Faz dias que o céu cinza domina a cidade de São Paulo, as poças não somem das calçadas e o boletim meteorológico segue repetindo a mesma palavra: chuva. Foi justamente esse momento de desespero por um dia de sol que, séculos atrás, deu origem a uma das tradições católicas mais curiosas do Brasil, a de Santa Clara.
Segundo a tradição, quando a chuva insiste em não parar, basta jogar um ovo no telhado de casa e fazer uma oração a Deus ou entregar de ovos ao convento de clarissas antes de um evento.
Nascida em família nobre, Clara de Assis abandonou a vida de conforto ainda jovem para seguir os passos de Francisco de Assis, fundando a ordem que ficaria conhecida como Clarissas. Sete séculos depois, sua fama de “acalmar” chuvas, e até telas, segue atravessando gerações, dos altares católicos às canções populares.
De onde vem a tradição dos ovos para Santa Clara?
A origem mais difundida da lenda remete a uma peste que teria dizimado as galinhas poedeiras do convento onde Clara vivia, no século 13. Os ovos eram essenciais: com eles, as freiras faziam doces vendidos para sustentar obras sociais.
Diante da perda, Clara teria pedido ajuda a Deus. Pouco depois, uma caravana de moradores de uma vila destruída por uma tempestade chegou ao mosteiro em busca de abrigo, e foi acolhida pela santa.
Em agradecimento, os viajantes ofereceram galinhas e ovos ao convento. Clara, então, pediu a Deus que a chuva parasse naquela região, pedido que, segundo a tradição, foi atendido. Assim nasceu o costume de levar ovos a um convento de clarissas em troca de bom tempo.
Como funciona o ritual até hoje?
O costume se popularizou principalmente entre noivas que desejam sol no dia do casamento. Pela tradição, a entrega precisa ser feita por uma mulher, com os ovos deixados no altar da santa um dia antes da cerimônia.
Ao longo da história, Santa Clara também passou a ser invocada por navegadores, sobretudo portugueses, como proteção contra tempestades no mar, um traço que reforçou sua imagem de guardiã do bom tempo em diferentes contextos.
Uma santa cantada na música brasileira
A crença popular atravessou séculos e ganhou espaço na cultura brasileira. Em 1981, Jorge Ben Jor lançou a canção “Santa Clara Clareou”, inspirada diretamente na tradição. Antes dele, o poeta Manuel Bandeira já havia citado a santa em versos que pedem “ventos regulares” para os aviadores.
Já em 1991, Caetano Veloso dedicou a música “Santa Clara, Padroeira da Televisão” a outra curiosidade sobre a santa: o reconhecimento oficial, concedido pelo papa Pio 12 em 1958, como padroeira da TV, uma associação que remonta a um relato de que Clara teria “visto” uma missa de Natal projetada na parede de seu quarto, séculos antes da invenção do aparelho.
No Rio de Janeiro, Papa Francisco pediu que Santa Clara acalmasse as chuvas em 2013
Na primeira viagem internacional do seu pontificado, o papa Francisco fez um pedido inusitado ao então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes: enviar uma cesta de ovos a um convento de freiras clarissas. Era julho de 2013, a Jornada Mundial da Juventude enfrentava chuva havia quatro dias seguidos, e o papa recorreu a uma antiga tradição católica popular ligada a Santa Clara de Assis.
Segundo relatos de religiosas clarissas, a oferta foi realmente feita por um assessor da prefeitura. Nos dias seguintes, o tempo abriu, reforçando, aos olhos dos devotos, a fama da santa como uma espécie de “protetora contra chuvas”.






