Antes do autotune, essa tecnologia nasceu para esconder vozes na guerra

Muito antes de virar marca registrada de hits pop, funk e hip hop, a tecnologia por trás das vozes sintetizadas foi criada para proteger comunicações estratégicas na Segunda Guerra Mundial

A voz processada por efeitos pode soar futurista, mas a base dessa transformação começou em pesquisas muito anteriores ao pop digital

A voz processada por efeitos pode soar futurista, mas a base dessa transformação começou em pesquisas muito anteriores ao pop digital | Reprodução/Youtube

Na indústria musical de hoje, é comum ver artistas utilizando efeitos sonoros em suas vozes, como vocoder e autotune, seja para manter a afinação, seja para dar um toque diferenciado às canções. Apesar de esse recurso estar ligado atualmente à música, ele teve uma origem pouco relacionada ao mundo artístico.

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Durante o ápice do maior conflito bélico que a humanidade já presenciou, a Segunda Guerra Mundial, cientistas inventaram uma ferramenta capaz de decodificar vozes para transmitir mensagens e instruções estratégicas.

Com o passar do tempo, essa tecnologia deixou de ter finalidade militar e foi se tornando cada vez mais portátil e acessível, o que permitiu seu uso por cantores e grupos musicais em várias partes do mundo.

Uma ferramenta de guerra e espionagem

A tecnologia que permite transformar vozes humanas em um som sintetizado e robotizado surgiu como uma ferramenta de espionagem. Ao longo da guerra, as forças aliadas enfrentavam diversos problemas com transmissões de rádio que continham informações importantes e eram interceptadas pelos exércitos do Eixo.

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Como forma de solucionar essa questão, pesquisadores americanos e ingleses desenvolveram um dispositivo que transformava as vozes das transmissões de rádio em sons quase irreconhecíveis: o SIGSALY.

Esse sistema convertia a fala humana em um código digital que soava como um ruído. Quando os aliados recebiam esse sinal, ele era submetido a um processo inverso que reconstruía a voz.

Por ser uma tecnologia cara e pesada, que chegava a ocupar cômodos inteiros, logo após o fim do conflito o SIGSALY passou a ser gradativamente abandonado. Entretanto, desde então, ferramentas semelhantes passaram a ser desenvolvidas para conciliar essa inovação com algo mais portátil e barato.

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O SIGSALY ocupava espaços enormes e ajudava a proteger comunicações por voz em plena guerra, décadas antes de efeitos vocais virarem recurso de estúdio (Foto: Wikimedia Commons)

Do campo de batalha para os estúdios

Foi nesse contexto que apareceu o vocoder, um sucessor espiritual do SIGSALY que cabia em uma mesa. Ele funcionava de forma diferente de seu antecessor: ao usar a voz, era possível controlar um som semelhante ao de um teclado ou sintetizador.

O decodificador de fala foi uma tecnologia mantida sob segredo por muito tempo, sendo revelada apenas na década de 1970. A partir de então, não demorou para que mentes criativas da música percebessem a utilidade do instrumento na composição.

A inovação foi difundida primeiro pelo grupo alemão de eletrônica Kraftwerk, que usou o recurso para criar vozes robotizadas e alinhar seu som a uma estética futurista. Posteriormente, ela chegou ao outro lado do mundo, nas Américas, onde entrou em contato com ritmos como pop, funk e hip hop.

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O maior expoente dessa tecnologia foi a dupla francesa Daft Punk, que combinava vozes sintetizadas com samples de outras músicas para criar hits que marcaram os anos 2000, como One More Time, Get Lucky e Instant Crush.

A influência para o autotune

Os princípios de funcionamento do SIGSALY e do vocoder não ficaram restritos à robotização de vozes. Foi com base neles que surgiu uma ferramenta amplamente usada por praticamente todos os artistas do presente: o autotune.

Ele surgiu em 1997 e foi adotado pela indústria em 1998 como forma de corrigir a afinação de vocalistas em tempo real. Apesar do intuito corretivo, esse efeito pode ser percebido ao escutar uma música que o utilize, por causa do aspecto sintetizado que ele dá à voz.

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Seu uso chega a ser um tópico controverso entre críticos musicais, já que parte deles considera que o recurso é usado como forma de compensar a falta de talento de alguns artistas. Entretanto, músicos como Pedro Sampaio, Anitta e Travis Scott abraçaram totalmente o autotune, usando-o de forma quase exagerada para dar mais identidade às suas produções.