O peixe-leão é uma espécie invasora venenosa que avança pelo litoral brasileiro sem encontrar predadores naturais — e preocupa pesquisadores pelo risco ambiental e pela ameaça direta à saúde humana.
Um peixe belo, colorido e cheio de espinhos elegantes. À primeira vista, o peixe-leão parece apenas mais uma criatura exótica dos mares tropicais. Mas por trás da aparência sedutora, existe uma das ameaças ecológicas mais sérias enfrentadas pelo litoral brasileiro nos últimos anos.
A espécie se espalha por estados brasileiros sem encontrar barreiras naturais — e pode ser perigosa tanto para os ecossistemas marinhos quanto para quem entra no mar sem saber da sua presença.
Entenda o que torna esse animal tão preocupante e o que fazer caso você aviste ou seja ferido por um.
Quem é o peixe-leão e de onde ele veio
O nome científico da espécie é Pterois volitans. Ela é originária dos oceanos Índico e Pacífico e não pertence ao Atlântico — o que a torna, por definição, uma espécie invasora no litoral brasileiro.
Pesquisadores utilizam os animais capturados para entender como a espécie se adaptou tão rápido ao Atlântico Sul. Foto: PexelsNão se sabe exatamente como o peixe-leão chegou ao Brasil. Uma das hipóteses levantadas por pesquisadores é que correntes marinhas tenham transportado larvas vindas do Caribe, onde a espécie também é considerada invasora.
Segundo o doutor em biologia marinha Pedro Pereira, do projeto Conservação Recifal, uma das teorias estudadas aponta que a espécie chegou ao Caribe após um furacão destruir uma loja de aquários na Flórida, nos Estados Unidos. Outra possibilidade, segundo o biólogo, é que pessoas tenham soltado exemplares no mar intencionalmente.
Como o peixe-leão chegou ao Brasil
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as primeiras aparições da espécie no país foram em Arraial do Cabo, no litoral do Rio de Janeiro, em 2014 e 2015.
Em dezembro de 2020, o primeiro exemplar foi capturado em Fernando de Noronha. A partir daí, as ocorrências se tornaram cada vez mais frequentes no arquipélago e em outros estados brasileiros.
Em 2024, numa única operação submarina, mergulhadores capturaram 140 peixes-leão no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha — um número que mostra a velocidade com que a espécie se estabeleceu na região, conforme reportagem do g1 Pernambuco.
Ao avistar um peixe-leão, a recomendação é não tocar no animal e acionar imediatamente os órgãos ambientais. Foto: PexelsPor que essa espécie é tão perigosa para o meio ambiente
O grande problema do peixe-leão no Brasil é a ausência total de predadores naturais no litoral brasileiro. Sem controle biológico, ele se reproduz em ritmo acelerado.
A espécie consegue colocar até 30 mil ovos de uma só vez — e é predatória: pode consumir até 20 peixes em apenas 30 minutos.
Pesquisadores analisaram o conteúdo estomacal de exemplares capturados em Fernando de Noronha e constataram que o animal se alimenta de peixes endêmicos do arquipélago — ou seja, espécies que só existem naquela região. Isso representa uma ameaça direta à biodiversidade dos ecossistemas marinhos brasileiros.
Normalmente concentrado em águas mais profundas, o peixe-leão tem apresentado tendência de migrar para regiões rasas — aumentando o risco de encontros com banhistas e mergulhadores.
O maior exemplar de peixe-leão já registrado no mundo, com 49 centímetros, foi capturado em águas brasileiras. Foto: PexelsO risco para os seres humanos
O peixe-leão tem 18 espinhos dorsais que contêm toxinas. O contato com esses espinhos pode causar:
- Dor intensa no local do ferimento
- Vermelhidão e inchaço na região afetada
- Náuseas e febre
- Em casos mais graves: convulsões e paradas cardíacas
Em 2020, um pescador no Ceará pisou em um peixe-leão e precisou ser internado após apresentar dores, convulsões e paradas cardíacas, conforme reportagem do g1 Pernambuco.
A espécie pode ser encontrada em profundidades que variam de dois a 300 metros — o que amplia a zona de risco tanto para mergulhadores quanto para quem caminha em águas rasas.
Embora seja peçonhento, a carne do peixe-leão é comestível e o consumo é estudado como forma de controle. Foto: PexelsO maior peixe-leão do mundo foi capturado no Brasil
Mergulhadores treinados pelo ICMBio capturaram, em Fernando de Noronha, um exemplar de 49 centímetros — o que pode ser o maior peixe-leão já registrado em todo o mundo.
Os peixes capturados nas operações de manejo são medidos, pesados e enviados para análise científica em cinco instituições: Projeto Conservação Recifal, UFPE, UFF, UFRN e Ufal.
Esse trabalho colaborativo entre pesquisadores e instituições científicas brasileiras é fundamental para entender o comportamento da espécie e desenvolver estratégias eficazes de controle populacional.
O peixe-leão impressiona pela beleza, mas é uma das espécies invasoras mais perigosas do litoral brasileiro. Foto: PexelsComo o Brasil combate a espécie invasora
O ICMBio lidera as ações de controle da espécie no país. Entre as principais medidas adotadas estão:
- Treinamento de mergulhadores e pescadores para identificar e capturar a espécie com segurança
- Operações de captura regulares no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
- Envio dos animais capturados para análise em universidades federais de todo o Brasil
- Avaliação da possibilidade de liberar o consumo do peixe-leão como estratégia complementar de controle
Operadoras de mergulho interessadas em receber capacitação do ICMBio para captura do peixe-leão podem entrar em contato pelo telefone (81) 9115-6860.
O que fazer ao avistar ou ser ferido por um peixe-leão
Se você avistar um peixe-leão no mar, não tente capturá-lo sem treinamento. O ideal é registrar a ocorrência e contatar o Ibama pelo telefone 0800 61 8080, que funciona em todo o Brasil e recebe informações sobre avistamentos.
Se for atingido pelos espinhos, o procedimento recomendado é lavar a área imediatamente com água quente para reduzir a dor e, em seguida, buscar atendimento médico especializado o mais rapidamente possível.
Nunca tente retirar os espinhos sozinho nem esfregue a área ferida — isso pode agravar o envenenamento e aumentar a absorção da toxina pelo organismo.








