Pesquisadores mediram um esturjão-do-lago macho em 1990, no rio Sturgeon, nos Estados Unidos. Naquele momento, ele tinha 1,17 metro. Quando o recapturaram em 2024, estava apenas sete centímetros maior. Em 34 anos, seu corpo quase não havia mudado.
O registro ajuda a entender por que o esturjão-do-lago pode viver 300 anos, conforme sugere uma nova pesquisa. A estimativa não comprova que um peixe específico tenha alcançado essa idade. Ainda assim, indica que alguns exemplares podem atravessar dois ou até três séculos, muito além do que se calculava.
Os autores reuniram 44 anos de dados de cinco populações dos Grandes Lagos, na América do Norte, no estudo publicado no Journal of Fish Biology. A partir daí, trocaram uma espécie de calendário gravado nas nadadeiras pela história real de crescimento de animais marcados e recapturados.
Uma conta difícil
Normalmente, cientistas estimam a idade do esturjão pela contagem de anéis de crescimento em estruturas das nadadeiras. O método funciona como a leitura dos círculos de um tronco de árvore. Porém, à medida que o peixe envelhece e cresce mais devagar, essas marcas ficam difíceis de interpretar.
Por isso, as contas podem ter subestimado a idade dos exemplares mais antigos durante décadas. No novo trabalho, a equipe capturou, mediu, marcou e devolveu os peixes à água. Anos depois, comparou o novo tamanho de cada animal ao registro anterior.
Com esses intervalos, os pesquisadores calcularam quanto cada peixe havia crescido por ano. Depois, modelos matemáticos foram usados para projetar quanto tempo um esturjão levaria para alcançar comprimentos próximos de 1,6 ou 1,8 metro.
Os resultados variaram conforme o sexo e a população. Em algumas projeções, peixes grandes ultrapassaram os 200 anos e se aproximaram dos 300. Portanto, o número não deve ser lido como uma certidão de nascimento, mas como uma faixa estimada a partir da velocidade de crescimento.
Crescimento quase invisível
O esturjão-do-lago está entre os maiores peixes de água doce da América do Norte. Alguns exemplares chegam perto de 1,8 metro e podem passar dos 50 quilos. Ainda assim, o tamanho não revela sozinho há quanto tempo o animal está vivo.
Na prática, o crescimento desacelera muito depois da maturidade. O macho acompanhado entre 1990 e 2024, por exemplo, cresceu em média pouco mais de dois milímetros por ano. Quanto mais lentamente o corpo muda, mais difícil fica separar os anéis formados ao longo do tempo.
Esse detalhe explica por que as estimativas anteriores, muitas vezes limitadas a cerca de 150 anos, podem ter ficado abaixo da longevidade real. Agora, os registros de recaptura oferecem outro caminho, embora também trabalhem com margens de incerteza.
História sob a água
Se as projeções estiverem corretas, alguns esturjões que nadam hoje podem ter nascido quando a Guerra dos Sete Anos ainda acontecia, entre 1756 e 1763. Outros poderiam ser anteriores à expedição de Lewis e Clark, iniciada em 1804.
Depois, esses mesmos peixes teriam atravessado o período do Grande Incêndio de Chicago, em 1871, e da abertura do canal sanitário da cidade, em 1900. A comparação não significa que um exemplar observado tenha presenciado todos esses acontecimentos. Ela apenas traduz a escala de tempo indicada pelos modelos.
Longevidade muda proteção
A descoberta também altera a maneira de pensar a conservação. Segundo o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, o esturjão-do-lago demora entre 10 e 30 anos para começar a se reproduzir e não desova todos os anos.
Assim, uma população perdida leva décadas para se recompor. Enquanto isso, barragens, pesca e mudanças no habitat afetam animais que dependem de sobrevivência prolongada.
Por fim, estimativas mais precisas ajudam a calcular taxas de sobrevivência, definir limites de pesca e acompanhar a restauração dos rios. Se esses peixes realmente vivem por séculos, os planos de manejo precisarão considerar ciclos biológicos muito mais longos do que se imaginava.





