Conheça a história do jogo de futebol que causou uma guerra real com 6 mil mortos

Entenda como uma disputa por vaga na Copa do Mundo serviu de pretexto para um conflito de mais de quatro dias

Na época, El Salvador e Honduras disputavam uma vaga para a Copa do Mundo de 1970, no México

Na época, El Salvador e Honduras disputavam uma vaga para a Copa do Mundo de 1970, no México | Reprodução

O futebol é frequentemente descrito como uma arte capaz de promover a paz e a confraternização entre diferentes povos. Entretanto, esse conceito nem sempre é uma unanimidade. Em julho de 1969, El Salvador e Honduras protagonizaram a “Guerra do Futebol”, um conflito de um pouco mais de quatro dias e que deixou milhares de mortos.

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Se hoje a modalidade enfrenta momentos de incerteza com o choque entre o Irã e a aliança entre Estados Unidos e Israel, especialmente pelo risco oferecido à Copa do Mundo, há 45 anos o futebol teve o efeito contrário ao atuar como um dos causadores de uma guerra.  

Todo esse cenário contribuiu para o conflito ser eternizado como a “Guerra do Futebol”. Entretanto, outros fatores também foram cruciais para a crise entre os dois países se agravar e terminar em um “banho de sangue”.

Entenda a tensão entre os países

Na época, El Salvador e Honduras disputavam uma vaga para a Copa do Mundo de 1970, no México. O cenário entre os países era de extrema tensão, principalmente por causa do desequilíbrio migratório.

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Cerca de 300 mil salvadorenhos residiam em Honduras em 1969. A maioria das pessoas cruzava a fronteira em busca de terras e oportunidades de trabalho. O número representava cerca de 20% da população de Honduras.

A migração também aconteceu devido ao pouco espaço de terras de El Salvador (menor país da América Central) e à grande densidade demográfica do território americano na época. Já Honduras possuía um território maior e uma menor quantidade de pessoas.

Por causa disso, cidadãos salvadorenhos começaram a ser tratados pela população local como “invasores” que tomavam empregos e terras de hondurenhos, criando um xenofobismo institucionalizado pelo governo hondurenho.

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Além disso, a elite agrária salvadorenha considerava mais fácil incentivar a migração para Honduras, como forma de evitar uma reforma interna. A maior parte das terras estava concentrada nas mãos de uma oligarquia formada por 14 famílias de latifundiários.  

No entanto, quando salvadorenhos começaram a ser expulsos do país vizinho, o governo de El Salvador encarou a situação como um risco de explosão social (revolução) e passou a classificar os hondurenhos como “violadores” dos direitos humanos.

Seleção salvadorenha em Honduras

Com o clima de tensão instaurado, o confronto entre as seleções dos dois países pelas Eliminatórias se tornou um “catalisador” de toda a rivalidade recente entre os dois povos.

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No primeiro jogo em Tegucigalpa, capital de Honduras, torcedores locais cercaram o hotel onde o time salvadorenho estava hospedado. A multidão usou rojões, apitos, bombas e jogou pedras nas janelas para impedir que os jogadores dormissem.

Antes da bola rolar, o ônibus da seleção de El Salvador foi apedrejado. Dentro de campo, com um forte clima de linchamento, os donos da casa marcaram no último minuto e venceram o confronto por 1 a 0.

Revanchismo de El Salvador

A resposta de El Salvador foi ainda mais violenta e organizada pelo Estado. O clima de revanche foi aflorado depois que a jovem Amelia Bolaños, de 18 anos na época, cometeu suicídio depois da derrota.   A morte da garota causou comoção nacional, com cortejo oficial durante o funeral e a presença da própria seleção salvadorenha no evento.

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Ao chegar no país, os jogadores hondurenhos foram recebidos com insultos no aeroporto. No hotel, a multidão não só fez barulho, como jogou ovos podres e ratos mortos pelas janelas quebradas.

No estádio, a bandeira de Honduras foi queimada e substituída por um trapo sujo de lixo. A locomoção dos atletas precisou ser feita com carros blindados e tanques blindados. A partida terminou em 3 x 0 para El Salvador.

O jogo desempate

Diferente dos métodos de disputa mais recentes com placar agregado, o regulamento da época exigia um terceiro jogo em campo neutro (caso cada equipe vencesse uma partida).

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O confronto aconteceu na Cidade do México e contou com confrontos entre as duas torcidas nos arredores do Estádio Azteca. A polícia mexicana mobilizou milhares de agentes para evitar um massacre.

Dentro de campo, El Salvador venceu por 3 a 2 na prorrogação e avançou para a fase final da repescagem.

As 100 horas de combate

Enquanto os atletas salvadorenhos comemoravam, os dois países mobilizavam tropas para o combate.

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Em 14 de julho de 1969, aviões de El Salvador bombardearam alvos em Honduras. O conflito se tornou um marco da história militar por ser o último a contar com aviões da Segunda Guerra Mundial. Entre os modelos estavam os lendários P-51 Mustang e F4U Corsair.

O conflito deixou cerca de 6 mil mortos e dezenas de milhares feridos. A guerra só parou depois da intervenção da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Mesmo com o cessar-fogo rápido, a paz definitiva entre os países foi assinada apenas 11 anos depois, em 1980.

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O nome “Guerra do Futebol”

A denominação da guerra foi imortalizada pelo jornalista polonês Ryszard Kapuściński. Correspondente na região, ele percebeu que o esporte havia se tornado o único canal de comunicação entre os governos e as massas, servindo como um megafone para o ódio nacionalista que mascarava a desigualdade social.

Por outro lado, o futebol se tornou uma justificativa e uma propaganda para o início da guerra, principalmente por El Salvador. O Estado criou a narrativa de “Guerra de Legítima Defesa”, especialmente pelo recebimento da seleção salvadorenha em Honduras e o suicídio de Amelia Bolaños.

O esporte também foi usado como uma forma dos regimes da época unirem a população para uma causa e contra um “inimigo em comum”.