Durante dez anos, andaimes esconderam uma das fachadas mais emblemáticas de Montreal, no Canadá. Agora, a Basílica de Notre-Dame voltou a exibir suas torres e esculturas após uma restauração que envolveu centenas de trabalhadores, milhares de horas de serviço e aproximadamente 10 mil pedras recuperadas ou substituídas.
A apresentação oficial da fachada restaurada ocorreu no domingo, 25 de outubro de 2026, com uma celebração musical em frente ao monumento. Considerada um dos grandes símbolos arquitetônicos da cidade, a igreja de quase 200 anos passou por uma intervenção necessária para conter danos provocados pela infiltração de água e pela deterioração de sua estrutura.
Apesar da conclusão da fachada principal, somente 20% de todo o projeto de restauração foi finalizado. Com custo total estimado em 100 milhões de dólares, os trabalhos ainda devem avançar por diferentes partes do edifício ao longo dos próximos anos.
Segundo a agência The Canadian Press, a recuperação exigiu técnicas tradicionais de cantaria, avaliações individuais das pedras e cuidados especiais para preservar as características originais do monumento.
Pedras recuperadas uma a uma
Construída no século XIX, a Basílica de Notre-Dame é considerada a primeira igreja em estilo neogótico do Canadá. Sua fachada monumental, marcada por duas torres, começou a apresentar sinais de desgaste que ameaçavam elementos históricos da construção.
Em São Paulo, esse estilo arquitetônico também pode ser encontrado em construções religiosas, como a Basílica Nossa Senhora do Rosário, em Caieiras, conhecida pela aparência de castelo medieval, que reúne torres imponentes, vitrais e arcos característicos do neogótico.
No caso de Montreal, os trabalhos começaram em 2016, depois que os responsáveis identificaram problemas na estrutura. Um dos primeiros alertas surgiu quando a estátua da Virgem Maria apresentou sinais de que parte de sua mão poderia se desprender. Uma avaliação posterior encontrou indícios de infiltração de água.
De acordo com Michel Issa, diretor executivo da Fabrique de la paroisse Notre-Dame de Montréal, entidade responsável pela administração da basílica, a recuperação da fachada representa um importante avanço após uma década de intervenções.
Especialmente danificadas, as duas torres exigiram atenção redobrada das equipes de restauração. O processo envolveu a retirada, avaliação e substituição de blocos comprometidos, sempre com o objetivo de preservar a aparência histórica do conjunto arquitetônico.
Parte das pedras originais havia sido extraída de uma pedreira no bairro Mile End, em Montreal. Para substituir os materiais deteriorados, os restauradores recorreram a blocos provenientes da cidade de Quebec.
Cada peça passou por uma inspeção antes de ser instalada. Conforme explicou Mathieu Verreault, diretor de operações do projeto, os profissionais utilizaram técnicas tradicionais, incluindo pequenos golpes de martelo para avaliar a qualidade das pedras pelo som produzido.
Depois de uma década de trabalho, a diferença entre o material antigo e o novo é discreta. Segundo Verreault, a tonalidade mais clara dos blocos substituídos é uma das poucas características que permitem distingui-los das pedras originais.
Por que a estrutura se deteriorou?
Décadas de exposição às condições climáticas contribuíram para o desgaste da construção. Em regiões de inverno rigoroso, como Montreal, a água que penetra nas fissuras pode congelar e se expandir, ampliando rachaduras e comprometendo a estabilidade dos materiais.
A descoberta de infiltrações na basílica reforçou a necessidade de intervenções que fossem além da aparência externa. Preservar a fachada também significava impedir o avanço da umidade sobre elementos históricos que não poderiam ser facilmente substituídos.
Problemas semelhantes de conservação ajudam a explicar a importância das iniciativas de preservação de monumentos religiosos. Patrimônios como esse também estão presentes em diversos outros destinos, incluindo a Aparecida, que reúne uma basílica histórica do século XIX e um dos maiores santuários católicos do mundo.
Em Montreal, a preocupação com a integridade do edifício permanece mesmo depois da retirada dos andaimes. A conclusão da fachada não representa o fim da restauração, já que outras áreas externas e o interior do monumento ainda precisam de intervenções.
Restauração ainda levará anos
Mesmo com a fachada principal recuperada, cerca de 80% do projeto de restauração continua pendente. As próximas etapas incluem reparos nas demais partes externas da igreja e intervenções internas que poderão se estender por mais uma década.
Preservar os elementos decorativos e arquitetônicos do monumento é um dos desafios desse processo. Diferentemente de uma reforma convencional, a recuperação de um edifício histórico exige cuidados para evitar que materiais e características originais sejam descaracterizados.
Esse trabalho de conservação também está relacionado ao valor turístico das construções religiosas. Em território brasileiro, dentro da capital paulistana, a Catedral Metropolitana Ortodoxa Antioquina chama atenção pelas cúpulas douradas, pelos vitrais e pela arquitetura de inspiração bizantina, elementos que fazem parte de sua identidade histórica e cultural.
Para Notre-Dame de Montreal, o orçamento estimado em 100 milhões de dólares evidencia a dimensão do desafio. O valor contempla um projeto muito mais amplo do que a recuperação da fachada apresentada ao público em outubro.
Com novas etapas previstas para os próximos anos, a basílica continuará passando por transformações até que as demais estruturas também estejam restauradas.
Monumento recupera sua fachada
A apresentação pública da fachada restaurada reuniu visitantes e músicos no centro histórico de Montreal. A celebração contou com a participação da Société philharmonique du Nouveau Monde, sob a regência do maestro e diretor artístico Michel Brousseau.
Após uma década marcada pela presença de andaimes, moradores e turistas puderam voltar a observar a fachada principal sem as estruturas que escondiam parte de suas torres e esculturas. O momento simbolizou a recuperação de uma das paisagens mais conhecidas da cidade.
Reconhecida pela arquitetura neogótica e pela riqueza de seus elementos decorativos, Notre-Dame ocupa um lugar importante na história e na identidade cultural de Montreal. Sua construção remonta à década de 1820, período de expansão urbana e transformações na cidade.
A relação entre edifícios religiosos e memória coletiva também aparece em destinos brasileiros; em outros horizontes, como no interior paulista, a cidade de Guaratinguetá preserva espaços ligados à trajetória de Frei Galvão e reúne atrações de fé e patrimônio histórico.
Com a fachada novamente visível, a Basílica de Notre-Dame recuperou uma parte importante de sua aparência original, mas a restauração está longe de terminar. As próximas intervenções serão fundamentais para preservar as estruturas remanescentes e garantir que o monumento continue fazendo parte da paisagem de Montreal pelas próximas gerações.










