“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta”, escreveu Mário de Andrade. Talvez a cultura brasileira caiba nessa impossibilidade do singular. Há muitos Brasis — nenhum cabe na imagem que o país exporta ou na caricatura com que se explica.
Esta coluna não será agenda nem tribunal do bom gosto. Observará o Brasil por meio dos livros, da música, do cinema e das tradições que inventam o contemporâneo. As estatísticas medem um país; a cultura permite ouvi-lo pensando.
Escrevo como português entre São Paulo e Lisboa. A proximidade impede o exotismo; a distância corrige a ilusão. Não venho explicar o Brasil aos brasileiros — seria reincidir num velho vício português: chegar, dar nome às coisas e julgar que assim as compreendemos. Venho escutar e criar pontes entre geografias que partilham a língua, mas ainda partilham mal os seus livros.
O primeiro equívoco é tratar a cultura como adereço, reservado para depois de resolvido tudo o que é “sério”. A Constituição brasileira foi mais lúcida: fez do acesso à cultura um direito e reconheceu como patrimônio as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver. O Ministério da Cultura estima que a economia cultural e criativa represente 3,11% do PIB e reúna cerca de 7,5 milhões de trabalhadores. Cultura é memória, cidadania e economia.
Ainda assim, o país mantém uma relação curiosa com o que produz. Quando a cultura dá lucro, chama-se indústria; quando precisa de política pública, chama-se privilégio. Quando vence no exterior, vira orgulho nacional; quando nasce na periferia, no interior ou longe dos centros de consagração, precisa primeiro provar que é cultura. O problema nunca foi falta de criação. É a distribuição desigual de atenção, recursos e legitimidade.
Celebrar a diversidade não basta. É preciso perguntar quem circula, quem é publicado, quem chega às escolas e quem fica na prateleira da “identidade”, enquanto outros recebem o estatuto de universais. Um livro que não atravessa o próprio país mostra o problema: a cultura existe; a circulação não está à altura dela.
A cada semana, procurarei obras, vozes e territórios capazes de contrariar esse mapa. Olharei também para as outras geografias da língua portuguesa, não como anexos, mas como centros de criação e pensamento.
A cultura não é o que sobra depois das urgências. É onde uma sociedade decide o que considera urgente, quem pode falar e qual futuro consegue imaginar. Se o Brasil quiser saber que país está se tornando, terá de olhar menos para o espelho dos estereótipos e mais para a arte que ainda não aprendeu a ver.
