Autor de ‘Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos’ abre o jogo sobre livro proibido e série da Prime Video

Em entrevista exclusiva à Gazeta, Acir Filló fala sobre a repercussão do seu livro e bastidores inéditos do presídio mais famoso do Brasil

Acir Filló relembra a censura de Diário de Tremembé, comenta a série da Prime Video e revela bastidores do presídio (Foto: Reprodução/Instagram)

Acir Filló relembra a censura de Diário de Tremembé, comenta a série da Prime Video e revela bastidores do presídio (Foto: Reprodução/Instagram)

“Eu não tenho nenhuma crítica ao Judiciário. Minha crítica é à pessoa que determinou a censura. Mas a censura vai cair, porque não faz sentido um país democrático censurar um livro”, afirmou o jornalista e ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP), Acir Filló, em entrevista à Gazeta.

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O autor se refere ao livro “Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”, lançado em junho de 2019, que relata histórias e entrevistas de detentos conhecidos nacionalmente, como Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Gil Rugai, Lindemberg Alves e o ex-médico Roger Abdelmassih.

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Dois meses após a publicação da obra, sua venda e circulação foram suspensas pela Justiça de São Paulo, a pedido dos detentos mencionados no livro.

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A justificativa foi a de que a obra distorceria informações repassadas a Acir e teria sido publicada sem a devida autorização formal dos personagens.

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Condenado por fraude em licitações a sete anos de prisão, em 2017, Acir passou parte da pena na Penitenciária II de Tremembé, conhecida como o “presídio dos famosos”.

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Agora, em liberdade, o autor conta os bastidores da produção da obra, fala sobre a experiência com os detentos e comenta os novos livros que escreveu durante o período em que esteve preso.

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Proibição do livro

Em 2019, a juíza Sueli Zeraik de Oliveira Armani, da Vara de Execuções Criminais de Taubaté, proibiu a venda e a circulação de “Diário de Tremembé”.

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Desde então, a obra desapareceu de bibliotecas, livrarias e sites de venda.

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No entanto, com o lançamento da série “Tremembé”, da Prime Video, em outubro de 2025, o interesse do público de true crime pelo livro voltou a crescer.

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Segundo Acir, a censura também contribuiu para despertar a curiosidade dos leitores pela obra. Ainda assim, o autor discorda da decisão judicial e mantém a esperança de que a proibição seja derrubada.

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“Você tem que censurar livro que faz apologia a coisas monstruosas. Mas livros normais, livros comuns, você não pode censurar. E eu sofri essa censura absurda”, afirma.

Caso Roger Abdelmassih

Acir Filló acredita que a censura do livro esteja ligada às revelações que fez sobre o sistema prisional de Tremembé e desvios que detentos como o ex-médico Roger Abdelmassih realizavam.

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Em 2010, Roger Abdelmassih foi condenado a mais de 200 anos de prisão pelo estupro de quase 40 pacientes que procuravam sua clínica para realizar inseminação artificial.

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Segundo Filló, “Diário de Tremembé” contribuiu para revelar a farsa do médico na prisão, onde ele tomava pílulas para simular problemas de saúde e tentar obter prisão domiciliar. Atualmente, Roger Abdelmassih cumpre pena na Penitenciária II de Potim.

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“Foi um livro que ajudou a desvendar, a revelar uma vergonha, que era a fraude que esse estuprador cometia”, declara Filló.

Sobre o medo de retaliação, ele diz que nunca passou por ameaças dentro da penitenciária.

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“Tinha uns burburinhos, né? ‘Poxa, você vai escrever esse livro de Tremembé? Você vai revelar a fraude do Roger Abdelmassih? Esse cara é perigoso, ele é poderoso’. Mas aí não tem jeito, né? Como jornalista, a gente precisa enfrentar essas situações. É como se eu fosse um correspondente de guerra”, explica.

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Experiência com os detentos

Segundo Acir, boa parte do que costuma ser retratado em obras de ficção sobre o sistema prisional não corresponde à realidade.

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Ele conta que, quando foi para Tremembé, teve medo. Com o tempo, porém, a convivência com os presos, especialmente os mais famosos, mudou sua visão.

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“As pessoas ficam até chocadas quando eu falo algumas coisas, mas eu tenho que falar a verdade”, diz ele.

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“O Cristian Cravinhos, por exemplo, que foi um dos assassinos do casal Richthofen, eu o vi durante meses cuidando de presos doentes, sem ganhar nada, nem dinheiro, nem remissão de pena, nada”.

Apesar das diferenças entre a vida real e o que é mostrado em séries, Acir afirma que houve momentos em que ficou abalado ao ouvir relatos de detentos que, segundo ele, cometeram crimes “ainda mais terríveis do que os casos Richthofen e Nardoni”.

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“Eu acho que houve um impacto na minha vida, não só como jornalista, mas também como ser humano. Você passa a ter uma visão mais aprofundada de toda essa situação. Conviver com a pessoa que cometeu essas atrocidades e ouvi-la relatar isso muda qualquer pessoa.”

Série Tremembé

Ao ser questionado sobre a série Tremembé, Filló afirma que se sentiu muito bem representado pelo ator Marcos de Andrade.

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“Em entrevista para o jornal O Globo, eu comentei descontraidamente que gostaria de ser interpretado pelo Fábio Assunção, e eles escreveram que eu teria dito que o Marcos de Andrade era feio. Pelo amor de Deus, não existe ninguém feio. Eu jamais falaria isso”, comentou, em tom descontraído.

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Apesar de ter gostado da caracterização na série, o autor afirma que alguns detalhes importantes ficaram de fora, como a grande dificuldade que enfrentou para convencer as fontes a falarem com ele.

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Outras obras de Acir Filló

Além de “Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”, Acir Filló é autor da biografia do ex-presidente Geraldo Alckmin.

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Recentemente, publicou “O Coveiro de São Paulo – Eu Matei Mais de Mil Pessoas”, sobre um justiceiro que conheceu na P2 de Tremembé.

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Acir ainda pretende lançar, no fim de 2026, um livro sobre 105 homens que mataram suas mulheres e que ele entrevistou durante sua passagem pela prisão. O autor inclusive já adiantou o título à Gazeta: Por que os Homens Matam as Mulheres.

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Segundo ele, o feminicídio é um crime escabroso e, com o livro, pretende contribuir para o debate sobre a violência contra a mulher.