Através da arte do bom argumento é possível persuadir o eleitorado. Porém, um discurso por si só não tem o poder de mudar algo tão enraizado quanto a corrupção no Brasil.
Infelizmente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por vezes parece não dominar a retórica e nem o combate à corrupção. Discursar que “acabou com a corrupção” e ignorar denúncias, até mesmo em sua família, não faz jus à bandeira que o elegeu. E um dos primeiros sinais de que a fala não condiz com a ação foram os inúmeros desentendimentos com o símbolo da maior operação contra a corrupção que este país já vivenciou. Ao não aprovar medidas importantes do pacote anticrime do então “superministro” Sergio Moro, Bolsonaro decepcionou os lavajatistas e, consequentemente, parte do seu eleitorado.
A parte que continua apoiando-o acusa a imprensa de perseguição. Porém, houve um real desmonte da Lava Jato que resultou na debandada da equipe, a começar pelo procurador da República Deltan Dallagnol, então coordenador da força-tarefa, em Curitiba. Famoso por expor os slides que apontavam o ex-presidente Lula como chefe de uma organização criminosa que assolou os cofres públicos, Dallagnol alegou problemas pessoais. No entanto, o que se sabe é que o novo Procurador-Geral da República, Augusto Aras, centralizou todos os processos, anulou delações e pediu acesso a dados sigilosos da operação.
Tão antigo quanto o esquema de rachadinhas do qual o senador Flavio Bolsonaro é investigado é a resignação do brasileiro com a corrupção e a tentativa dos governantes de ludibriar a população. Em 2019, por exemplo, o Brasil tirou novamente a pior nota da série histórica no exame da percepção da corrupção no mundo recentemente publicado pela Transparência Internacional. Seus 35 pontos – os mesmos de 2018 – o colocam na 106° posição em uma lista que tem a Dinamarca no topo.
A prerrogativa de um governo sem corrupção é deixar os poderes livres para atuar no âmbito da democracia. Uma Justiça e uma imprensa livres são fundamentais para ajudar a manter governos na linha – é assim em todas as nações desenvolvidas e livres do mundo. Não é possível, em democracias saudáveis, tentar calar quem tem a obrigação de fiscalizar o poder. A fala do presidente foi, no mínimo, temerosa. A Justiça deve continuar a fazer o seu trabalho. Só assim poderemos sonhar com a utopia de um país sem corrupção.
