias para a construção de patrimônio em vez da dependência do setor público.
- Lula: aponta a ampliação da capacidade de planejamento e indução do Estado como motor do desenvolvimento popular e soberano. A aposta central é na manutenção do investimento público social, na prestação universal de serviços e na expansão da participação social por meio de conferências e conselhos públicos.
Segurança Pública e Justiça
- Flávio: propõe a classificação de facções criminosas (como PCC e Comando Vermelho) como organizações narcoterroristas. Promete o uso de tropas especiais da Marinha e Aeronáutica no monitoramento permanente de portos e aeroportos, a construção de 5 novos presídios federais de segurança máxima com mais 500 mil vagas no sistema prisional, a implementação de castração química para abusadores sexuais e o sistema de reconhecimento facial “Muralha Brasileira” com mais de 1 milhão de câmeras. Defende também o redirecionamento de auxílios a detentos para as famílias das vítimas. No Judiciário, propõe restringir decisões monocráticas no STF e extinguir a reeleição presidencial.
- Lula: defende a criação do Ministério da Segurança Pública e o fortalecimento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado, prevendo a alocação de R$ 10 bilhões via Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS). Prevê o cumprimento do Plano Pena Justa no sistema penitenciário, a manutenção do controle rigoroso sobre o comércio de armas e munições e a ampliação do programa de estímulo às câmeras corporais em policiais.
Economia, gestão fiscal e Reforma Tributária
- Flávio: estabelece o equilíbrio fiscal por meio da corte profundo de despesas públicas (“tesouraço”). Compromete-se com a revisão e o redimensionamento da reforma tributária em curso para reduzir a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e diminuir tributos sobre produção e consumo. Prevê a retomada do Programa Nacional de Desestatização e proíbe o uso de verbas de programas sociais em apostas online (bets).
- Lula: defende a consolidação do novo arcabouço fiscal aliado à responsabilidade social e ambiental. Basa a arrecadação na justiça tributária, mantendo a tributação sobre super-ricos e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. Prevê a implementação da reforma tributária do consumo com mecanismo de cashback para a população de baixa renda e Imposto Seletivo para produtos nocivos, impulsionada por investimentos estatais do Novo PAC e da Nova Indústria Brasil (NIB).
Trabalho, emprego e renda
- Flávio: busca a redução gradual do custo do trabalho para incentivar a formalização. Propõe estímulos fiscais para o primeiro emprego de jovens (18 a 24 anos) e a contratação de pessoas com mais de 50 anos desempregadas. Defende a prevalência do “negociado sobre o legislado”, a flexibilização de jornadas e a garantia das atividades por aplicativo sem ingerência sindical.
- Lula: reafirma a política de valorização real do salário mínimo. Assume o compromisso de apoiar o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução salarial. Prevê o combate à “pejotização espúria”, a regulamentação do trabalho intermediado por plataformas digitais com direitos trabalhistas e previdenciários e a consolidação da Lei de Igualdade Salarial.
Educação
- Flávio: estabelece a alfabetização pelo método fônico como prioridade pedagógica. Defende a gestão escolar orientada por indicadores de resultado, a ampliação das Escolas Cívico-Militares e a proibição de “doutrinação político-partidária” em sala de aula. Propõe ainda transferir a governança do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, visando alinhar a pesquisa acadêmica ao mercado produtivo.
- Lula: foca na expansão da educação em tempo integral e na construção de creches pelo Novo PAC. Promove o fortalecimento do Programa Pé-de-Meia para conter a evasão escolar no ensino médio, o aprimoramento das cotas raciais e sociais no ensino superior público e a consolidação da Universidade Indígena.
Saúde
- Flávio: propõe a correção efetiva da tabela de ressarcimento do SUS para conter a defasagem financeira de hospitais filantrópicos e Santas Casas. Defende a implementação do Prontuário Eletrônico Único integrado ao CPF/Gov.br e o uso de inteligência artificial para agilizar a marcação de consultas e exames preventivos na rede pública.
- Lula: prioriza o fortalecimento do SUS 100% público e universal. Apresenta o programa “Agora tem Especialistas” para reduzir o tempo de espera por exames e cirurgias via fila única digital regulada por risco clínico. Prevê investimentos contínuos na Estratégia Nacional do Complexo Econômico-Industrial da Saúde para nacionalizar a produção de medicamentos e vacinas.
Meio Ambiente, agronegócio e energia
- Flávio: enxerga o agronegócio como pilar da segurança alimentar nacional. Propõe a expansão do Seguro Rural, o incentivo à irrigação e o licenciamento ambiental ágil com concessão automática por inércia estatal caso prazos não sejam cumpridos. Estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e incentiva a exploração de gás não convencional (fracking) e biocombustíveis.
- Lula: reafirma o compromisso de alcançar o desmatamento líquido zero em todos os biomas até 2030 com apoio do Plano de Transformação Ecológica. Defende a transição energética acelerada via fontes renováveis e o fortalecimento do papel da Petrobras. Na agricultura, propõe a ampliação continuada do Plano Safra e do Pronaf com incentivo à agroecologia, bioinsumos e agricultura familiar.
Levantamento da Crime Brasil exclusivo à Gazeta
Os dados analisados fazem parte de um levantamento realizado pela plataforma Crime Brasil exclusivo à Gazeta. O objetivo não é induzir o eleitor a votar em um deles. Ela põe lado a lado, com fonte e data, o que a Justiça, o IBGE, o Ministério da Saúde, o Banco Central, o INPE, o TSE e os institutos de pesquisa registraram sobre os dois candidatos.




