A Fazenda Pau D’Alho, uma das primeiras e mais preservadas memórias do auge do cultivo de café no Brasil, pode ser transformada em um hotel de luxo.
Construída há mais de 200 anos, o imóvel é um raro exemplar ainda cercado por muros de pau pique e é conhecido por ter recebido D. Pedro I no caminho que fez até São Paulo, em agosto de 1822, dias antes da Proclamação da Independência.
A estrutura fica em São José do Barreiro, no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo. As obras fazem parte do programa piloto do Ministério do Turismo com Portugal para concessão de construções históricas pelo programa Revive Brasil.
Proposta para revitalização do local
O projeto prevê mudanças como o restauro do espaço e a implementação do hotel de luxo, conectado aos demais imóveis históricos na região por uma passarela. A nova estrutura seria levantada no terreno da antiga fazenda, com pelo menos 15 metros de distância dos muros que cercam a propriedade.
As indicações da nova obra estão no plano de negócios elaborado pelo BNDES em 2022, depois de ser contratado pelo Ministério do Turismo. O banco detalhou a construção de um hotel com 60 quartos e diárias de cerca de R$ 1,6 mil.
A iniciativa usa de base a experiência criada no Palácio dos Arcos, de Lisboa. Desde 2013, a construção portuguesa opera como um resort cinco estrelas do grupo Vila Galé.
Conforme a minuta da licitação, o projeto seria “uma construção completamente nova e moderna, inserida na paisagem integrada ao patrimônio histórico”.
Expansão, custos e preservação
O processo prevê uma ampliação da área da fazenda de 2,7 m² para 8,3 mil m². A estimativa é que a implementação do hotel custe R$ 52,4 milhões, com a conclusão prevista entre 19 e 31 meses.
Apesar da transformação drástica, o Ministério do Turismo destacou em nota que planeja “manter o Estado como proprietário dos bens, preservando seu caráter público, e permitir que a iniciativa privada os revitalize e os utilize, por meio de concessão de uso, para atividades compatíveis com suas identidades culturais e históricas”.
A concessão também envolve a restauração de construções da época. No geral, a maioria das estruturas está em “boas condições de preservação”, conforme registrado em uma avaliação do local. Entretanto, o relatório aponta que algumas intervenções pontuais são necessárias, como no reparo de telhados e na limpeza de alguns espaços.
Ingresso, turismo e outras fontes e receitas
Além da hotelaria, o turismo é uma das apostas para estimular as receitas do local. A estimativa é de 73 mil visitantes no primeiro ano (se a entrada for gratuita) e 37 mil (se a concessionária optar pela cobrança), com aumento gradual do público. Os ingressos custariam R$ 45.
Dentre as demais fontes de renda indicadas no estudo do BNDES estão:
- cobrança de estacionamento a R$ 28 (valor sugerido);
- restaurante;
- publicidade;
- comercialização de naming rights;
- locação de espaço para lojas de souvenir e afins;
- serviços de transporte;
- atividades de aventura, esportivas e recreativas.
Resistência local
A proposta não é unânime e parte dos moradores de São José do Barreiro (que tem 3,8 mil habitantes) se posicionou contra as obras. Os locais promoveram abaixo-assinado virtual, com cerca de 500 assinaturas para impedir o processo.
O movimento argumenta que a transformação do local em hotel colocaria em risco uma possível “descaracterização” do espaço, além dos riscos e danos ao meio ambiente.
