Os moradores e turistas do litoral de São Paulo passaram a alta temporada de verão entre 2024 e 2025 com sol, praia, corpos bronzeados… e uma baita virose. Um surto de gastroenterite viral, que provoca febre, vômitos e diarreia, levou milhares de pessoas a hospitais em poucos dias. Agora, os municípios se preparam para evitar que o problema volte a ocorrer em 2026.
A causa não está completamente clara, mas há consenso que esses surtos são agravados pela alta densidade populacional no verão e pela infraestrutura precária de saneamento básico. A Sabesp enviou uma nota à Gazeta se isentando de responsabilidade pela crise. Segundo a companhia, a virose do ano passado “não teve nenhuma relação com a operação da empresa” (leia mais abaixo).
Em todo o caso, o momento é de evitar que o mal volte a acontecer. De acordo com o médico Igor Marinho, infectologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, há, sim, riscos de haver um novo surto viral nesta temporada.
“Surtos de gastroenterite viral no litoral têm caráter sazonal, especialmente entre dezembro e março, e o norovírus não confere imunidade duradoura. Ou seja, uma mesma pessoa pode se reinfectar ao longo da vida”, explicou o especialista.
Segundo ele, os casos do verão passado corresponderam, na prática, a um surto de gastroenterite viral, em que a principal causa identificada foi o norovírus.
“Trata-se de um vírus extremamente contagioso, transmitido principalmente pela via fecal-oral, seja por contato direto entre pessoas, seja por consumo de água e alimentos contaminados”, continuou.
No contexto do litoral paulista, o aumento expressivo de casos esteve relacionado à combinação típica do verão: grande concentração de turistas, maior circulação de pessoas em ambientes coletivos, temperaturas elevadas e episódios de chuva intensa, que favorecem a sobrecarga do sistema de saneamento e a contaminação ambiental.
Clinicamente, explicou, o quadro foi marcado por diarreia aguda, náuseas, vômitos, dor abdominal, mal-estar geral e, em alguns casos, febre baixa, com início abrupto e evolução geralmente autolimitada.
Riscos
De acordo com Marinho, os principais riscos associados a esse tipo de virose estão relacionados à desidratação, sobretudo em crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas ou imunossuprimidas.
“O tratamento é basicamente de suporte, já que não existe antiviral específico para o norovírus. A conduta central é manter hidratação adequada, preferencialmente com soluções de reidratação oral, além de repouso e alimentação leve conforme a tolerância”, explicou.
Os medicamentos podem ser utilizados apenas para controle de sintomas, e o médico deve ser procurado em caso de sinais de desidratação, persistência dos sintomas por vários dias, presença de sangue nas fezes, febre alta ou qualquer piora clínica.
Como se prevenir, segundo o infectologista:
- Higiene rigorosa das mãos;
- cuidado com a procedência da água e dos alimentos;
- atenção redobrada ao consumo de frutos do mar crus ou mal cozidos e;
- evitar banho de mar logo após períodos de chuva intensa.
Guarujá anuncia medida
Cidades do litoral norte e sul anunciaram ações para prevenir que o mal aconteça novamente. A Prefeitura de Guarujá, a cidade mais afetada, por exemplo, informou à Gazeta que a Vigilância Sanitária municipal iniciou em dezembro a Operação Verão em carrinhos e quiosques das principais praias da cidade.
A pretensão é de fiscalizar e orientar pelo menos 67 quiosques e centenas de carrinhos. As praias que já foram ou serão visitadas são do Tombo, Astúrias, Pitangueiras, Enseada, Pernambuco e Perequê.
O foco está no acondicionamento, a manipulação e a higienização dos alimentos, além da limpeza das mãos. Ainda está sendo verificado o descarte adequado do lixo. A procedência do gelo será alvo de atenção especial da Vigilância Sanitária.
“Essa operação tem um caráter educativo e preventivo, mas, quando são identificadas irregularidades sanitárias, o responsável pode ser autuado, ou seja, receber uma penalidade administrativa prevista em lei, que pode incluir advertência, multa ou até interdição, dependendo da gravidade”, afirmou um representante da Vigilância em Saúde de Guarujá.
O que diz a Sabesp
Após contato da Gazeta, a Sabesp disse, em nota, que a virose do ano passado “não teve nenhuma relação com a operação da empresa”. “Análises realizadas pelo Instituto Adolfo Lutz, referência em ensaios de detecção de vírus, confirmaram a qualidade da água fornecida pela Companhia”, afirmou a nota.
A empresa disse ainda que monitora todas as etapas do sistema de abastecimento, e afirmou que os usuários devem manter as caixas d’águas tampadas e limpá-las a cada seis meses para manter a qualidade da água consumida nos imóveis.
Segundo a Sabesp, a qualidade das praias é influenciada por vários fatores externos, como o crescimento urbano desordenado, a ocupação irregular de áreas protegidas e a poluição difusa causada pelo descarte inadequado de resíduos nas vias públicas.
“Durante períodos de chuva, esses materiais são levados pelas galerias municipais de drenagem, atingindo canais, córregos e rios que deságuam no mar, além de esgoto proveniente de ligações irregulares nas redes pluviais”, continuou a nota.
Disse, também, que a gestão da drenagem, que inclui sarjetas, bocas-de-lobo e galerias pluviais, é uma atribuição da administração municipal de cada cidade.



