Uma tecnologia desenvolvida por cientistas brasileiros pode mudar a forma como o colágeno de jumento é produzido e criar uma alternativa ao abate dos animais.
Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estudam uma técnica que permite produzir a proteína em laboratório por meio da chamada fermentação de precisão.
A proposta chama atenção porque o colágeno dos jumentos abastece um mercado de grande valor, principalmente na China. Atualmente, a obtenção da matéria-prima depende da pele dos animais abatidos.
Com a nova tecnologia, os cientistas tentam reproduzir a proteína sem precisar retirar a pele de um jumento.
Como funciona a invenção
A fermentação de precisão utiliza microrganismos, como leveduras ou bactérias, para produzir proteínas específicas.
No projeto da UFPR, os pesquisadores inserem em um desses microrganismos o material genético responsável pela produção do colágeno de jumento. A célula passa então a produzir a proteína desejada.
A técnica já existe para outros produtos, mas a aplicação específica para produzir colágeno de jumento ainda representa uma novidade científica.
A professora Carla Forte Maiolino Molento, coordenadora do projeto, explica que a primeira etapa consiste em adaptar as técnicas existentes para esse tipo de colágeno. Segundo ela, ainda não havia publicação científica sobre a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão.
O projeto recebeu R$ 250 mil da Fundação Araucária e reúne pesquisadores da UFPR e da Universidade de Wageningen, nos Países Baixos.
Tecnologia tenta substituir produto retirado dos animais
A pesquisa está diretamente relacionada ao ejiao, produto tradicional da Medicina Tradicional Chinesa produzido a partir do colágeno extraído da pele dos jumentos.
A crescente procura pelo produto aumentou a pressão sobre as populações desses animais em diferentes partes do mundo. No Brasil, pesquisadores alertam para uma forte redução da população de jumentos nas últimas décadas.
Segundo dados citados pela BBC News Brasil, frigoríficos da Bahia abateram pelo menos 248 mil jumentos entre 2018 e 2024. O Estado concentra frigoríficos autorizados pelo Serviço de Inspeção Federal para realizar esse tipo de abate.
A situação levou pesquisadores a buscar uma solução que atenda à demanda pelo colágeno sem depender diretamente dos animais.
Pesquisa ainda precisa virar produto
Apesar do potencial, a tecnologia ainda não chegou à produção industrial.
Depois de estabelecer o método, os cientistas precisam estudar o aumento da escala de produção e a redução dos custos. Por se tratar de um produto destinado ao consumo humano, também será necessário obter as aprovações regulatórias necessárias no Brasil e, no caso de exportação, no país consumidor.
A expectativa divulgada pela equipe é obter os primeiros resultados da pesquisa até o fim de 2026.
Se a técnica avançar, o colágeno poderá deixar de depender exclusivamente da pele dos jumentos e passar a ser produzido por meio de um processo controlado em laboratório.
Assim, uma tecnologia desenvolvida no Paraná pode representar uma nova alternativa para um mercado que, atualmente, coloca uma espécie tradicional do Nordeste brasileiro sob forte pressão.






