Joanópolis, no interior de São Paulo, carrega há mais de um século o título inusitado de capital do lobisomem. A lenda nasceu de um episódio real e hoje movimenta o turismo local, atraindo visitantes de todo o Brasil.
A história do lobisomem de Joanópolis começou em 1878, quando a cidade ainda dava seus primeiros passos no interior paulista.
Um de seus fundadores, Anselmo Caparica, era maçom e tinha o hábito de vagar pelas ruas à noite. Numa noite de tempestade, ele saiu para socorrer um cachorrinho e se enrolou em um pano felpudo para se proteger da chuva.
O folclorista Valter Cassalho, fundador da Associação de Criadores de Lobisomens, descreve o momento que virou lenda:
“Quando se abaixou para pegar o animalzinho deu um relâmpago e as pessoas que passavam na rua viram aquela coisa enorme sobre o cãozinho e saíram gritando: ‘Seu Anselmo é lobisomem'”, contou ao portal UOL.
Joanópolis: A pequena cidade faz divisa com Minas Gerais, e a lenda do lobisomem por lá é levada tão a sério que até a Casa do Artesão vende lembrancinhas desse ser mitológico. Foto: Enio RicaneloO boato se espalhou e a cultura popular do interior do País fez o resto. Afinal, o folclore brasileiro já conhecia bem a figura do lobisomem, trazida da Europa durante a colonização portuguesa.
De boato local a fenômeno nacional
Por décadas, a história circulou apenas entre os moradores da região. O salto veio em 1983, quando a pesquisadora Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima investigou a origem dos contos e os registrou no livro “Lobisomem: Assombração e Realidade”.
A projeção nacional chegou em 1998, com um comercial do McDonald’s que trouxe lendas brasileiras para a televisão. Alguns moradores de Joanópolis participaram da produção, e a cidade ganhou visibilidade em todo o Brasil.
Desde então, o interesse não parou de crescer. O mito do lobisomem já existia muito antes disso — ele vem da mitologia grega, se espalhou pela Europa durante o Império Romano e chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses.
Mesmo sem registros fotográficos reais da criatura, o mito do lobisomem permanece vivo no imaginário e no turismo local. Foto: Reprodução/divulgaçãoA cidade que abraçou o mito
Hoje, quem chega a Joanópolis encontra a criatura em todos os cantos. Logo na entrada, em frente à Praça do Portal Turístico, uma estátua enorme recebe os visitantes.
Pelas ruas, há outras esculturas espalhadas e bonecos artesanais feitos por moradores locais à venda. O lobisomem virou símbolo da identidade da cidade.
Um dos exemplos mais curiosos é o da empreendedora Marina Neves. Apaixonada pela criatura desde criança, ela se mudou para Joanópolis em 2016 e, três anos depois, fundou a Barbearia Lobisomem.
Ela também promove aulas de dança no Espaço Cultural da Capital do Lobisomem. No local, uma escultura mostra a figura do lobisomem dançando com uma sereia. “Não tem como dizer que lobisomem não existe”, afirmou ela ao jornal Estado de S. Paulo.
Natureza de dar inveja
Além do folclore, Joanópolis guarda belezas naturais que por si só já justificariam a visita. A cidade fica no pé da Serra da Mantiqueira e abriga a Cachoeira dos Pretos, com impressionantes 154 metros de altura — a segunda maior do Estado de São Paulo.
Localizada a cerca de 120 km da capital, a cidade é um destino popular para quem busca tranquilidade e cultura popular. Foto: Reprodução/divulgaçãoA combinação de natureza exuberante no interior paulista com uma lenda centenária transformou a cidade num destino diferente de tudo que o estado tem a oferecer.
O lobisomem que nunca foi fotografado
Com tanta história, é natural que surja a pergunta: alguém já viu o lobisomem de verdade? A resposta, até hoje, é não.
Apesar dos inúmeros relatos de moradores ao longo das décadas, a figura nunca foi fotografada.
Não se sabe ao certo quantos dos aproximadamente dez mil habitantes da cidade acreditam de fato na lenda — e quantos simplesmente embarcam no mito com bom humor e espírito comercial.
De qualquer forma, o resultado é o mesmo: cidades do interior de São Paulo que souberam transformar sua história em atração turística raramente olham para trás. Joanópolis é prova disso.
A cerca de 120 km da capital paulista, a cidade segue recebendo curiosos, amantes do folclore e turistas em busca de algo fora do roteiro convencional.
O lobisomem pode não ter sido fotografado, mas já deixou uma marca permanente no mapa do turismo paulista.
Mais informações turísticas podem ser encontradas no site da prefeitura da cidade.





