Tem lugares que a gente conhece. E tem lugares que, de alguma maneira, passam a fazer parte da gente. O Pará é assim comigo.
Eu amo Belém, amo a cultura paraense, os sabores, as cores, o jeito de falar e, principalmente, o povo. Um povo que sempre me recebeu com um carinho tão verdadeiro que, quando estou lá, tenho uma sensação difícil de explicar: parece que um pedacinho de mim nasceu no Pará.
Mas nada me preparou para a primeira vez em que vivi o Círio de Nazaré.
Eu já tinha ouvido falar da grandiosidade da festa, das ruas tomadas por milhões de pessoas e da devoção à Nossa Senhora de Nazaré. Só que existe uma coisa que nenhuma fotografia, vídeo ou reportagem consegue mostrar: a energia daquele povo.
Quando você está ali, no meio daquela multidão, entende que o Círio não se assiste. O Círio se sente.
Vi pessoas chorando, agradecendo, pagando promessas, famílias inteiras caminhando juntas. Vi mãos levantadas quando a berlinda passava e rostos que diziam tudo sem precisar de uma palavra. E eu chorei também.
Ali estava a “Nazinha”, como Nossa Senhora de Nazaré é chamada carinhosamente por tantos paraenses, unindo pessoas diferentes, histórias diferentes, sonhos diferentes. Naquele momento não importava de onde cada um vinha. Existia alguma coisa maior ligando todo mundo: a fé.
E essa história atravessa séculos.
A tradição conta que, por volta de 1700, o caboclo Plácido encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens do igarapé Murutucu. Ele a levava para casa e a imagem teria retornado repetidamente ao lugar onde fora encontrada. Ali surgiu uma ermida e, naquele mesmo local, está hoje a Basílica Santuário de Nazaré.
O primeiro Círio aconteceu em 1793. Mais de dois séculos depois, no segundo domingo de outubro, a imagem peregrina percorre aproximadamente 3,6 quilômetros entre a Catedral da Sé e a Praça Santuário.
Mais de dois milhões de pessoas podem tomar as ruas de Belém. É uma das maiores manifestações religiosas do planeta e, desde 2013, o Círio é reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Mas números não explicam o Círio.
Para entender é preciso olhar para o paraense.
Talvez por isso essa festa tenha mexido tanto comigo. Porque o que encontrei ali foi exatamente aquilo que sempre me fez amar o Pará: um povo acolhedor, generoso, alegre e que não tem vergonha de demonstrar sentimento.
Durante o Círio, Belém muda. As famílias se reencontram, as casas se enchem, existe o tradicional almoço do Círio e as pessoas desejam umas às outras “Feliz Círio!”. É quase como um Natal para o paraense.
E eu tive o privilégio de estar no meio disso tudo.
Já vivi momentos maravilhosos viajando pelo mundo, mas poucas vezes senti algo tão forte quanto naquele dia. Porque existem viagens que deixam fotografias. Outras deixam histórias.
O Círio deixou uma marca em mim.
E toda vez que penso em Belém, penso naquele povo, naquela multidão e naquela pequena imagem passando em meio a milhões de pessoas.
E penso: como pode uma Nazinha tão pequena carregar uma fé tão gigante?



