Mpox vs Varíola: como a vacina da varíola oferece proteção, diferenças genéticas e letalidade

Vacina histórica, vírus aparentados e riscos distintos ajudam a explicar por que a mpox e a varíola não são a mesma doença, apesar das semelhanças

Vírus da mpox e da varíola pertencem à mesma família, mas apresentam diferenças genéticas que impactam a gravidade da doença.

Vírus da mpox e da varíola pertencem à mesma família, mas apresentam diferenças genéticas que impactam a gravidade da doença. | Reprodução: Paulo Pinto/Agência Brasil

A mpox e a varíola comum pertencem à mesma família de vírus, mas apresentam diferenças importantes em genética, letalidade e impacto na saúde pública. Entenda por que a antiga vacina contra a varíola humana ainda oferece proteção cruzada e o que a ciência já sabe sobre esses dois vírus.

No entanto, apesar da proximidade genética, existem diferenças claras no genoma e no comportamento epidemiológico de cada vírus, com reflexos diretos na letalidade observada e na forma de prevenção.

Estudos comparativos mostram que o vírus causador da mpox não é ancestral direto do vírus da varíola, embora compartilhe grande parte de sua sequência genética central. 

A mpox e varíola comum

A mpox é uma zoonose identificada em humanos a partir da década de 1970, com circulação endêmica em alguns países africanos e surtos ocasionais em outras regiões. Conhecido por provocar infecções com lesões na pele e sintomas sistêmicos.

Já a varíola humana foi uma doença exclusivamente humana, altamente contagiosa e grave, erradicada em 1980 após campanhas globais de vacinação, sendo considerada um marco histórico da saúde pública mundial.

Ambos os vírus são DNA de fita dupla e pertencem ao mesmo gênero viral, que inclui ainda a varíola bovina e o vírus Vaccinia — este último foi utilizado na vacina que erradicou a varíola humana.

Vacina contra varíola: proteção cruzada e imunidade

Um dos legados mais importantes da erradicação da varíola foi a vacina baseada no vírus Vaccinia, que confere imunidade cruzada contra outros orthopoxvírus devido à grande semelhança antigênica entre eles. 

De acordo com análise publicada na revista Journal of Clinical Investigation (JCI), em 2023, indivíduos vacinados contra a varíola humana apresentaram menor risco de contrair mpox, com eficácia estimada em torno de 80-85%. 

A explicação imunológica é que a resposta imunitária gerada pela vacina antivaríola reconhece estruturas virais que são conservadas entre orthopoxvírus, produzindo anticorpos e células T com capacidade de neutralizar mais de um agente viral. 

Porém, como a vacinação rotineira contra a varíola foi interrompida há mais de quatro décadas, grande parte da população mundial não possui essa proteção cruzada espontânea. 

Diferenças genéticas e epidemiológicas

A análise genômica indica que a região central dos vírus mpox e da varíola humana apresenta alta semelhança, com cerca de 96% de identidade em sequências codificadoras. 

Entretanto, a maior parte das diferenças está nas extremidades dos genomas, onde se encontram genes ligados à virulência e à capacidade de infectar diferentes hospedeiros. Estas diferenças explicam por que a varíola humana infectava exclusivamente humanos e tinha maior capacidade de disseminação entre pessoas.

Além disso, o vírus mpox apresenta clados geneticamente distintos entre si, que influenciam sua severidade. Tipos associados à África Central tendem a causar doença mais grave do que os da África Ocidental.

Letalidade: varíola comum foi significativamente mais mortal

A varíola humana foi historicamente uma doença com alta letalidade. Antes da erradicação, estimava-se que cerca de 30% dos infectados morriam, segundo registros epidemiológicos antigos. Já a mpox, apresenta índices de mortalidade muito mais baixos.

Em países como o Brasil, por exemplo, essa letalidade tem sido mínima quando comparada à varíola humana, refletindo diferenças tanto no vírus quanto nos sistemas de vigilância e tratamento.

Até o momento, o Brasil já registrou 1.079 casos confirmados de mpox em 2025, com dois óbitos associados, segundo dados do Ministério da Saúde.

Já em 2026, o país contabiliza quase 90 casos confirmados da doença, com a maioria dos diagnósticos concentrada no estado de São Paulo e sem mortes reportadas até agora no ano.

O que isso significa para a saúde pública

  • Mesmo com menor letalidade, a mpox pode causar sofrimento e exigir atenção de sistemas de saúde.
  • A retomada de estratégias de vacinação específica — como a vacina MVA-BN ou Jynneos — é uma ferramenta preventiva importante em surtos. 
  • O conhecimento das diferenças genéticas e epidemiológicas ajuda a orientar medidas de controle e comunicação à população.

Perguntas frequentes 

A mpox é simplesmente outra forma da varíola?

Não. Apesar de similaridades, trata-se de um vírus distinto dentro da mesma família, com diferenças em genes ligados à virulência e transmissão. 

A vacina contra varíola ainda é eficaz hoje?

Pessoas vacinadas historicamente parecem ter proteção cruzada contra mpox, mas a vacinação rotineira foi interrompida em 1980, reduzindo essa cobertura na população. 

Por que parou a vacinação contra varíola?

A vacinação foi descontinuada após a erradicação da varíola humana pela OMS em 1980, reduzindo a necessidade de imunização generalizada.