Hoje, é difícil imaginar um passageiro acendendo um cigarro durante um voo ou um médico aparecendo na televisão para recomendar uma determinada marca de tabaco. No entanto, situações como essas fizeram parte do cotidiano durante boa parte do século 20.
Antes das restrições à publicidade e ao consumo de produtos derivados do tabaco, a indústria associava o cigarro a ideias como sucesso, elegância, saúde, liberdade e até desempenho esportivo.

Algumas situações daquele período parecem especialmente estranhas quando observadas pelos padrões atuais, que tem valores e regulamentos diferentes. Confira sete exemplos.
1. Era permitido fumar dentro de aviões
Durante décadas, fumar durante voos comerciais foi algo completamente normal. As aeronaves tinham cinzeiros instalados nos assentos e algumas companhias separavam os passageiros entre áreas para fumantes e não fumantes.
Diferentes países e companhias aéreas restringiram gradualmente a prática, até eliminá-la dos voos comerciais. Hoje, acender um cigarro dentro de uma aeronave é inimaginável para a maioria das pessoas.
2. Atletas faziam propaganda de cigarro — e Gérson virou parte da história
O cigarro também encontrou espaço no mundo dos esportes. Atletas e grandes nomes do automobilismo foram utilizados em campanhas publicitárias para transmitir uma imagem de sucesso e desempenho.
No Brasil, um dos casos mais conhecidos envolve Gérson, campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1970. O ex-jogador estrelou uma propaganda do cigarro Vila Rica, na qual aparecia a ideia de que o consumidor deveria “levar vantagem”.
A campanha acabou ultrapassando a publicidade e entrou para a cultura popular. A frase associada ao comercial deu origem à expressão “Lei de Gérson”, utilizada até hoje para definir a atitude de quem procura levar vantagem em determinadas situações.
3. Cigarro de chocolate era vendido para crianças
Se o cigarro já fazia parte da rotina dos adultos, sua imagem também chegou ao universo infantil.
Durante décadas, foram comercializados cigarros de chocolate, produtos sem tabaco que imitavam o formato de um cigarro. Crianças podiam brincar de segurá-los e reproduzir o gesto de fumar enquanto comiam o chocolate.
Hoje, a ideia de transformar um produto associado ao tabagismo em uma brincadeira infantil parece bastante estranha. Na época, porém, o cigarro estava tão incorporado à cultura popular que a imitação do hábito não provocava o mesmo estranhamento.
4. Médicos apareciam em propagandas (e fumar em hospitais era comum)
Talvez um dos exemplos mais chocantes seja a relação entre cigarro e profissionais de saúde.
A indústria do tabaco utilizou médicos, dentistas e enfermeiros em campanhas publicitárias para transmitir credibilidade aos consumidores.
Uma das campanhas históricas mais famosas da Camel chegou a afirmar que mais médicos fumavam a marca do que qualquer outra.
Além da publicidade, o próprio ato de fumar em ambientes de saúde era muito menos restrito. Fotografias históricas mostram médicos e pacientes fumando em hospitais e consultórios, algo que hoje entraria em choque direto com as políticas de controle do tabagismo.
5. Entrevistadores e convidados fumavam durante programas de TV
A televisão também registrou uma época em que fumar diante das câmeras não causava estranhamento.
Programas de entrevistas exibiam apresentadores e convidados fumando enquanto conversavam, com David Bowie sendo um dos protagonistas deste episódio.
O cigarro ficava sobre a mesa, permanecia na mão dos participantes e, em alguns casos, eles o acendiam durante a própria entrevista.
Há diversos registros históricos disponíveis em vídeo que mostram a prática. Para o público atual, assistir a uma entrevista em que duas pessoas conversam tranquilamente enquanto fumam pode parecer uma cena de ficção — mas era uma representação bastante fiel dos costumes da época.
6. Personagens de desenhos e até Papai Noel apareciam fumando
A presença do cigarro ultrapassava a publicidade tradicional e chegava à cultura popular.
Personagens de desenhos animados e outras figuras da ficção chegaram a aparecer fumando em diferentes produções.
O Papai Noel também apareceu em anúncios antigos associados a produtos de tabaco, uma estratégia que hoje provocaria forte controvérsia por envolver uma figura ligada ao universo infantil.
A imagem ajuda a dimensionar o quanto o cigarro estava inserido no imaginário popular: de atletas e médicos a personagens famosos e símbolos culturais.
7. Cigarro já foi vendido como aliado para manter a boa forma
A publicidade de cigarros também explorava a preocupação das pessoas com o peso.
A marca Lucky Strike ficou conhecida por uma campanha que incentivava o público a “pegar um Lucky em vez de um doce”, associando o cigarro à ideia de evitar alimentos e manter a silhueta.
A estratégia mostra como a publicidade conseguia aproximar o produto de conceitos que hoje parecem incompatíveis com o tabagismo, como beleza e controle de peso.
De símbolo de status a produto cercado por restrições

A transformação da imagem do cigarro aconteceu ao longo de décadas, acompanhando o avanço das evidências científicas sobre os riscos do tabagismo e a criação de políticas de controle.
No Brasil, a legislação proibiu a publicidade comercial de cigarros e outros produtos fumígenos e restringiu cada vez mais o consumo em ambientes coletivos fechados.
O resultado é uma mudança radical na percepção social. Se hoje a imagem de alguém fumando dentro de um avião, de um hospital ou durante uma entrevista de televisão parece absurda, há poucas décadas essas cenas faziam parte do cotidiano e eram, em muitos casos, retratadas como algo elegante, moderno ou até desejável.
Neste sábado (29/8) é o Dia Nacional de Combate ao Fumo no Brasil. A Lei Federal nº 7.488 instituiu a data em 1986 para conscientizar e mobilizar a população sobre os danos causados pelo tabaco.
