A quase 5 mil metros de profundidade, onde a luz do Sol não chega, cientistas encontraram barris radioativos enferrujados, parte do conteúdo espalhado pelo fundo do mar e animais vivendo sobre os recipientes. As estruturas fazem parte de um depósito de mais de 200 mil barris com resíduos nucleares que países europeus lançaram no Oceano Atlântico durante o século passado.
A descoberta ganhou novos detalhes com as expedições do projeto NODSSUM, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). Entre 2025 e 2026, os pesquisadores utilizaram robôs submarinos e equipamentos especializados para investigar o que aconteceu com os materiais após décadas de contato com a água salgada.
As imagens revelaram recipientes em diferentes estados de conservação. Alguns apresentam corrosão avançada, enquanto outros já perderam parte do conteúdo. Além dos sinais de deterioração, a equipe encontrou anêmonas, esponjas e crustáceos vivendo sobre os barris, situação que levantou dúvidas sobre os efeitos da radioatividade na vida marinha.
Descarte nuclear durou décadas
Durante boa parte do século 20, países europeus utilizaram regiões profundas do Atlântico Nordeste para descartar materiais provenientes de atividades nucleares. Na época, governos e indústrias consideravam o fundo do oceano uma alternativa para manter os resíduos longe das áreas habitadas.
Entre 1971 e 1982, mais de 200 mil barris chegaram a profundidades superiores a 4.700 metros. Os recipientes continham materiais radioativos, geralmente incorporados a substâncias como cimento e betume.
A intenção era manter os resíduos confinados por longos períodos. Entretanto, a água salgada e a passagem das décadas comprometeram parte das estruturas metálicas.
Além disso, a falta de informações precisas sobre a localização dos depósitos dificultou o monitoramento ambiental durante anos.
Cientistas encontraram milhares de barris
Em 2025, os pesquisadores iniciaram uma nova etapa da investigação com o robô submarino UlyX. Equipado com sonar de alta resolução, o veículo percorreu aproximadamente 165 quilômetros quadrados do fundo do Atlântico.
Durante a exploração, a equipe localizou mais de 3.500 barris em uma área que representa menos de 2% da região de descarte. O resultado mostrou que milhares de recipientes ainda permanecem fora das áreas examinadas.
Já em 2026, os cientistas retornaram ao oceano a bordo do navio francês Pourquoi Pas?. Dessa vez, utilizaram o submarino tripulado Nautile para observar os barris de perto.
Ao longo dos mergulhos, encontraram recipientes cobertos por sedimentos, estruturas corroídas e materiais que haviam escapado para o fundo do mar.
Os pesquisadores também recolheram amostras de água, sedimentos e organismos marinhos para investigar a presença de substâncias radioativas e entender como elas interagem com o ambiente.
Animais passaram a ocupar barris
As câmeras do submarino registraram uma situação inesperada. Mesmo em uma região sem luz solar e submetida a pressões extremas, diferentes espécies passaram a ocupar os recipientes abandonados.
Anêmonas, esponjas e pequenos crustáceos utilizam os barris como pontos de fixação e abrigo. Os cientistas também encontraram peixes e outros organismos nas proximidades.
Isso acontece porque as estruturas metálicas oferecem superfícies rígidas em uma região onde predominam sedimentos. Assim, os recipientes criaram condições para a instalação de espécies que dependem desse tipo de suporte.
Entretanto, a presença de animais não significa que o ambiente esteja livre de riscos. Os pesquisadores ainda precisam descobrir se os organismos absorvem materiais radioativos e quais consequências essa exposição pode provocar.
A situação também chama atenção para outros problemas relacionados à poluição dos oceanos, como o acúmulo de plásticos e resíduos industriais em regiões distantes da costa.
Como a radioatividade ameaça animais?
O principal risco ambiental surge quando a corrosão danifica os recipientes e permite que os resíduos entrem em contato com a água e os sedimentos. A partir desse momento, substâncias radioativas podem alcançar organismos que vivem próximos aos barris.
Durante a expedição, os cientistas identificaram sinais de cobalto-60 e nióbio-94, associados aos resíduos nucleares. Também encontraram césio-137 e amerício-241, elementos que podem ter diferentes origens.
Parte dessas substâncias pode permanecer acumulada nos sedimentos, enquanto outra parcela pode se dispersar pela água.
O problema é que pequenos animais podem absorver radionuclídeos ou ingerir partículas contaminadas. Caso outros organismos se alimentem deles, determinadas substâncias também podem passar de uma espécie para outra.
Dependendo da concentração e do tempo de exposição, a radiação pode provocar danos celulares e alterações na reprodução dos animais.
No entanto, os cientistas ainda não comprovaram esses efeitos nas espécies encontradas. Também não determinaram quanto material já escapou dos barris nem até onde os resíduos conseguiram se espalhar.
As primeiras medições não indicaram níveis que exigissem medidas extraordinárias de proteção radiológica para a equipe. Isso não elimina a possibilidade de impactos ambientais provocados pela exposição prolongada.
Por isso, os pesquisadores continuam analisando as amostras recolhidas. O objetivo é descobrir se os materiais radioativos estão entrando na cadeia alimentar e se podem afetar organismos que vivem a grandes distâncias dos depósitos.
Até agora, os resultados não demonstram uma contaminação generalizada do Atlântico nem riscos comprovados para a população que consome frutos do mar.
A investigação se soma a outros estudos sobre os impactos da atividade humana nos mares. Na Bahia, por exemplo, um navio-laboratório francês estudou a poluição na Baía de Todos-os-Santos.
O que acontecerá com os barris?
As expedições de 2025 e 2026 forneceram imagens, mapas e amostras que ajudarão os cientistas a avaliar os efeitos do descarte nuclear no Atlântico.
Agora, os pesquisadores pretendem comparar regiões próximas aos recipientes com áreas que não receberam esse tipo de resíduo. Dessa forma, poderão identificar diferenças na composição dos sedimentos e nas comunidades de organismos marinhos.
A principal dúvida é quanto material radioativo já escapou dos barris e quais consequências essa exposição poderá provocar nas próximas décadas.
Embora os resultados ainda não indiquem uma catástrofe ambiental generalizada, o estado de conservação dos recipientes mostra que o problema exige acompanhamento.
Enquanto os laboratórios analisam as amostras, mais de 200 mil barris continuam nas profundezas do Atlântico. Parte deles já apresenta danos visíveis, enquanto animais ocupam suas superfícies e permanecem expostos a riscos que a ciência ainda tenta compreender.








