Em cartaz no Teatro do SESI-SP, na avenida Paulista, de quinta a domingo, com ingressos gratuitos, o musical “Minha Estrela Dalva” transforma a admiração de uma vida inteira em trama de espetáculo.
Às vésperas de completar 89 anos, Renato Borghi, um dos nomes mais relevantes da cena teatral brasileira, sobe ao palco para revisitar sua relação afetiva, artística e quase mítica com a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972), em uma montagem que mistura memória, delírio, música e confissão.
“Tudo começou com um Renato ainda menino. Aos seis anos de idade, ganhei de minha mãe um disco da trilha sonora de ‘A Branca de Neve’, no qual a voz da princesa era interpretada por Dalva de Oliveira. Ali, na vitrola da infância, nasceria uma paixão avassaladora e que atravessaria décadas, palcos e revoluções, culminando no encontro real e improvável entre fã e diva poucos anos antes dela nos deixar”, diz Renato Borghi.
É desse amor antigo e definitivo que nasceu “Minha Estrela Dalva”, espetáculo escrito por Borghi como uma espécie de reencontro com a artista que marcou sua trajetória pessoal e teatral. Em cena, o ator revive não apenas a figura pública da cantora, mas a mulher por trás do mito: contraditória, intensa e indomável.
Musa da era de ouro do rádio brasileiro
A montagem reúne nomes de diferentes gerações em um jogo cênico que atravessa tempos e memórias. Soraya Ravenle, que iniciou sua trajetória nos musicais no coro de “A Estrela Dalva”, grande sucesso de Borghi com Marília Pêra encenado em 1987, retorna agora ao universo da cantora para ocupar o centro da narrativa.
Com direção musical de William Guedes, ela encarna uma Dalva visceral, atravessada por amores, escândalos, dores e canções que marcaram a era de ouro do rádio brasileiro.
“Dalva é a quarta mulher que transforma a minha vida. Não volto a ela apenas como intérprete, volto como alguém atravessada por sua coragem. Em cena, eu não a interpreto, eu a convoco, canto a mulher que desafiou seu tempo com o peito aberto e transformou dor em beleza. E estar ao lado de Renato Borghi é viver um encontro de amor e memória, ele escreve para sua musa e eu tenho a honra de dar corpo e voz a essa história diante do público”, comenta Ravenle.
Ao lado dela, Elcio Nogueira Seixas divide a direção do espetáculo com Elias Andreato e também assume em cena o papel do Renato jovem, um ator em ebulição entre o teatro de vanguarda e o fascínio pela cantora apelidada de “Rainha da Voz”. Borghi também é interpretado por ele mesmo na peça.
“Desde o início dos anos 90, divido e multiplico a cena do mundo com Renato. Fui seu aluno e tornei-me seu parceiro na arte. Dalva entrou em mim como entrou nele, pela voz, pelo espanto, pelo chamamento. Só que o meu bolachão de 78 rotações foi o próprio Borghi. Hoje dirijo Minha Estrela Dalva ao lado de meu amado amigo e mestre Elias Andreato, que foi quem me aproximou do Renato. E no palco, sou ele jovem, o menino de sete anos que ouviu aquela voz pela primeira vez e nunca mais foi o mesmo. Neste espetáculo, sigo a receita antropófaga de Oswald de Andrade e faço a devoração de Renato e Dalva”, diz Elcio Nogueira Seixas.
Completando o elenco principal, Ivan Vellame dá voz aos homens que atravessaram a vida de Dalva, especialmente o compositor Herivelto Martins, trazendo para o palco os conflitos amorosos e públicos que ajudaram a construir, e também ferir, a imagem da cantora diante do País.
“A Dalva que Renato nos traz é uma convocação para adentrarmos a vida de uma mulher que viveu de alma nua, vocacionada para o Amor e para a Arte. Eu entro representando uns cabras que estranhavam o Amor. Construindo com a direção chegamos à uma encenação não documental, onírica e mítica, mas que não perde o valor de reflexão de que esses homens, os estranhos ao Amor mas que amavam muito – Bruno, Herivelto e Kiko, viam o feminino como sinônimo de desqualificação do masculino. Eu espero que, principalmente os homens, saiam do teatro mais amorosos, menos machões. Se eu for vaiado em cena, por perceberem que homens assim já não tão com nada há muito tempo, vai ser lindo. Eu espero que: Homens, honremos a feminilidade que nos é intrínseca”, enfatiza Vellame.
Machismo: violência simbólica
Mais do que reconstruir a trajetória de Dalva de Oliveira, o espetáculo propõe um mergulho na violência simbólica enfrentada pela cantora ao longo da vida. Em cena, o texto de Borghi evidencia como a artista foi julgada, exposta e atacada publicamente por desafiar os padrões impostos às mulheres de sua época, um eco que dialoga diretamente com o presente.
A resposta de Dalva para as situações sofridas por ela, que atravessa a montagem como manifesto, porém, permanece a mesma: “Eu não tenho dono.”
Na época, chamaram-na de messalina (prostituta), de indigna de ser mãe, de cafona, de acabada. Nos jornais dos anos 1950, Dalva foi submetida ao mesmo linchamento público que as redes sociais aplicam hoje a qualquer mulher que ousa viver fora do roteiro. A tecnologia mudou. A lógica, não.
Mas Dalva transformou cada golpe em canção. Quando o ex-marido a difamou, ela gravou “Errei sim” e devolveu: “Que venha logo a primeira pedra me atirar.” Quando quiseram enterrá-la, cantou “Bandeira Branca” no Maracanã e o público se ajoelhou. “Se meu coração está machucado, deixo sangrar, eu canto melhor assim, de peito aberto.”
Teatro épico e político
Na encenação assinada por Andreato e Seixas, memória pessoal, teatro político e música popular brasileira se encontram em uma narrativa que mistura realidade e fabulação.
O glamour das rádios dos anos 1950 convive com referências ao teatro épico de Bertolt Brecht e Kurt Weill, em uma atmosfera construída pelo cenário de Márcia Moon, iluminação de Wagner Pinto e figurinos de Fábio Namatame.
“Em Minha Estrela Dalva, Renato Borghi escreve uma declaração de amor à sua musa eterna, Dalva de Oliveira. Ao lado de Elcio Nogueira Seixas, construímos um espetáculo que é memória, música e exposição profunda. Soraya Ravenle não interpreta Dalva, ela a faz pulsar, e ver Renato se confrontar com sua própria história em cena é testemunhar um dos gestos mais íntimos e corajosos do teatro”, destaca Elias Andreato.
Serviço – “Minha Estrela Dalva”
Quando? Até 12/7; de quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h
Onde? Centro Cultural Fiesp | Teatro do SESI-SP – Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp)
9h
Classificação etária: 14 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos gratuitos; reservas através do site oficial do SESI-SP







