Meta está boicotando Lula? Entenda polêmica sobre geração de imagens

O filtro da IA restringe nomes políticos específicos e Flávio não entrou na lista de bloqueios, assim como apenas “Luiz”; entenda 

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Cerimônia sobre medidas para microempreendedores individuais, no Palácio do Planalto / Ricardo Stuckert

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Cerimônia sobre medidas para microempreendedores individuais, no Palácio do Planalto / Ricardo Stuckert

A inteligência artificial da Meta, disponível no WhatsApp, está no centro de uma polêmica envolvendo a geração de imagens políticas. Muitos usuários compartilharam nas redes hoje (14) que a geração de imagens do sistema não produz imagens com “Lula 13” quando solicitada, mas cria fotos relacionadas a “Flávio 22”. 

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A polêmica debates na web sob a possível interferência de Mark Zuckerberg nas eleições brasileiras. Outros episódios, como falhas nas redes sociais do atual presidente Luiz Inácio (Lula), também aumentaram as suspeitas. Ao ser questionado, Zuckerberg afirmou publicamente que o erro nas contas de Lula teria sido uma “coincidência” e puramente uma falha técnica, apesar de perfis de direita não terem sido igualmente afetados.

Segundo a Meta, uma falha global afetou a contagem de visualizações de Reels em 7 de outubro, entre 15h50 e 20h49. A empresa afirmou que o problema atingiu criadores de conteúdo em mais de cem países, não alterou a distribuição das publicações e não teve relação com a política brasileira.

Então isso pode estar acontecendo por conta da nossa legislação eleitoral?

O uso de inteligência artificial nas eleições brasileiras é regulamentado pela Justiça Eleitoral. As regras estabelecem obrigações de transparência para conteúdos sintéticos utilizados na propaganda e proíbem que sistemas de IA recomendem ou favoreçam candidaturas, direta ou indiretamente.

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A Resolução TSE nº 23.755/2026 também prevê restrições à circulação de novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao encerramento da votação.

Isso não significa, por si só, que toda recusa ou diferença de resultado na geração de imagens constitua uma infração eleitoral. Para avaliar uma eventual irregularidade, seria necessário examinar o funcionamento do sistema, as circunstâncias dos pedidos e a aplicação das normas ao caso concreto.

O que diz a Meta?

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Em nota, a Meta contestou as acusações e afirmou que elas não correspondem aos fatos. A empresa argumentou que os problemas técnicos citados não se limitaram ao Brasil nem atingiram exclusivamente contas específicas. Também declarou seguir a legislação eleitoral e buscar garantir condições iguais de uso de suas plataformas.

A campanha do PT acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para solicitar a apuração do caso. Os representantes do presidente levantam a hipótese de que a atuação da empresa possa interferir no processo eleitoral brasileiro e beneficiar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro.

O partido também questiona a explicação apresentada pela Meta sobre uma suposta falha técnica. Segundo a campanha, a empresa não teria apresentado evidências suficientes para demonstrar que o problema atingiu outros mercados e anunciantes, nem comprovado que outros candidatos brasileiros foram afetados da mesma maneira.

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Diante das acusações, o TSE estabeleceu prazo de 48 horas para que a Meta prestasse esclarecimentos. Além disso, um levantamento da Secretaria Nacional de Comunicação do PT aponta que o perfil de Flávio Bolsonaro registrava, em média, 2,96 vezes mais engajamento do que o de Lula, embora tivesse 17,2% menos seguidores.

Testes de geração de imagem com a IA da Meta

Fiz alguns testes no meu Whatsapp para entender os limites do bloqueio. Quando solicitei uma imagem verde e amarela escrita “Lula 13” a IA me informou que não poderia gerar o conteúdo. Tentei “Bolsonaro 22” e também sofri o mesmo bloqueio. 

“Flávio 22”, porém, é permitido pela geração de imagens, assim como “Luiz 13”. Já “Luiz Inácio 13” também não funciona, nem “Flávio Bolsonaro 22”. O filtro restringe nomes políticos específicos. 

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“O que acontece é que a geração de imagem passa por um filtro automático de segurança. Esse filtro às vezes bloqueia alguns nomes e textos, principalmente de figuras políticas mais conhecidas nacionalmente, e libera outros que são menos reconhecidos pelo sistema”, me respondeu o chatbot quando questionei os critérios de geração de imagem.

Em outro teste a inteligência artificial produziu uma arte com a expressão “Presidente 13”, sem identificar nominalmente o candidato. Na sequência, voltou a bloquear a geração de uma imagem com o nome completo de Lula e o número eleitoral.

Apesar de testes semelhantes compartilhados nas redes, é importante reforçar que não podemos concluir que todos os usuários receberão as mesmas respostas ao abordar o tema. Ainda assim, a diferença observada levanta questionamentos sobre a consistência dos filtros aplicados à geração de conteúdo político.

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Oposição levanta envolvimento das Big Techs com a extrema direita

Especialistas afirmam que as big techs não são intermediárias neutras do debate público, já que suas escolhas técnicas e comerciais têm consequências políticas.

Quando a lógica do lucro se sobrepõe à integridade da informação e à proteção da democracia, as plataformas podem se tornar instrumentos de fortalecimento da extrema direita e contribuir para manter as estruturas econômicas que garantem poder às próprias empresas. 

As big techs trabalham em prol da manutenção do capitalismo para preservar a concentração de riqueza e poder. Plataformas como Meta, Google e X não são apenas empresas de tecnologia, mas estruturas privadas que controlam uma parcela significativa da circulação de informações, do debate público e da publicidade digital. 

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Nesse contexto, suas decisões sobre moderação de conteúdo, algoritmos e distribuição de notícias podem influenciar a formação da opinião pública e o funcionamento da democracia.

A aproximação de setores da indústria tecnológica com lideranças e movimentos de extrema direita pode ser explicada, em parte, por seus interesses econômicos e políticos. Projetos que defendem a desregulamentação, a redução de impostos para grandes empresas e o enfraquecimento de mecanismos de controle estatal podem beneficiar diretamente os donos dessas plataformas. 

Ao mesmo tempo, discursos contra instituições democráticas, políticas de inclusão e direitos trabalhistas podem ajudar a enfraquecer movimentos que ameaçam o sistema, que questionam a concentração de renda e o poder das grandes corporações.

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O modelo de negócios dessas plataformas depende do absurdo. Como o lucro depende da coleta de dados, da publicidade e da atenção dos usuários, os algoritmos tendem a privilegiar conteúdos capazes de provocar reações e prolongar o tempo de permanência nas redes. 

Publicações sensacionalistas, teorias conspiratórias e mensagens que despertam medo ou indignação podem, assim, ganhar visibilidade e alimentar a polarização política. A extrema direita se beneficia desse ambiente ao mobilizar ressentimentos, disseminar desinformação e desacreditar instituições democráticas.

Essa relação também aparece na resistência das empresas à regulação. A Fundação Rosa Luxemburgo destaca a aproximação de empresários do setor, como Elon Musk e Mark Zuckerberg, com Donald Trump e a oposição a iniciativas de controle das plataformas. 

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Afinal, a Meta está boicotando Lula?

Os testes indicam um comportamento inconsistente da Meta AI diante de solicitações semelhantes envolvendo políticos brasileiros. A ferramenta bloqueou algumas combinações de nomes e números associados a Lula, mas aceitou outras, além de produzir uma imagem relacionada a Flávio Bolsonaro.

A diferença merece esclarecimentos, especialmente em um período eleitoral no qual ferramentas de inteligência artificial podem ser utilizadas para criar materiais de campanha e influenciar o debate público.

Perfis de esquerda seguem reclamando do baixo engajamento mesmo em perfis com seguidores superiores ou equivalentes ao de direita. Além disso, usuários da oposição relatam que quando criam conta no TikTok do zero para fazer novos testes de algoritmo, os vídeos sugeridos já possuem automaticamente um viés de direita.

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Apesar do modelo de negócios e do interesse dessas empresas por trás das plataformas, não podemos afirmar com certeza que existe um boicote deliberado ao presidente ou uma orientação da companhia para beneficiar seu adversário.

É essencial seguir exigindo evidências e esclarecimentos das big techs sobre os critérios técnicos do sistema e sobre a existência, ou não, de tratamento intencionalmente desigual.