Por uma Justiça discreta

O ideal é que a discrição e as medidas práticas sejam tomadas em prol de toda a sociedade, e não para esperar boas manchetes nos jornais

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- | Gazeta de S.Paulo

Uma qualidade fundamental para um juiz é a discrição. Um artigo raro, convenhamos, no Brasil dos últimos anos. A espetacularização da atuação da Justiça brasileira, iniciada principalmente pela Operação Lava Jato, tem feitos mais estragos do que benefícios à sociedade. Precisamos entender de forma definitiva que é possível se fazer Justiça sem se tornar uma estrela pop.

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Em grau menor, porém ainda fora do ideal, o mesmo vem acontecendo no Supremo Tribunal Federal (STF), a instituição responsáveis por interpretar a Constituição. Nesta semana, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, a Polícia Federal fez uma operação em um inquérito contra as fake news que mirou deputados e personalidades bolsonaristas. A ação, que deveria ser técnica, acabou acirrando ainda mais os ânimos entre o STF e a presidência da República.

A operação teve alto teor midiático e ajudou a dar munição a quem diz que o presidente é perseguido pelo Supremo. Neste contexto, o presidente voltou a dar entrevistas duras, com palavrões, o que para alguns cheira a sanhas autoritárias. Depois seguiram frases de ministros militares e dos filhos do presidente, tornando o ambiente ainda mais pesado no País. Tudo isso durante uma pandemia, em que se assiste de forma impotente à morte de centenas de brasileiros diariamente.

É óbvio que Bolsonaro e seus apoiadores dentro e fora do governo precisam aprender que não se pode ameaçar a democracia cada vez que são contrariados. Não adianta tentar governar na base da tensão e do medo, porque nenhum desses fatores faz o vírus desaparecer e nem garante a refeição na mesa dos milhões de brasileiros que estão ainda com dificuldade para acessar o auxílio emergencial. Não adianta dar parabéns à Polícia Federal em um dia que fazem operação contra um adversário político e se achar perseguido no dia seguinte porque a operação é contra seus apoiadores. A Justiça é para todos. Como diz o mantra tão falado no País de uns anos para cá: quem não deve, não teme.

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De volta às operações do Supremo Tribunal Federal, é evidente que a Justiça deve ser feita independentemente do momento político, porém é sabido que, por vezes, não é essa a forma de tomar as decisões no País nos últimos tempos. O ideal, nesse cenário, é que a discrição e as medidas práticas sejam tomadas em prol de toda a sociedade, e não para esperar boas manchetes nos jornais no dia seguinte.