O que são as milícias e como funcionam os grupos armados no Brasil que viraram tema na disputa presidencial deste ano

Nascidas sob o discurso de "proteção" e combate ao crime, organizações paramilitares avançaram sobre serviços essenciais, a política e a vida de milhões de brasileiros

Muzema, em Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, é uma área dominada pela milícia / Fernando Frazão/Agência Brasil

Muzema, em Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, é uma área dominada pela milícia / Fernando Frazão/Agência Brasil

Um dos temas centrais da disputa presidencial de 2026 gira em torno das milicias. Os grupos armados contemporâneas têm suas raízes ligadas a grupos de extermínio e práticas de vigilantismo comunitário consolidadas no Rio de Janeiro a partir dos anos 1990 e início dos anos 2000.

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Em seu surgimento, muitas dessas organizações eram formadas por agentes e ex-agentes das forças de segurança do estado, como policiais militares, civis, bombeiros e agentes penitenciários, que se apresentavam às comunidades vulneráveis sob a justificativa de expulsar o tráfico de drogas e garantir “ordem e segurança” local.

O discurso de “proteção” serviu como fachada para a ocupação de territórios neglected pelo Estado. Inicialmente aceitas ou toleradas por parte da população e de gestores públicos, as milícias logo abandonaram a premissa de segurança comunitária para instituir um modelo rigoroso de extorsão e violência privada.

Desenvolvimento das milicias e o poder do “imposto da segurança”

Com o passar dos anos, o modelo financeiro e operacional das milícias se diversificou drasticamente. Ao contrário de facções tradicionais do narcotráfico, cuja receita advinha majoritariamente da venda de substâncias ilícitas, os grupos paramilitares construíram um verdadeiro ecossistema de monopolies forçados sobre bens e serviços básicos do cotidiano urbano:

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  • Cobrança de “taxas de proteção”: mensalidades cobradas de moradores e comerciantes locais.
  • Controle de serviços básicos: monopólio da venda de gás de cozinha, distribuição de água potável, sinais ilegais de TV a cabo e internet (“gatenet”).
  • Transporte alternativo: exploração do transporte comunitário por vans e mototáxis.
  • Mercado imobiliário e construção civil ilegal: invasão de terras públicas, grilagem e edificação de imóveis sem licenciamento ambiental ou urbanístico.
  • Narcotráfico e narcomilícia: aproximação estratégica de facções criminosas para divisão de rotas e venda controlada de drogas, originando o fenômeno conhecido como narcomilícia.

Paralelamente ao domínio econômico, as milícias investiram no aparelhamento político. Candidatos financiados ou ligados diretamente aos paramilitares passaram a ocupar cargos no Legislativo e no Executivo, garantindo blindagem institucional, acesso a verbas públicas e influência sobre a fiscalização estatal.

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Como agem: controle territorial e coerção cotidiana

A atuação das milícias é caracterizada pelo controle social ostensivo e pela imposição do silêncio. Diferente de dinâmicas marcadas por tiroteios constantes, a presença miliciana costuma estabelecer uma dominação “silenciosa”, sustentada por ameaças implícitas ou diretas.

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Entre as principais formas de atuação estão:

  1. Intimidação e homicídios encomendados: Execução de dissidentes, devedores, ativistas comunitários e lideranças policiais que tentam coibir suas atividades.
  2. Uso de armas de grosso calibre: Manutenção de braços armados bem treinados e equipados com armamento bélico de uso restrito.
  3. Justiça paralela: Imposição de regras comportamentais rígidas dentro dos bairros dominados, incluindo toques de recolher e punições sumárias para infratores das regras ditadas pela milícia.

O perigo e os impactos: o que dizem os dados oficiais

O impacto social e econômico das milícias atinge patamares críticos na segurança pública nacional. Estudos conduzidos pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF) em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, o Disque Denúncia e com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontam a dimensão do problema no Grande Rio:

  • Dimensão populacional: cerca de 4 milhões de moradores na Região Metropolitana do Rio de Janeiro vivem em áreas sob o controle ou sob a influência de grupos armados criminosos (somando milícias e facções de narcotráfico).
  • Evolução histórica de controle: entre 2007 e 2024, a área sob domínio de grupos armados na Região Metropolitana cresceu 130%.
  • Extensão geográfica da milícia: embora levantamentos recentes do estudo Mapa dos Grupos Armados indiquem disputas territoriais intensas e certa retração das milícias frente ao avanço de facções rivais em áreas urbanas consolidadas, os grupos paramilitares historicamente mantiveram o controle sobre mais da metade da superfície física territorial dominada pelo crime organizado na capital e na Baixada Fluminense.
  • Impacto econômico e social: a renda média per capita em áreas controladas pelo crime é significativamente menor (R$ 1.121) quando comparada a áreas livres de domínio armado (R$ 1.658), evidenciando que a presença do poder paralelo corrói a economia local e perpetua a desigualdade social.

O maior risco representado pelas milícias reside na infiltração nas estruturas formais do Estado. Quando agentes encarregados de cumprir a lei passam a compor e proteger o crime organizado, a capacidade de resposta das instituições públicas fica profundamente comprometida, enfraquecendo a democracia e privando cidadãos do acesso aos seus direitos fundamentais.