O sistema Cantareira atingiu 19,71% da sua capacidade neste sábado (10/01), o menor nível registrado desde a crise hídrica de 2015, quando o reservatório registrou um volume negativo de 9,70%, segundo dados da Sabesp.
Responsável pelo abastecimento de cerca de 9 milhões de pessoas na Grande São Paulo, o nível é alarmante e deve continuar prejudicial nos próximos meses. Especialista aponta algumas medidas a longo prazo para mitigar efeitos futuros.
Como funciona
Antônio Giansanti, professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) explica que o sistema depende principalmente da quantidade de chuvas antes do verão, o que não ocorreu em 2015.
“Passados 10 anos, esperavam-se tempos mais úmidos, o que não aconteceu. Ao contrário, o sistema Cantareira evidenciou um nível de água decrescente nos últimos três anos”, houve uma mudança hidrológica e algumas ações precisaram ser tomadas para aumentar a segurança hídrica.
No dia 28 de novembro, a Agência Nacional de Águas (ANA) informou que em dezembro o sistema Cantareira operaria na chamada “faixa de restrição” e teria a pressão alterada.
Nela, a Sabesp podia tirar até 23 metros cúbicos por segundo do Cantareira, além de captar mais 7,6 metros cúbicos da represa Jaguari, em Igaratá, que pertence à bacia do Rio Paraíba do Sul e está interligada com o sistema Cantareira.
Atualmente, a região está operando na faixa 5, ou seja, com volume em estado crítico. Por isso, a Sabesp vai poder retirar até 15,5 m³ de água conforme determinação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e SP Água. Veja as cinco faixas definidas:
- Faixa 1 (normal): volume igual ou maior que 60%;
- Faixa 2 (atenção): volume igual ou maior que 40% e menor que 60%;
- Faixa 3 (alerta): volume igual ou maior que 30% e menor que 40%;
- Faixa 4 (restrição): volume igual ou maior que 20% e menor que 30%;
- Faixa 5 (especial): volume acumulado inferior a 20%, situação atual.
Vazão natural (quantidade de água que entra no reservatório) segue abaixo do normal para esta época do ano/Rovena Rosa/ Agência BrasilPossíveis medidas
Giansanti defende algumas medidas para mitigar a baixa quantidade de chuvas. Para ele, a redução da pressão é necessária, mas não deve ser a única medida no combate a períodos de seca.
“Outras medidas precisam ser tomadas, como a setorização da rede de distribuição para controlar as pressões e a troca de ramais domiciliares [ligação entre a base e o imóvel] antigos com maiores vazamentos. Quando totalizados, geram um impacto significativo”, explica o especialista.
Toda e qualquer ação deve ter como origem o planejamento e estudos de longo prazo. Giansanti cita um exemplo na Califórnia. O projeto Groundwater Replenishment System (GWRS), no sul de Los Angeles, região semiárida, utiliza reúso da água depois de anos de estudos técnicos e ensaios tecnológicos.
Diferente do Brasil, que também utiliza água de reúso, o GWRS permite uma participação organizada da população que acompanha inclusive os resultados. Na prática, ocorre divulgação de dados, visitas, eventos e comunicação constate com os habitantes da cidade.
Voltando para São Paulo, outras medidas podem ser tomadas com planejamento.“Proteção aos mananciais com recomposição da vegetação, investimentos permanentes em redução de perdas e estudo de aplicação de técnicas como reúso de águas, entre outras medidas que estão ao nosso alcance”, explica o especialista.
Além disso, as chuvas de verão em São Paulo são um pequeno respiro para o reservatório encher novamente. Porém, o relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do governo federal mostra que até março o Cantareira vai continuar em estado de alerta.
No caso de chuvas médias, o volume útil estimado nos reservatórios para o fim de março é de 39%. Ou seja, entra na faixa 3 (alerta). As projeções indicam que a situação só vai melhora durante o período de estiagem que deve seguir de abril até setembro.
