Muito antes do Cristo Redentor do Rio de Janeiro abrir os braços sobre o Corcovado, outro Cristo já observava uma cidade histórica brasileira. No alto de um morro em São Cristóvão, em Sergipe, o monumento completou 100 anos em 2026.
Mas ele é apenas uma das razões para visitar a cidade, localizada a cerca de 26 quilômetros da capital. Fundada em 1590, a antiga capital é considerada a quarta cidade mais antiga do Brasil e guarda construções que atravessaram invasões e séculos de transformações.
Uma cidade de fé
Construída entre 1924 e 1926, a imagem do Cristo Redentor se tornou um dos cartões-postais da cidade. Ele é uma das principais manifestações da fé sobre a cidade, mas não a única; algumas manifestações de fé locais são muito anteriores.
Fundada em 1746, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos se destaca como um dos pontos religiosos mais emblemáticos da cidade. Em uma época marcada pela segregação, a igreja servia aos negros alforriados, enquanto outros templos da cidade eram frequentados por diferentes grupos sociais.

Para além das construções, São Cristóvão possui grande apelo no turismo religioso, com eventos realizados todos os anos. Ao longo de suas ruas históricas são realizadas procissões e romarias que passam pelos diversos templos da fé.
Doces que contam história
A passagem dos séculos também marcou a culinária local. Uma das especialidades mais famosas é a queijada de São Cristóvão, receita de origem portuguesa que foi reinventada em Sergipe, principalmente com o uso do coco.
Outro produto possui uma origem ainda mais inesperada. O bricelet é um biscoito fino de tradição suíça que chegou à cidade por meio de religiosas e também acabou incorporado à gastronomia sancristovense. Em 2021, o prato recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe.
Durante anos, a venda dos biscoitos também ajudou a manter o Orfanato Imaculada Conceição. O espaço passou a receber órfãs em 1911 e ficou sob responsabilidade das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, atendendo também meninas de famílias pobres.

Depois do fechamento do orfanato, as freiras repassaram a receita e os equipamentos para funcionários antigos, entre eles Vera Gomes e Manoel Santos, que continuaram produzindo o biscoito e ajudaram a preservar a tradição local.
Reconstruída após a destruição
Quem observa a cidade atualmente, com seus casarões e prédios históricos, não imagina que a cidade teve que nascer de novo. São Cristóvão esteve no front dos conflitos entre holandeses e portugueses no século 17.
Durante o auge das escamurças, a cidade foi ocupada pelas forças de Maurício de Nassau até ser retomada em 1645. Porém, a São Cristóvão recuperada não era mais como antes; ela havia sido incendiada em 1637 e a metrópole deixada acumulava ruínas e cinzas.
Ao longo dos séculos seguintes, a cidade passou por um lento processo de recuperação que foi marcado principalmente pelos templos religiosos. Segundo o Iphan, a arquitetura religiosa teve papel decisivo na nova configuração urbana surgida depois da destruição.

O principal exemplo dessa trajetória aparece na Praça São Francisco. Cercada por construções históricas e resultado da combinação das tradições urbanísticas portuguesa e espanhola, ela recebeu da Unesco o título de Patrimônio Mundial em 2010.








