A Record anunciou nesta sexta-feira, 9 de outubro, o cancelamento do debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), previsto para domingo, dia 11. Segundo a emissora, a decisão foi motivada pela incompatibilidade de agendas dos candidatos. Seria o primeiro confronto direto entre os dois neste segundo turno.
Mas existe uma pergunta que merece tanta atenção quanto o próprio cancelamento: quem se beneficia quando uma eleição presidencial pode ser disputada sem que os principais candidatos precisem defender suas ideias diante um do outro?
A resposta não é tão simples quanto parece. Na política, assim como no mundo corporativo, exposição pública não é apenas uma oportunidade de conquistar reputação. É também uma possibilidade de perdê-la.
E compreender essa equação ajuda a explicar por que debates, entrevistas e aparições públicas são tratados pelas campanhas como decisões estratégicas, e não apenas compromissos de agenda.
Existe um conceito bastante conhecido por profissionais de comunicação e gestão de crise: o gerenciamento de risco reputacional. Em termos simples, significa avaliar o que uma pessoa ou instituição pode ganhar ou perder ao se expor publicamente.
Antes de uma apresentação, equipes analisam cenários, identificam vulnerabilidades, antecipam perguntas difíceis e calculam possíveis consequências. Isso é absolutamente legítimo. O que merece atenção é a diferença entre preparar alguém para enfrentar perguntas difíceis e construir uma estratégia para evitar que essas perguntas sejam feitas.
Em um debate presidencial, o risco é particularmente elevado porque o candidato perde parte do controle sobre a própria narrativa. Um discurso gravado pode ser refeito. Uma publicação pode ser revisada antes de chegar ao público.
Uma entrevista pode ocorrer em um ambiente no qual se conhece antecipadamente o perfil do entrevistador. Já um debate coloca o candidato diante de variáveis que não controla completamente: o adversário, o tempo de resposta, as objeções, as interrupções e a necessidade de organizar argumentos sob pressão.
Passei parte significativa da minha trajetória estudando e participando de competições nacionais e internacionais de oratória e debates. Uma das primeiras coisas que aprendi é que saber falar não significa necessariamente saber argumentar. A oratória permite organizar e apresentar uma mensagem.
A argumentação exige sustentar uma posição diante de questionamentos. E a refutação acrescenta uma terceira competência: identificar os limites do raciocínio apresentado pelo outro e responder a eles com consistência. São habilidades diferentes, frequentemente confundidas por uma sociedade que passou a medir a qualidade de uma fala pela quantidade de aplausos que ela recebe.
Na política contemporânea, essa confusão se tornou ainda mais relevante. Um candidato pode conquistar milhões de visualizações com uma frase de quinze segundos sem que o público tenha acesso aos argumentos que a antecederam ou às perguntas que vieram depois.
A comunicação eleitoral passou a operar em duas arenas simultâneas: a do acontecimento e a da interpretação do acontecimento. O que acontece dentro de um estúdio importa, mas a maneira como aquele episódio é recortado, distribuído e apresentado nas redes sociais também influencia a percepção do eleitor.
Um levantamento da Datrix, divulgado nesta semana, ajuda a compreender essa transformação. Ao analisar 16.292 publicações entre a noite de 1º de outubro e a manhã seguinte, a empresa identificou que Lula concentrou 80,4% das menções monitoradas após sua participação no Flow Podcast, em meio à controvérsia sobre o debate da Globo. O levantamento também registrou maior interesse de busca pelo presidente naquele intervalo. O episódio não demonstra, por si só, qualquer vantagem eleitoral, mas oferece um exemplo concreto de como a escolha de um ambiente de comunicação pode alterar a distribuição da atenção pública.
É aqui que precisamos diferenciar visibilidade de persuasão. Uma pessoa pode dominar a conversa nas redes sociais sem convencer quem discorda dela. Pode gerar milhares de comentários sem conquistar novos eleitores. Pode transformar uma entrevista em um sucesso de audiência e continuar sem responder às questões consideradas prioritárias por parte da população.
Alcance, engajamento, reputação e capacidade de convencimento são indicadores diferentes. Uma campanha que confunde esses conceitos corre o risco de celebrar resultados digitais que não correspondem necessariamente a mudanças na opinião pública.
O cancelamento da Record acontece em uma eleição particularmente competitiva. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira aponta Flávio Bolsonaro com 52% dos votos válidos e Lula com 48%, considerando margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 2.520 eleitores nos dias 6 e 7 de outubro.
Os números descrevem o cenário registrado naquele período, não o resultado futuro da eleição. Ainda assim, ajudam a compreender por que cada oportunidade de exposição pode ser cuidadosamente avaliada pelas campanhas.
Em uma disputa assim, o cálculo estratégico possui pelo menos três dimensões. A primeira é a oportunidade: um debate permite alcançar eleitores que ainda não decidiram seu voto ou desejam comparar propostas. A segunda é a vulnerabilidade: qualquer contradição, reação impulsiva ou resposta insuficiente pode ser amplificada digitalmente. A terceira é o controle da agenda: participar de um confronto significa dedicar tempo e atenção a temas que nem sempre são os mais favoráveis à narrativa de campanha.
Isso não significa que o cancelamento tenha sido provocado por um cálculo deliberado de alguma das candidaturas. A justificativa anunciada foi a incompatibilidade de agendas, e atribuir intenções sem evidências seria transformar análise em especulação. Mas compreender os possíveis incentivos envolvidos é fundamental para examinar o ambiente no qual essas decisões são tomadas.
Lula e Flávio Bolsonaro chegam a essa disputa com ativos comunicacionais distintos. Lula possui uma longa trajetória política, na qual a narrativa pessoal, a linguagem popular e a experiência de governo ocupam posição importante. Flávio apresenta uma comunicação associada à identidade política construída em torno do sobrenome Bolsonaro e ao diálogo com setores que se identificam com esse campo.
São estruturas narrativas diferentes, submetidas a desafios próprios. Um debate permitiria observar como cada candidato sustenta suas mensagens quando confrontado diretamente com argumentos e perguntas da outra candidatura.
E esse talvez seja o aspecto mais relevante do encontro que não acontecerá. Durante uma campanha, eleitores são constantemente apresentados a versões cuidadosamente elaboradas dos candidatos. Cada discurso possui uma intenção. Cada enquadramento privilegia determinadas informações.
Cada escolha de palavras procura produzir uma interpretação. O debate não elimina essas estratégias, mas introduz uma variável essencial: a possibilidade de contestação em tempo real.
Na retórica clássica, Aristóteles descreveu três dimensões da persuasão: ethos, relacionado à credibilidade de quem fala; pathos, associado às emoções despertadas no público; e logos, ligado à construção dos argumentos. A comunicação política contemporânea continua recorrendo a essas dimensões, embora frequentemente privilegie as duas primeiras. Identificação, confiança, indignação e pertencimento são capazes de mobilizar grandes audiências. Já o exame rigoroso das justificativas de uma proposta exige mais tempo, atenção e disposição para lidar com informações complexas.
É precisamente nesse ponto que o debate deveria contribuir. Não para transformar a escolha presidencial em um campeonato de frases de efeito, mas para criar condições de comparar raciocínios. Como um candidato justifica uma decisão? Quais evidências utiliza? O que faz quando uma informação contraria seu argumento? Consegue responder ao que foi perguntado ou desloca a conversa para um assunto mais conveniente? Essas observações não determinam quem governará melhor, mas oferecem elementos adicionais para a avaliação pública.
Existe, porém, uma responsabilidade que não pertence apenas aos candidatos. A imprensa também precisa refletir sobre o formato dos debates que organiza. Quando o confronto é estruturado exclusivamente para produzir embates pessoais, interrupções e momentos de constrangimento, cria-se um ambiente no qual a performance pode se sobrepor ao conteúdo. Um debate de qualidade depende de perguntas relevantes, regras compreensíveis, possibilidade de réplica e mecanismos que favoreçam respostas objetivas. O propósito deveria ser ampliar a compreensão do eleitor, não apenas produzir os vídeos mais compartilhados da noite.
A própria Record já havia cancelado o encontro previsto para o primeiro turno, em 27 de setembro, após os dois principais candidatos informarem que não participariam. Agora, um novo cancelamento reduz mais uma oportunidade de confronto direto. Outros debates continuam previstos para esta etapa da eleição, o que impede concluir que os candidatos não se enfrentarão até o dia da votação. Mas a repetição dessas situações merece atenção.
Talvez a pergunta sobre quem ganha com a ausência de um debate esteja incompleta. É possível identificar vantagens circunstanciais para campanhas que conseguem preservar mensagens, administrar exposição e concentrar esforços em ambientes considerados mais favoráveis. Também existem custos: a ausência pode gerar críticas, frustrar expectativas e eliminar oportunidades de conquistar a confiança de públicos ainda não convencidos. Sem conhecer as decisões internas de cada campanha, não há fundamento para declarar um beneficiário concreto.
Para o eleitor, entretanto, existe uma consequência objetiva: uma oportunidade a menos de comparar respostas dadas sob condições semelhantes.
A comunicação é uma ferramenta de poder porque influencia a maneira como interpretamos pessoas, acontecimentos e decisões. Justamente por isso, deveria ser examinada com rigor quando utilizada por aqueles que pretendem governar o país. Não basta perguntar se um candidato comunica bem. É necessário observar o que comunica, como sustenta o que diz e quais oportunidades oferece para que suas afirmações sejam questionadas.
Afinal, falar para uma plateia que concorda é uma habilidade. Responder diante de quem discorda é outra. E, em uma eleição presidencial, o cidadão deveria ter a oportunidade de observar ambas.
