Paisagem de faroeste esconde a ‘Roliúde Nordestina’: pequena cidade virou um dos cenários favoritos do cinema

Cabaceiras transformou a paisagem árida do Cariri paraibano em cenário de dezenas de produções, entre elas O Auto da Compadecida

No alto de Cabaceiras, o letreiro “Roliúde Nordestina” anuncia a relação da pequena cidade do Cariri com dezenas de produções do cinema e da televisão (Foto: Prefeitura de Cabaceiras) Site Padrão

No alto de Cabaceiras, o letreiro “Roliúde Nordestina” anuncia a relação da pequena cidade do Cariri com dezenas de produções do cinema e da televisão (Foto: Prefeitura de Cabaceiras)

O horizonte seco, as pedras monumentais e o casario recortado pelo sol poderiam abrir um antigo filme de faroeste. Não há, porém, cidade cenográfica, fachadas erguidas para uma produção ou deserto estrangeiro por trás das câmeras. A paisagem existe no Cariri paraibano e pertence a Cabaceiras (PB), município a cerca de 180 quilômetros de João Pessoa.

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Por ali, a Caatinga avança entre caminhos de terra e formações rochosas que parecem cuidadosamente posicionadas para um enquadramento. No centro, construções antigas completam uma estética que o cinema levaria décadas para transformar em uma das imagens mais reconhecíveis do sertão brasileiro nas telas.

Foi essa combinação que aproximou Cabaceiras das câmeras. Diretores encontraram no município algo raro: um cenário de personalidade própria, capaz de transmitir isolamento, aridez e a dimensão do interior nordestino sem precisar ser reconstruído em estúdio. Com o passar dos anos, dezenas de produções utilizaram a cidade e seus arredores como locação.

Nenhuma delas, entretanto, se confundiu tanto com o lugar quanto ‘O Auto da Compadecida’. Sob a direção de Guel Arraes, ruas e construções de Cabaceiras ajudaram a dar forma à fictícia Taperoá onde João Grilo e Chicó atravessam as situações criadas por Ariano Suassuna.

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Quando as filmagens terminaram, o cinema não foi embora por completo. Parte dos cenários permaneceu, moradores conservaram lembranças dos bastidores e lugares antes comuns passaram a receber visitantes interessados em reconhecer aquilo que haviam visto na tela. 

Cabaceiras ganhou então um segundo papel: além de locação, tornou-se guardiã da própria memória cinematográfica.

Um sertão pronto

A câmera encontra poucas barreiras para transformar a região em cenário. A vegetação baixa deixa o horizonte aberto, os tons de terra dominam a paisagem e a luz intensa ressalta contornos que mudam ao longo do dia. Dependendo do enquadramento, basta retirar os elementos contemporâneos para que a cena pareça pertencer a outra época.

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Até o clima colaborou para essa vocação. Inserida em uma das áreas mais secas do país, Cabaceiras registra longos períodos sem chuva, uma característica particularmente valiosa para produções que dependem de continuidade visual e cronogramas rígidos.

Não demorou para que diferentes histórias encontrassem espaço nesse ambiente. Além de O Auto da Compadecida, produções como Cinema, Aspirinas e Urubus, Romance e A Pedra do Reino recorreram às paisagens da região. 

Em cada uma delas, Cabaceiras pôde assumir um papel diferente sem deixar de carregar os traços do Cariri.

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A sucessão de equipes, atores e equipamentos acabou rendendo à cidade o apelido de “Roliúde Nordestina”. A comparação com Hollywood virou uma forma bem-humorada de traduzir uma relação que, naquele pedaço do sertão, deixou de ser episódica.

Pedras de outro tempo

Se o centro urbano oferece ruas e fachadas, é fora dele que Cabaceiras revela seu cenário mais monumental. No Lajedo de Pai Mateus, enormes blocos de granito surgem espalhados sobre uma extensa superfície de pedra, alguns equilibrados em posições que parecem desafiar a lógica.

A paisagem tem algo de ancestral. Sob o céu aberto do Cariri, as formações rochosas dividem espaço apenas com a vegetação resistente da Caatinga e uma linha de horizonte quase sem interferências. É ali que a comparação com os antigos faroestes ganha força.

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Nos westerns clássicos, cânions e desertos do oeste norte-americano ajudavam a construir a sensação de distância e isolamento. 

Em Cabaceiras, a função pertence a outro bioma, com outra luz e outra história. A aridez vem da Caatinga; as montanhas dão lugar aos lajedos; e a paisagem deixa de imitar o cinema para impor uma estética própria.

João Grilo passou por aqui

O vínculo mais afetivo entre Cabaceiras e as telas nasceu com O Auto da Compadecida. A produção transformou pontos reais do município em partes do universo criado por Ariano Suassuna, e alguns desses lugares continuaram associados à história mesmo décadas depois das gravações.

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Quem percorre a cidade ainda encontra referências à obra. A réplica da padaria e o Bar do Vicentão ajudam a reconstruir essa memória, enquanto outras construções utilizadas por produções audiovisuais ampliam um roteiro em que ficção e cotidiano se misturam.

Para os moradores, essa relação não ficou restrita ao outro lado das câmeras. Habitantes participaram de gravações como figurantes, acompanharam a movimentação das equipes e viram ruas conhecidas assumir novas identidades diante das lentes.

Com o sucesso das obras, aquilo que antes era apenas parte do cotidiano passou a carregar também uma memória compartilhada pelo público. Fachadas, praças e ruas começaram a ser reconhecidas por visitantes que chegaram à cidade depois de conhecê-las primeiro pela televisão ou pelo cinema.

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A cidade depois do corte

Décadas de filmagens fizeram do cinema uma parte importante da identidade de Cabaceiras. O turismo incorporou antigas locações, referências às produções e histórias dos bastidores, enquanto as paisagens do município continuam atraindo visitantes e novas equipes.

O apelido de “Roliúde Nordestina” acabou se tornando a forma mais conhecida de apresentar essa relação. Ainda assim, ele explica apenas parte da história. Antes de receber atores, diretores e câmeras, Cabaceiras já reunia as características que despertariam o interesse do audiovisual.

Hoje, quem percorre a cidade encontra os dois lados dessa trajetória. Há lugares imediatamente associados a filmes conhecidos, sobretudo O Auto da Compadecida, e outros em que basta observar o casario, a Caatinga e as formações rochosas para entender por que tantas produções escolheram o município.

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A presença constante do cinema acabou dando projeção nacional a características que sempre estiveram ali. 

Cabaceiras passou a receber visitantes interessados nas locações, preservou referências às produções e transformou parte dessa história em atração turística, sem deixar de ser uma pequena cidade do Cariri paraibano onde ruas, pedras e paisagens continuam fazendo parte da rotina dos moradores.