Os primeiros humanos a explorar a lua em décadas, os astronautas da missão Artemis II estão vivendo uma verdadeira odisseia no espaço. Dentro da cápsula Orion, os quatro astronautas vivem uma rotina intrigante na missão que promete durar dez dias ao redor da órbita lunar, no maior voo com humanos já empreendido pela humanidade.
Com o lançamento ocorrido na última quarta-feira (1/4), a missão tem como objetivo testar tecnologias de suporte à vida e comunicação, essenciais para futuras novas missões de exploração espacial. Cada detalhe da vida a bordo ajuda a NASA a entender como será mandar gente ainda mais longe nos próximos anos, inclusive no ainda gestacional turismo espacial.
Até aqui, a tripulação já quebrou o recorde de distância humana em relação à Terra e entrou na fase mais delicada do voo, o sobrevoo lunar com um apagão planejado de comunicação.
Uma casa apertada
O lar dos argonautas espaciais é a cápsula Órion, uma instalação com modestos 9 m³. A NASA compara o seu tamanho com o interior de duas mini-vãs a serem divididas entre os quatro tripulantes. É ali que Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen vivem, trabalham, comem e descansam durante quase toda a viagem.
A nave também conta com um quinto tripulante, o carismático Rise, um boneco de pano cujo “vôo” vai indicar quando a nave entrar em ambiente de gravidade zero (Foto: NASA)Depois da decolagem, parte dos assentos foi recolhida para abrir área de circulação. Mesmo assim, o espaço continua curto. A missão não oferece conforto. Essa atmosfera reduzida limita muitas coisas que são comuns na Terra, como, por exemplo, a higiene.
Os “banhos” são feitos com água, sabão líquido e xampu sem enxágue. Cada astronauta leva um kit pessoal com itens básicos, como escova de dente, pasta, pente e material de barbear. Todos os resíduos dessa higienização são feitos para serem engolidos, absorvidos pelo próprio corpo ou retirados com tecidos leves.
Sono, comida e treino em microgravidade
A NASA reservou oito horas por dia para descanso, com sacos de dormir presos às paredes da cápsula. Na prática, eles passam a noite flutuando, mas contidos, para evitar choques com equipamentos e colegas.
A comida também foi planejada antes do lançamento, com um cardápio que reúne 189 itens e 10 bebidas, definidos com base no gosto pessoal dos tripulantes e suas necessidades nutricionais. A nave tem dispensador de água e aquecedor para reidratar e aquecer parte das refeições.
Ao contrário do que se poderia pensar de comidas sem graça e em pó, o cardápio inclui alimentos como cookies, tortilhas e até mesmo pratos mais elaborados, como brisket com barbecue e mac’n’cheese. Em outra frente da cobertura, a Gazeta detalhou o cardápio curioso preparado para a viagem ao redor da Lua, pensado para durar bem em microgravidade.
Outro fator importante é manter os exercícios físicos em dia. Cada astronauta tem uma carga de 30 minutos de prática diária realizada com um dispositivo portátil chamado volante de inércia que permite realizar diversos exercícios, como remadas, agachamentos e cardios.
O volante de inércia funciona como um ioiô, permitindo que os astronautas trabalhem exercícios utilizando a carga do próprio corpo aliada ao sistema de polias do dispositivo, em um limite de até180kg (Foto: NASA)O maior problema até agora
Existem uma miríade ampla de possíveis falhas que vêm à cabeça em uma espaçonave, como um buraco que sugue todo o oxigênio ou o motor deixar a tripulação à deriva. Na Artemis II. Nenhuma dessas circunstâncias foi a mais problemática; o maior defeito foi no banheiro.
O sistema de evacuação da nave separa urina e fezes; a primeira deveria ser destacada para fora da nave, enquanto a segunda seria armazenada para o retorno à Terra. Porém, o sistema apresentou defeito na linha de descarte dos dejetos, o que está obrigando os astronautas a usar pacotes para coleta do material, com muito cuidado para nada sair voando pela nave.
Apesar de não estar no topo da linha de pensamento do cotidiano, problemas com sistemas de evacuação são muito considerados na engenharia. Situações semelhantes já foram levantadas na série de comédia The Big Bang Theory (Foto: Divulgação / IMDb)Trabalho sem pausa, com a Lua na janela
Apesar de ser uma jornada incrível, a Artemis II não é turismo espacial. Os astronautas estão constantemente testando os controles manuais da nave, acompanhando sistemas automáticos e avaliando suporte de vida, propulsão, energia, controle térmico, navegação e a própria habitabilidade da cápsula.
No quarto dia de voo, Christina Koch e Jeremy Hansen assumiram o comando da Orion por 41 minutos para um teste de pilotagem manual no espaço profundo. O objetivo foi dar mais dados à equipe de engenharia sobre o comportamento da nave.
A NASA separou 30 alvos científicos para observação e fotografia, entre eles as bacias de Orientale e Hertzsprung, com cada astronauta recebendo um treinamento específico de reconhecimento facial de estruturas, como radares humanos. Como o espaço nas janelas é limitado, a tripulação se divide em duplas.
Enquanto dois observam a superfície lunar por 55 a 85 minutos, os outros dois treinam ou cumprem outras tarefas. Esse revezamento ajuda a aproveitar melhor a janela científica, que dura cerca de sete horas.
Trajeto esperado da missão, créditos do vídeo para NASA/JSC/Goddard
Highlights da missão
- A tripulação superou o recorde de distância humana em relação à Terra, antes pertencente à Apollo 13.
- O sobrevoo lunar levou os astronautas a cerca de 6.550 quilômetros da superfície da Lua.
- O apagão de comunicação de 40 minutos foi planejado pela NASA, não resultado de falha. Pois a Lua cria uma barreira física que interrompe o sinal com a Terra.
- Os astronautas sugeriram os nomes provisórios Integrity e Carroll para duas crateras vistas durante o voo. A segunda cratera é uma homenagem à mulher de Reid Wiseman, que faleceu em 2020.
- O banheiro falhou de novo, exigindo o uso de bolsas de contingência para coleta de urina.
As imagens também viraram assunto. No trajeto, as imagens inéditas da Terra divulgadas durante a missão reforçaram o contraste entre a beleza vista pelas janelas e a rotina apertada dentro da cabine.
Em relato publicado pela AP, Victor Glover resumiu bem esse sentimento ao olhar o cenário lá fora. “A Terra está muito pequena, e a lua está ficando definitivamente maior”, disse o piloto à agência.








