Aos 97 anos, Elisabeth “Betty” Bromage poderia perfeitamente escolher uma rotina mais tranquila para aproveitar a aposentadoria. Um café fresco pela manhã, algumas horas de crochê ou caminhadas pelo parque seriam alternativas bastante razoáveis. Betty, porém, parece ter outros planos para o tempo livre: preferiu subir na asa de um avião e enfrentar acrobacias a vários metros do chão.
A britânica voltou a praticar wing walking, modalidade em que o participante permanece do lado de fora da aeronave durante o voo, e superou o próprio recorde como mulher mais velha a realizar a atividade. Betty completou a façanha na terça-feira (4), em Gloucestershire, na Inglaterra, e provou mais uma vez que aposentadoria e sossego não precisam necessariamente frequentar a mesma frase.
Durante cerca de cinco minutos, ela permaneceu presa à aeronave enquanto o piloto executava diferentes manobras. O percurso incluiu até um loop the loop, movimento em que o avião completa uma volta vertical no céu. Betty já havia estabelecido o recorde aos 93 anos, em 2022, mas decidiu que a própria marca ainda precisava de alguma concorrência.
Por trás da aventura, havia um motivo que tornou o voo ainda mais significativo. Betty decidiu arrecadar recursos para o departamento de AVC do Hospital Geral de Cheltenham, onde recebeu atendimento depois de sofrer um derrame em 2025.
Aventura começou aos 87 anos
O problema de saúde não afastou Betty das alturas. Embora ainda enfrente algumas dificuldades na fala, a britânica se recuperou e retomou a atividade que começou a praticar aos 87 anos. Com a nova aventura, ela chegou à sexta experiência de wing walking.
Curiosamente, Betty considera mais complicado chegar até a asa do que permanecer sobre ela durante o voo. Antes da decolagem, precisa subir até a estrutura posicionada a mais de quatro metros do solo. Só então começa aquilo que, para boa parte das pessoas, seria justamente a etapa menos convidativa: esperar o avião deixar o chão.
Depois que assume sua posição e fica presa pelos equipamentos de segurança, o receio dá lugar à diversão. “Você não deve dizer ‘não consigo’. Você diz ‘Eu farei se eu puder’”, afirmou Betty à revista People. Após o pouso, classificou a experiência como “ótima”, embora tenha reconhecido que enfrentou alguma turbulência. Aos 97, reclamar do trânsito no caminho de casa talvez seja pouco emocionante.
Acrobacia nasceu há um século
A ousadia de Betty encontra precedentes em uma tradição que atravessou gerações. O wing walking ganhou popularidade entre as décadas de 1910 e 1920, período em que os chamados “circos voadores” transformaram acrobacias aéreas em grandes espetáculos.
Depois da Primeira Guerra Mundial, muitos pilotos treinados e aeronaves ficaram disponíveis. Aviadores aproveitaram essa estrutura para organizar apresentações e passaram a buscar números cada vez mais arriscados para conquistar o público. Ficar dentro da cabine, aparentemente, logo deixou de ser emocionante o bastante.
Foi nesse ambiente que o americano Ormer Locklear ganhou notoriedade ao sair da cabine e caminhar sobre as asas da aeronave. A façanha chamou tanta atenção que outros artistas incorporaram movimentos semelhantes aos espetáculos, elevando progressivamente o grau de dificuldade.
Alguns números chegaram a envolver a passagem de uma aeronave para outra em pleno voo. O público ganhava um espetáculo impressionante, enquanto a margem para o erro permanecia perigosamente pequena.
Segurança mudou a prática
Naqueles primeiros anos, os participantes contavam com muito menos proteção. Acidentes e mortes levaram a modalidade a adotar regras mais rígidas e equipamentos de segurança, reduzindo parte dos riscos que acompanhavam as apresentações originais.
Hoje, praticantes de wing walking permanecem em posições determinadas sobre a aeronave, presos por equipamentos específicos e seguindo protocolos de proteção. A modalidade também perdeu espaço em relação aos tempos em que os circos voadores reuniam multidões dispostas a assistir a números cada vez mais arriscados.
Foi com essa estrutura mais segura que Betty voltou aos céus para superar um recorde que já pertencia a ela. A britânica começou a praticar aos 87 anos, estabeleceu a marca mundial aos 93, enfrentou um derrame aos 96 e, aos 97, resolveu que ainda não era hora de manter os dois pés no chão.
Depois de seis experiências sobre a asa de um avião, Betty parece ter desenvolvido uma relação bastante particular com a aposentadoria. Enquanto muita gente aproveita o tempo livre para colocar a leitura em dia ou cuidar do jardim, ela prefere conferir se o recorde mundial continua em boas mãos. E, pelo visto, continua.






