A mpox e a varíola comum pertencem à mesma família de vírus, mas apresentam diferenças importantes em genética, letalidade e impacto na saúde pública. Entenda por que a antiga vacina contra a varíola humana ainda oferece proteção cruzada e o que a ciência já sabe sobre esses dois vírus.
No entanto, apesar da proximidade genética, existem diferenças claras no genoma e no comportamento epidemiológico de cada vírus, com reflexos diretos na letalidade observada e na forma de prevenção.
Estudos comparativos mostram que o vírus causador da mpox não é ancestral direto do vírus da varíola, embora compartilhe grande parte de sua sequência genética central.
A mpox e varíola comum
A mpox é uma zoonose identificada em humanos a partir da década de 1970, com circulação endêmica em alguns países africanos e surtos ocasionais em outras regiões. Conhecido por provocar infecções com lesões na pele e sintomas sistêmicos.
Já a varíola humana foi uma doença exclusivamente humana, altamente contagiosa e grave, erradicada em 1980 após campanhas globais de vacinação, sendo considerada um marco histórico da saúde pública mundial.
Ambos os vírus são DNA de fita dupla e pertencem ao mesmo gênero viral, que inclui ainda a varíola bovina e o vírus Vaccinia — este último foi utilizado na vacina que erradicou a varíola humana.
Vacina contra varíola: proteção cruzada e imunidade
Um dos legados mais importantes da erradicação da varíola foi a vacina baseada no vírus Vaccinia, que confere imunidade cruzada contra outros orthopoxvírus devido à grande semelhança antigênica entre eles.
De acordo com análise publicada na revista Journal of Clinical Investigation (JCI), em 2023, indivíduos vacinados contra a varíola humana apresentaram menor risco de contrair mpox, com eficácia estimada em torno de 80-85%.
A explicação imunológica é que a resposta imunitária gerada pela vacina antivaríola reconhece estruturas virais que são conservadas entre orthopoxvírus, produzindo anticorpos e células T com capacidade de neutralizar mais de um agente viral.
Porém, como a vacinação rotineira contra a varíola foi interrompida há mais de quatro décadas, grande parte da população mundial não possui essa proteção cruzada espontânea.
Diferenças genéticas e epidemiológicas
A análise genômica indica que a região central dos vírus mpox e da varíola humana apresenta alta semelhança, com cerca de 96% de identidade em sequências codificadoras.
Entretanto, a maior parte das diferenças está nas extremidades dos genomas, onde se encontram genes ligados à virulência e à capacidade de infectar diferentes hospedeiros. Estas diferenças explicam por que a varíola humana infectava exclusivamente humanos e tinha maior capacidade de disseminação entre pessoas.
Além disso, o vírus mpox apresenta clados geneticamente distintos entre si, que influenciam sua severidade. Tipos associados à África Central tendem a causar doença mais grave do que os da África Ocidental.
Letalidade: varíola comum foi significativamente mais mortal
A varíola humana foi historicamente uma doença com alta letalidade. Antes da erradicação, estimava-se que cerca de 30% dos infectados morriam, segundo registros epidemiológicos antigos. Já a mpox, apresenta índices de mortalidade muito mais baixos.
Em países como o Brasil, por exemplo, essa letalidade tem sido mínima quando comparada à varíola humana, refletindo diferenças tanto no vírus quanto nos sistemas de vigilância e tratamento.
Até o momento, o Brasil já registrou 1.079 casos confirmados de mpox em 2025, com dois óbitos associados, segundo dados do Ministério da Saúde.
Já em 2026, o país contabiliza quase 90 casos confirmados da doença, com a maioria dos diagnósticos concentrada no estado de São Paulo e sem mortes reportadas até agora no ano.
O que isso significa para a saúde pública
- Mesmo com menor letalidade, a mpox pode causar sofrimento e exigir atenção de sistemas de saúde.
- A retomada de estratégias de vacinação específica — como a vacina MVA-BN ou Jynneos — é uma ferramenta preventiva importante em surtos.
- O conhecimento das diferenças genéticas e epidemiológicas ajuda a orientar medidas de controle e comunicação à população.
Perguntas frequentes
A mpox é simplesmente outra forma da varíola?
Não. Apesar de similaridades, trata-se de um vírus distinto dentro da mesma família, com diferenças em genes ligados à virulência e transmissão.
A vacina contra varíola ainda é eficaz hoje?
Pessoas vacinadas historicamente parecem ter proteção cruzada contra mpox, mas a vacinação rotineira foi interrompida em 1980, reduzindo essa cobertura na população.
Por que parou a vacinação contra varíola?
A vacinação foi descontinuada após a erradicação da varíola humana pela OMS em 1980, reduzindo a necessidade de imunização generalizada.


