Para Moro, candidatos à Presidência têm de ser cobrados sobre combate à corrupção

O juiz defendeu que os candidatos à Presidência sejam cobrados sobre seis pontos de fortalecimento do combate à corrupção, entre os quais impedir a anistia ao caixa dois eleitoral Por Folhapress

O juiz federal de Curitiba (PR) Sergio Moro defendeu nesta quinta-feira (23) que os candidatos à Presidência da República sejam cobrados, durante a campanha eleitoral, sobre seis pontos de fortalecimento do combate à corrupção, entre os quais impedir a anistia ao caixa dois eleitoral.

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Ele falou por mais de duas horas a uma plateia de delegados da Polícia Federal que o aplaudiu de pé durante o 3º Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, promovido pela ADPF (Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal) em Salvador.

“Eleições servem para isso, é exigir das nossas lideranças políticas um firme compromisso contra a corrupção e contra a volta do status quo [anterior à Lava Jato]. Até sugeriria que aos candidatos fossem feitas indagações específicas sobre pontos importantes no progresso do combate à corrupção”, disse Moro.

Ele listou os assuntos: sem retrocesso na execução de prisão após decisão judicial segunda instância, ampliar padrões de governança para órgãos da administração direta, não admitir a anistia aos crimes de caixa dois eleitoral, impedir que uma lei de abuso de autoridade constranja autoridades federais, a extinção do foro especial por prerrogativa de função para ações penais e não usar a governabilidade como argumento para tolerar a corrupção.

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A palestra foi acompanhada, em três salas, por cerca de mil pessoas, segundo a ADPF, entre os quais cerca de 250 delegados da PF.

O juiz disse que os tribunais superiores não têm estrutura para julgar casos contra autoridades beneficiadas por foro especial por prerrogativa de função, o que leva a uma demora nos processos, “mesmo quando, todos os seus esforços, os relatores são simpáticos e têm a intenção de apresentar o resultado em tempo razoável”.

Ele citou como exemplos positivos os ex-ministros Teori Zavascki, morto em 2017, e Joaquim Barbosa e o ministro do STF Edson Fachin. Porém, para o juiz “a própria ideia do foro privilegiado é contrária àquele sentimento básico da democracia de que todos são iguais”.

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“Dos candidatos deveria ser tomado um compromisso expresso de eliminação do foro privilegiado para todas as autoridades, inclusive os juízes. Não faço questão do meu foro privilegiado, acho que é mais inconveniente do que uma espécie de privilégio”, disse o magistrado.

O juiz citou a possibilidade da prisão após decisão em segunda instância como o ponto fundamental sobre o qual os candidatos deveriam se comprometer durante a campanha.

“Não pode ser aquela posição titubeante, ‘ah isso é responsabilidade das cortes de Justiça’. Não, isso é responsabilidade de quem quer ser candidato, tem que ter uma posição firme no sentido de que não haja retrocesso em relação a esse ponto”, disse Moro.

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O juiz disse que há comentários de que há uma ideia de anistia no ar em relação ao caixa dois. “É um crime menos grave, vamos admitir, mas o problema é querer anistiar corrupção a pretexto de anistiar caixa dois. Há casos claros em que doações eleitorais foram feitas como corrupção. […] O fato de doar não tornar o dinheiro limpo. Também acho que os candidatos deveriam ser confrontados, qual é a posição deles”.

Para Moro, o argumento de que a governabilidade é necessária mesmo que custe atos de corrupção deveria ser atacado durante a campanha eleitoral.

“[É preciso] exigir dos candidatos que não transijam com corrupção em alegação de governabilidade. […] Com o tempo, o que se tem é mais corrupção é menos governabilidade. E nós precisamos acima de tudo de exemplos”, disse o juiz.

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Em resposta a perguntas da plateia, o juiz disse que é importante que as instituições, “especialmente a Polícia Federal, que vive um momento histórico”, “tenham que trabalhar para ter os recursos necessários” para cumprir seu papel.

Moro disse que considera salutar uma das bandeiras históricas da PF, o mandato para o diretor-geral. Ele disse que seria uma forma de defender a instituição de “interferências indevidas e protegê-lo de retaliações políticas”.

Moro fez também uma defesa da Operação Lava Jato ao dizer que ela muitas vezes é acusada injustamente de ter perseguido políticos de esquerda.

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“Se formos ver os fatos, talvez o principal responsável pelo impeachment da presidente Dilma [o ex-deputado Eduardo Cunha], está preso na Lava Jato. […] Acho engraçada essa desqualificação, é a mesma coisa que condenar o [escândalo] Watergate porque não foram punidos os democratas. Sim, era um esquema do presidente republicano, onde estavam os democratas?”

Medalha

Moro recebeu a medalha Tiradentes, concedida pela ADPF às pessoas que se notabilizaram pelo trabalho de apoio à Polícia Federal ao longo do ano.

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O presidente da entidade, Edvandir Paiva, disse em seu discurso que está preocupado “com a relativização da corrupção, de que não seria um problema” para o país. Ele citou uma estimativa da federação da indústria de São Paulo segundo a qual seriam desviados R$ 100 bilhões ao ano.

Mencionou custos indiretos da corrupção, como a dificuldade para as empresas se tornarem competitivas e a descrença da sociedade brasileira na própria democracia. “Isso é muito perigoso. Dessa descrença nasce o cenário perfeito para todo tipo de solução e discurso. Não deve depender de ‘salvadores da pátria’ o funcionamento do Estado brasileiro”, disse Paiva.

Em seu discurso, a “número dois” da direção-geral da PF em Brasília, a diretora-executiva Silvana Helena Borges, disse que as ações da PF contra corrupção crescem 411% em cinco anos, chegando a 286 casos no ano de 2017, com um total de 1.946 prisões.

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Ela disse que um levantamento da PF indicou que, em 2014, foram investigados supostos desvios em contratos públicos que somaram R$ 195 milhões. Em 2017, o número saltou para R$ 29,4 bilhões.

A delegada afirmou que a PF vai continuar nesse caminho para mudar a percepção de que as pessoas só não são corruptas quando ainda não chegaram ao poder, uma referência à anotação encontrada com um delator da Lava Jato.

A expectativa de realização de protestos contra o juiz Sergio Moro não se confirmou. Nesta quarta-feira (22), a Justiça Federal da Bahia proibiu a realização de manifestações do “Movimento Lula Livre” dentro do Shopping Barra, onde o simpósio foi realizado, a pedido do próprio centro de compras. Mesmo sem protestos, a segurança do shopping foi reforçada.