Em uma cidade de pouco mais de 9 mil habitantes, no Sul de Minas Gerais, um pé de moleque precisou de 32,2 metros de espaço para ficar pronto. A receita preparada em Piranguinho atravessou uma longa estrutura montada para a festa mais conhecida do município e terminou reconhecida como o maior pé de moleque do Brasil.
A dimensão não ficou apenas no comprimento. O doce tinha 60 centímetros de largura, 2 centímetros de espessura e peso proporcional estimado em 481,86 quilos, cerca de 482 quilos. A medição foi auditada pelo RankBrasil em 13 de junho de 2026, durante a 19ª Festa do Maior Pé de Moleque do Mundo.
Depois da conferência, a estrutura começou a desaparecer em pedaços. Como manda a tradição da festa, o pé de moleque gigante foi cortado e distribuído ao público. O evento ocorreu entre 12 e 14 de junho no Parque Municipal Luiz Vieira Neto, com shows, manifestações culturais, encontro de violeiros e apresentações de moradores da cidade.
Quase meia tonelada
A marca de 2026 ampliou uma disputa que Piranguinho trava principalmente contra si própria. Para o RankBrasil, o recorde homologado anteriormente havia sido estabelecido em junho de 2024, quando o município apresentou um doce de 30,21 metros e 454,34 quilos.
Houve outra produção gigante em 2025. Naquele ano, a Prefeitura de Piranguinho informou que o pé de moleque chegou à casa dos 31 metros, enquanto documentos posteriores do Senado registraram 31,3 metros. A festa reuniu cerca de 17 mil visitantes, segundo a administração municipal.
A diferença é que o RankBrasil, ao anunciar a marca de 32,2 metros deste ano, continuou apontando o exemplar de 2024 como o recorde oficial anterior. Por isso, para efeito de comparação entre marcas homologadas pela entidade, o salto foi de 1,99 metro.
Começou perto dos trilhos
Muito antes dos doces gigantes, o pé de moleque já fazia parte da rotina de Piranguinho. A própria formação da cidade está ligada à ferrovia: o povoado cresceu no fim do século 19 ao redor da Estrada de Ferro Sapucaí, que passava pela região.
Foi naquele movimento de passageiros que o doce encontrou seus primeiros compradores. Documentos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais contam que uma mulher conhecida como Neném Paca passou a vender doce de amendoim perto da estação. Outras famílias seguiram o caminho e começaram a comercializar a receita dentro e fora dos vagões.
O relatório apresentado no Senado sobre a concessão do título de Capital Nacional usa 1911 como marco para essa trajetória centenária. O documento também relaciona diretamente a antiga linha Sapucahy ao desenvolvimento do modo de fazer que se tornaria uma das principais marcas de Piranguinho.
Barracas ganharam as estradas
Durante a década de 1930, surgiu a Barraca Vermelha, apontada pela Assembleia como a primeira empresa da região dedicada à produção de pé de moleque. O estabelecimento continuou funcionando enquanto novas famílias entravam no negócio.
Outra mudança aconteceu em 1957, com a inauguração da BR-459. Parte das vendas saiu da área ferroviária e chegou às margens da rodovia. As barracas identificadas por diferentes cores acabaram se tornando uma característica da paisagem local.
Já na década de 1970, fábricas especializadas permitiram ampliar a produção. Mesmo com a mudança de escala, receitas familiares continuaram sendo transmitidas entre gerações, segundo levantamento usado pela Assembleia para justificar o reconhecimento de Piranguinho como capital mineira do doce.
Receita virou patrimônio
Essa ligação ganhou reconhecimento legal em 1º de abril de 2009. A Lei estadual nº 18.057 declarou patrimônio cultural de Minas Gerais o processo artesanal de fabricação do pé de moleque produzido em Piranguinho. O patrimônio, portanto, é o modo de fazer, e não simplesmente qualquer pé de moleque vendido na cidade.
Outro reconhecimento chegou recentemente. Desde 15 de julho de 2026, a Lei nº 25.982 confere oficialmente a Piranguinho o título de Capital Mineira do Pé de Moleque.






