A página Ongmaosqueacolhem.com saiu do ar na tarde desta sexta-feira (27/3) após uma reportagem da Gazeta publicada pela manhã que revelou que o portal abriu uma vaquinha falsa para arrecadar dinheiro a uma criança com câncer.
Nesta semana, os pais de Samuel, de 6 anos, que enfrenta um câncer agressivo e se tornou popular por ganhar uma camisa do jogador Memphis Depay em uma visita do atleta ao Graacc recentemente, abriu um boletim de ocorrência contra a página.
O perfil já acumulou R$ 21,7 mil até esta sexta-feira (27/3), numa meta declarada de R$ 40 mil. Existe um outro perfil na internet chamado “Mãos que Acolhem”, mas não se trata do mesmo que abriu a vaquinha falsa e é conhecido pelo trabalho com pessoas em situação de rua em Belo Horizonte.
Nesta sexta, a reportagem da Gazeta simulou uma doação pelo perfil. A única opção disponível era por Pix.
Número do Paraná
O telefone disponível que se passa pelo do casal Maria do Socorro e Airton, pais de Samuel, é da cidade de Atalaia, no interior do Paraná. Só que eles moram em Salto de Pirapora, no interior de São Paulo. A reportagem tentou entrar em contato várias vezes com o número apresentado, mas o número sequer chamou.
Revoltados com a situação, Maria do Socorro e Airton abriram o boletim de ocorrência na delegacia de Salto de Pirapora. O documento indica que o crime cometido foi o de estelionato, com o crime de reclusão de até 8 anos.
À Gazeta, Airton disse que a situação é muito triste. “Esse tipo de atitude tira a credibilidade de casos sérios, como os nossos e de outras pessoas. É triste demais que haja quem engane os outros dessa maneira”, lamentou.
O casal também descobriu que a mesma plataforma estava pedindo doações para o Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba. “Graças a Deus derrubaram a página”, celebrou Maria do Socorro.
Samuel ganhou uma camisa de Memphis Depay/DivulgaçãoEntenda a doença de Samuel
O casal e os três filhos, incluindo Samuel, estiveram na redação da Gazeta na última semana e contaram a situação pela qual passa a criança. A doença foi descoberta em 2023, quando moravam no interior do Piauí, e o diagnóstico foi dos piores.
“Nos preparamos para comemorar o último aniversário do meu filho antes dele morrer”, disse Maria do Socorro Sousa Feitosa sobre o aniversário de Samuel de 4 anos, em janeiro de 2024.
O garoto tem um cordoma de clivus raro e agressivo – ou seja, um câncer na base do crânio. Só que o menino hoje já está com 6 anos e segue o tratamento sem perder o sorriso e a inocência da infância.
Em 2024 a família se mudou de Piracuruca, no Piauí, para Salto do Pirapora, no interior de São Paulo, a 120 quilômetros da capital paulista, e começou o tratamento totalmente gratuito no Hospital do Graacc, referência em câncer infantojuvenil. Foi quando a esperança voltou para o casal Maria e Airton.
A família também abriu uma vaquinha online para manter o tratamento, já que vive exclusivamente para os cuidados com o garoto e com os outros dois filhos – um deles com autismo grau 2. A única fonte é a pensão do INSS paga por causa do filho com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Nesta semana a vaquinha de verdade foi fechada: R$ 55 mil. Mas a família segue com rifas pelas redes sociais, inclusive de uma camisa dada pelo astro corintiano Memphis Depay numa visita recente ao Graac.
“Sou torcedor do Barcelona e do Corinthians”, disse ele, na redação da Gazeta. “Quando eu crescer quero ser jogador de futebol ou policial”, completou Samuel.
Dores na cabeça
Segundo Maria e Airton, Samuel parecia ser um garoto completamente saudável quando começou a apresentar fortes dores no pescoço aos 3 anos na cidade do interior piauiense. Começou, então, uma peregrinação hospitalar, com uma série de diagnósticos equivocados.
Sem tempo para perder, o casal começou a ir a clínicas particulares, mesmo com dificuldade para pagar as contas, até que uma ressonância revelou a gravidade da situação: uma neoplasia maligna embrionária. Segundo os pais, o cenário inicial era desolador.
“A neurocirurgiã disse que não tinha como mexer no problema do Samuel, que só haveria tratamento paliativo. Ela também disse que era impossível tratar do caso em outro lugar com sucesso”, lembrou. Foi então que, de forma despedaça por dentro, o casal comemorou o aniversário do garoto em 2024 como se fosse o último.
Samuel, de 6 anos, enfrenta um tratamento longo contra o câncer/Yuri Villaça/Gazeta de S.PauloMas a energia mundo quando a família conseguiu o contato de uma médica do Graacc, que analisou o caso e sugeriu que fossem se tratar em São Paulo. Logo estavam no interior paulista, terra de Airton.
“Os médicos do Graacc analisaram o caso e disseram que estava tudo certo, para a gente ficar tranquilos, que iam fazer as cirurgias e o tratamento necessário. Ouvir aquilo daquela forma nos deu um alívio que a gente não tinha sentido até então”, explicou Maria.
Só que o tratamento não foi fácil. Samuel passou por 37 sessões de radioterapia e cinco cirurgias até então – duas delas intracraniana após uma metástase que causou o rompimento de coágulos. Hoje, ele leva uma cicatriz na parte de cima na cabeça. Na entrevista à Gazeta, ele mostrou, com as mãos, como pretende deixar o cabelo quando os fios voltarem a crescer.
Devido ao comprometimento dos músculos pelo câncer, também foi necessário realizar um procedimento para colocar uma placa de aço para firmar o pescoço e a coluna de Samuel.
Momento mais tenso
Apesar de uma breve melhora que permitiu a Samuel tentar retomar uma rotina escolar, em janeiro de 2025 o câncer retornou de forma agressiva, com metástases no cérebro e pontos no pulmão. O menino enfrentou um sangramento cerebral e passou 60 dias na UTI, chegando a contrair Covid-19 durante o período.
Atualmente, Samuel realiza quimioterapia sob um protocolo internacional, enfrentando um edema cerebral que é monitorado de perto. Mesmo com os desafios motores — ele perdeu temporariamente os movimentos do lado esquerdo —, a esperança de remissão permanece viva. “O Samuel é a prova viva do poder de Deus”, afirmou Airton. A família é adventista.
Eles também agradeceram por todas as contribuições que receberam, inclusive de celebridades. Somente o cantor Gabriel Vittor doou R$ 15 mil. Outros artistas que apoiaram Samuel foram Daniel, Luan Santana, Edson e Hudson, entre outros.
Alegria intacta
Apesar de toda a carga clínica, Samuel mantém a alegria costumeira de uma criança de sua idade. “Ele é carismático e amoroso demais”, se desmanchou a mãe ao falar sobre a criança. O pequeno também mostrou uma alegria sem fim por ter conhecido Memphis, que ligou para Neymar após descobrir que o garoto também era fã do craque santista.
“Eu conversei com o Neymar”, falou o garoto, com um sorrisão. Agora, espera se recuperar totalmente para, quem sabe, se tornar jogador de futebol. Um menino feliz, apesar dos pesares, ele já consegue ser.
Entenda a doença
O cordoma é um tumor ósseo raro que se forma na coluna vertebral ou na base do crânio. Todos os subtipos de cordoma são considerados cancerígenos (malignos).
Segundo a Clínica Cleveland, a remoção cirúrgica do tumor é o tratamento de primeira linha, mas pode ser difícil remover completamente os cordomas devido à sua localização próxima à medula espinhal ou ao tronco encefálico.
O cordoma pode ocorrer em qualquer idade, mas a maioria dos casos é diagnosticado entre os 40 e 60 anos.






