Filhos de sobreviventes de Chernobyl têm marcas de radiação no DNA, revela estudo

Pesquisa relaciona dose de radiação recebida em 1986 a alterações genéticas detectadas décadas depois

Estudo identifica mutações raras transmitidas aos filhos de pessoas expostas

Estudo identifica mutações raras transmitidas aos filhos de pessoas expostas | Alexander Blecher/Wikimedia Commons

Quase 40 anos após o acidente nuclear de 1986, a ciência ainda encontra respostas para perguntas que ficaram abertas. 

Uma delas dizia respeito às gerações seguintes. A radiação poderia deixar marcas hereditárias mesmo em quem nasceu muito tempo depois da explosão?

Um estudo publicado na revista Scientific Reports em junho de 2025 trouxe evidências consistentes de que isso aconteceu. 

A pesquisa indica que alterações provocadas pela exposição à radiação foram transmitidas aos filhos de pessoas que estiveram em áreas contaminadas, embora o risco direto de doenças seja considerado baixo.

Estudo inovador

Durante anos, os estudos buscaram mutações isoladas no DNA. Desta vez, os cientistas adotaram outra estratégia.

Eles analisaram agrupamentos raros de alterações chamados cDNMs, que aparecem quando o material genético sofre quebras e é reparado de maneira imperfeita.

Esses agrupamentos funcionam como uma espécie de impressão digital biológica da radiação. Segundo os autores da Universidade de Bonn, houve aumento significativo dessas mutações nos filhos de pais irradiados.

Além disso, os dados apontam uma relação entre a dose recebida pelos adultos e o número de alterações observadas na geração seguinte. 

Ou seja, quanto maior foi a exposição original, maior é a quantidade de marcas genéticas presentes no organismo dos descendentes.

Pessoas analisadas

O trabalho incluiu o sequenciamento completo do genoma de centenas de participantes.  Entre eles estavam 130 filhos de trabalhadores que atuaram na contenção do acidente e de moradores de Pripyat, cidade evacuada após a explosão.

Também participaram descendentes de operadores de radar militar alemão possivelmente expostos à radiação dispersa. Para garantir comparação confiável, foi formado um grupo de controle com filhos de pais sem histórico de exposição.

A diferença estatística permaneceu mesmo após ajustes metodológicos. Os grupos ligados ao acidente apresentaram maior concentração de mutações raras em comparação com o grupo de controle.

Impactos da radiação

A radiação ionizante liberada pelo reator danificou células humanas ao gerar moléculas altamente reativas. Essas moléculas podem romper cadeias de DNA, inclusive nas células responsáveis pela reprodução.

Quando esse tipo de alteração ocorre em células reprodutivas masculinas, parte do material genético modificado pode ser transmitida aos filhos. 

Décadas depois, esses vestígios ainda podem ser identificados por meio de técnicas modernas de sequenciamento.

Limitações do estudo

Embora o estudo apresente resultados inéditos, os próprios autores apontam limitações. 

A estimativa da dose de radiação recebida pelos adultos foi reconstruída com base em registros antigos, o que pode gerar imprecisões. Além disso, a participação voluntária pode ter influenciado o perfil da amostra analisada.

Ainda assim, os achados dialogam com décadas de pesquisas que investigam os efeitos da radiação de Chernobyl em humanos e animais. 

Diferentemente de Hiroshima e Nagasaki, onde as bombas americanas explodiram no ar e a radiação se dissipou mais rapidamente, em Chernobyl o material radioativo se espalhou pelo solo, com isótopos de longa duração.

Por isso, ainda há áreas inabitáveis para pessoas. Mesmo assim, lobos vivem na zona de exclusão e apresentam sinais de maior resistência à exposição prolongada.

Perguntas frequentes

1. A radiação de Chernobyl pode passar de pai para filho?

Sim. O estudo indica que alterações genéticas causadas pela exposição à radiação foram transmitidas aos filhos de pessoas que estiveram em áreas contaminadas.

2. Filhos de vítimas de Chernobyl correm risco maior de doença?

Os pesquisadores encontraram mais mutações raras nesses descendentes, mas afirmam que o risco direto de doenças é considerado baixo.

3. O que acontece no DNA após a exposição à radiação?

A radiação pode quebrar cadeias de DNA. Quando o reparo ocorre de forma imperfeita, surgem agrupamentos de mutações que podem ser herdados.

4. Por que Chernobyl ainda preocupa quase 40 anos depois?

Porque o material radioativo liberado se espalhou pelo solo e inclui isótopos de longa duração, que continuam presentes na região até hoje.

5. Ainda é perigoso viver perto de Chernobyl?

Existem áreas que permanecem inabitáveis para pessoas. A zona de exclusão continua sob controle, embora alguns animais vivam no local.