Entrevista por Vanessa Dias com colaboração de Poliana Presses
Referência nacional em ciência, tecnologia e inovação, o Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos, no Vale do Paraíba, se consolidou como um dos principais polos de desenvolvimento tecnológico do País.
Instalado em uma região historicamente ligada aos setores aeroespacial, industrial e de pesquisa, o PIT conecta empresas, startups, universidades, centros de pesquisa e poder público em um ecossistema voltado à geração de negócios, inovação e desenvolvimento regional.
Ao longo dos últimos anos, o Parque ampliou sua atuação para além da tecnologia, tornando-se também um importante articulador de projetos ligados a cidades inteligentes, sustentabilidade, saúde, mobilidade, indústria 4.0 e internacionalização de empresas.
Com centenas de organizações integradas ao ecossistema, além de incubadoras, laboratórios, programas de aceleração e eventos de alcance nacional e internacional, o PIT vem fortalecendo oVale do Paraíba como um dos territórios mais estratégicos do Brasil quando o assunto é inovação.
Em entrevista à Gazeta, Jeferson Cheriegate, Presidente do Parque de Inovação Tecnológica falou sobre obre os impactos econômicos e sociais do PIT, os setores em crescimento, a atração de investimentos e o papel do local na construção do futuro tecnológico da região.
O Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos é considerado um dos maiores polos de inovação do país. Qual é hoje o impacto econômico e tecnológico disso para a cidade e região do Vale do Paraíba?
O PIT – Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos tem hoje um papel que vai muito além de abrigar empresas. Ele funciona como uma plataforma de desenvolvimento econômico, tecnológico e social para São José dos Campos e para todo o Vale do Paraíba.
A nossa missão é aproximar empresas, universidades, centros de pesquisa, poder público e investidores para transformar conhecimento em soluções reais, negócios sustentáveis e empregos qualificados.
O Parque reúne startups, grandes empresas, universidades e centros de pesquisa. Como essa integração ajuda a transformar conhecimento em geração de empregos e desenvolvimento regional?
A integração entre startups, grandes empresas, universidades e centros de pesquisa é o coração do Parque. Nenhum desses atores, sozinho, consegue responder à velocidade das transformações tecnológicas atuais.
A universidade produz conhecimento, os centros de pesquisa desenvolvem tecnologia, as empresas enxergam demandas de mercado, as startups trazem agilidade e o poder público ajuda a criar condições para que esse ambiente floresça.
O papel do PIT é fazer essas pontes acontecerem com método, continuidade e propósito.
Quando uma empresa apresenta um desafio tecnológico, buscamos aproximá-la de pesquisadores, startups, laboratórios, investidores e parceiros capazes de construir uma solução. Esse processo gera novos projetos, novos produtos, novas empresas e novas oportunidades de trabalho.
Em 2025, os laboratórios multiusuários da APTSJC reforçaram essa ponte entre pesquisa aplicada e mercado. Foram 56 projetos prospectados, com 22 projetos executados pelas empresas do ecossistema.
Além dos laboratórios próprios, o ecossistema passou a contar com uma rede integrada de 57 laboratórios de instituições parceiras, ampliando o acesso das empresas a serviços técnicos especializados.
Outro ponto essencial é a qualificação profissional. O Parque estimula capacitações, trilhas formativas para o ecossistema, eventos técnicos e programas de aceleração, são exemplos disso.
Desenvolvimento regional acontece quando o conhecimento deixa de ficar restrito ao laboratório ou à sala de aula e passa a resolver problemas concretos da indústria, da cidade, do campo e da vida das pessoas.
O PIT tem sediado feiras, congressos e eventos voltados à inovação, logística, cidades inteligentes e indústria 4.0. Qual é a importância desses eventos para atrair investimentos e projetar o Vale do Paraíba nacionalmente?
Os eventos são uma das formas mais eficientes de tornar visível aquilo que o Vale do Paraíba tem de melhor. Quando o PIT sedia feiras, congressos, rodadas de negócios, encontros técnicos e missões empresariais, ele coloca a região no mapa das grandes discussões sobre inovação, tecnologia, indústria, cidades inteligentes, sustentabilidade e competitividade.
Em 2025, realizamos 688 eventos e reuniões, internos e externos, consolidando o PIT também como um centro de convenções voltado a negócios e inovação.
A Innovation Week, por exemplo, reuniu mais de 6 mil visitantes em três dias, 112 palestrantes, 57 empresas expositoras, 410 reuniões B2G e B2B e uma expectativa de R$ 35,1 milhões em negócios.
Já o Science & Business Connection reuniu mais de 2.100 participantes, com empresas, instituições de ensino, pesquisadores e órgãos públicos.
Esses encontros cumprem três funções importantes. A primeira é aproximar pessoas e instituições. Muitas parcerias começam em uma conversa de corredor, em uma apresentação de startup ou em uma rodada de negócios. Às vezes, uma boa ideia só precisava de um café e da pessoa certa do outro lado da mesa.
A segunda função é atrair investimentos e oportunidades. A terceira é gerar pertencimento. Os eventos mostram para empreendedores, jovens talentos e para a população que a inovação não é algo distante. Ela está acontecendo aqui, em São José dos Campos, conectada ao Brasil e ao mundo.
Hoje o Parque conta com centenas de empresas, instituições e startups ligadas ao ecossistema de inovação. Quais áreas têm apresentado maior crescimento dentro do PIT?
O crescimento do PIT acompanha duas forças simultâneas: as vocações históricas de São José dos Campos e as novas demandas globais de inovação. Por isso, algumas áreas se destacam de forma muito clara.
A primeira é o setor aeroespacial e de defesa, que faz parte do DNA da cidade. Em 2025, o Cluster Aeroespacial & Defesa Brasileiro intensificou a presença em feiras nacionais e internacionais, como LAAD, FAMEX, Paris Air Show e Dubai Airshow, além de realizar conexões com mais de 10 países e promover mais de 120 horas de capacitação.
A segunda área é tecnologia da informação e comunicação. O TIC Vale (Arranjo Produtivo Local de Tecnologia da Informação e Comunicação) encerrou 2025 com 137 empresas associadas, conectando soluções em indústria 4.0, varejo, cidades inteligentes, dados, inteligência artificial e transformação digital.
Esse setor cresce porque praticamente todas as atividades econômicas estão sendo impactadas por tecnologia.
Também observamos avanço relevante em agro, sustentabilidade e ESG.
O Agropolo Vale chegou a 90 empresas associadas, com crescimento de 21,6% em relação a 2024.
Outra frente promissora é saúde e biotecnologia: o cluster do setor foi reconhecido como Cadeia Produtiva Local em Desenvolvimento, já com 12 empresas associadas e mais de 100 reuniões de negócios realizadas e no final de 2025 demos início à formação da cadeia de mobilidade urbana, eixo das cidades inteligentes.
O mais importante é que essas áreas não crescem isoladamente.
O futuro está nas interseções: aeroespacial com dados, agro com satélites, saúde com inteligência artificial, cidades inteligentes com sensores e mobilidade. É nesses cruzamentos que a inovação costuma acontecer.
O Vale do Paraíba já tem tradição nos setores aeroespacial, tecnológico e industrial. Como o Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos contribui para manter a região competitiva diante das novas demandas globais de inovação?
A competitividade de uma região não se sustenta apenas pela tradição. A tradição é uma vantagem importante, mas precisa ser renovada continuamente.
O Vale do Paraíba tem uma base industrial, tecnológica e científica muito forte; o papel do PIT é ajudar essa base a dialogar com as novas fronteiras globais de inovação.
Isso acontece em três direções. A primeira é fortalecer vocações já consolidadas, como aeroespacial, defesa, tecnologia da informação e indústria avançada.
Fazemos isso por meio dos clusters, da aproximação com centros de pesquisa, da participação em feiras e missões, da conexão com empresas âncoras e da construção de agendas estratégicas para cada setor.
A segunda direção é abrir espaço para novas fronteiras. Sustentabilidade, economia verde, biotecnologia, saúde digital, inteligência artificial, cidades inteligentes, mobilidade e transformação digital da indústria são temas que já impactam cadeias produtivas no mundo inteiro. O PIT atua como radar e articulador dessas tendências.
A terceira direção é internacionalizar o ecossistema. Em 2025, 120 empresas participaram de ações de internacionalização, foram realizadas 120 reuniões B2B e ativadas ou formalizadas mais de 10 parcerias internacionais.
Também fortalecemos agendas como soft landing, missões técnicas e presença em eventos globais.
O mundo está mudando rápido, e não há botão de “pausar” nessa história. Então, em vez de correr atrás das mudanças, queremos que o Vale do Paraíba ajude a liderá-las.
O PIT também oferece estrutura física, incubadoras, centros tecnológicos e programas de aceleração. Quais serviços mais atraem empresas e startups atualmente?
As empresas e startups buscam o PIT por uma combinação de fatores. A estrutura física é importante, naturalmente, mas o que mais atrai é o acesso ao ecossistema. Estar no PIT significa estar perto de empresas, universidades, centros de pesquisa, investidores, programas de fomento, talentos e oportunidades de negócios.
Entre os serviços mais procurados, o programa Nexus tem papel central. Em 2025, sua comunidade reuniu 192 startups e empresas em jornada ativa, além de 23 organizações de suporte estratégico e 87 mentores ativos no Nexus Circle.
Os batches #25 e #26 somaram 232 startups inscritas, com 61 aprovadas, demonstrando a atratividade e também o cuidado na seleção de negócios com maior potencial.
Outro serviço muito valorizado é o acesso a laboratórios, programas de inovação aberta, rodadas de negócios, capacitações, apoio a editais e conexões com investidores e empresas âncoras.
O Escritório de Negócios também aproxima empreendedores de oportunidades concretas, ajudando a transformar relacionamento em parceria e parceria em resultado.
Em resumo, o PIT atrai porque reduz a solidão do empreendedor inovador. Quem desenvolve tecnologia enfrenta riscos complexos. No Parque, encontra uma rede preparada para transformar boa tecnologia em bom negócio.
O Parque tem fortalecido conexões com outras cidades e ecossistemas de inovação do Brasil. Existe hoje uma estratégia para consolidar o Vale do Paraíba como referência nacional em tecnologia e cidades inteligentes?
Sim, existe uma estratégia clara, e ela parte de uma visão: o Vale do Paraíba tem condições de se consolidar como uma das regiões mais inovadoras do país, não apenas pelo que já construiu, mas pelo que ainda pode articular.
O PIT atua para ser um hub de ciência, tecnologia e inovação, conectando empresas, academia, governo e sociedade em torno de agendas de futuro.
Essa estratégia passa pelo fortalecimento das vocações regionais e pela capacidade de transformar São José em uma referência que dialoga com outros territórios.
Em 2025, a frente SmartGov ampliou projetos com municípios e estados, atuando em cidades como São José dos Campos, São Paulo, Campo Mourão, Congonhas, Itararé, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Santana de Parnaíba, Santos e também no Estado de Goiás com ações de cidades inteligentes.
No tema de cidades inteligentes, São José dos Campos manteve certificações internacionais ISO 37120, 37122 e 37123 em nível Platina e alcançou a ISO 37125, voltada a ESG, também em nível Platina. Isso reforça uma gestão orientada por dados e padrões internacionais.
Também avançamos com o Sandbox SJC, que permite testar soluções inovadoras em ambiente real, e com o Conecta 5G, acompanhando aplicações em 12 municípios. Referência não se proclama; referência se entrega. E o Vale tem todas as condições de entregar muito.
Para além da economia, qual é o legado social do Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos? Como a população sente, na prática, os reflexos desse ambiente de inovação no dia a dia da cidade e da região?
O legado social do PIT aparece quando a inovação deixa de ser um conceito abstrato e passa a melhorar a vida das pessoas. É claro que o impacto econômico importa: empresas mais fortes, empregos qualificados, salários, impostos e atração de investimentos. Mas o verdadeiro sentido da inovação é gerar desenvolvimento com benefício coletivo.
A população sente esse impacto de várias formas. Primeiro, pela geração de oportunidades.
Quando o ecossistema cresce, surgem empregos mais qualificados, novas possibilidades para jovens profissionais, estímulos ao empreendedorismo e maior aproximação entre formação educacional e mercado de trabalho.
Isso ajuda a reter talentos na região e cria perspectivas para quem quer construir carreira em ciência, tecnologia e inovação sem precisar sair do Vale.
Segundo, pelo fortalecimento de soluções que impactam serviços, cidades e qualidade de vida. Projetos em mobilidade, sustentabilidade, saúde, educação, segurança, conectividade, gestão pública e preservação ambiental podem nascer ou amadurecer nesse ambiente.
Terceiro, pelo papel inspirador. Em 2025, o Open PIT realizou mais de 150 visitas, recebendo estudantes, empresários, instituições públicas, moradores e delegações nacionais e internacionais. Cada visita aproxima a sociedade da inovação e mostra que tecnologia não é uma palavra distante.
Um parque tecnológico também comunica uma mensagem: conhecimento vale a pena, estudar vale a pena, empreender vale a pena, colaborar vale a pena. A inovação não pode ser uma ilha. Ela precisa ser ponte.
