Um atraso de poucos minutos mudou para sempre o rumo da vida de Hans Gernot Schenk. Na manhã de 11 de setembro de 2001, ele seguia para o trabalho no World Trade Center, em Nova York, quando chegou cerca de 10 minutos depois do horário habitual.
Por causa disso, Schenk estava do lado de fora da Torre Norte quando o primeiro avião atingiu o edifício, no que foi o primeiro ataque da série de atentados da Al Qaeda que mudariam o mundo para sempre. Sem entender ainda o que havia acontecido, ele viu pessoas correndo em pânico e, segundos depois, precisou fugir para sobreviver.
Ao BBC News Mundo, ele explicou que a empresa havia notificado os funcionários sobre o atraso alguns dias antes, mas que ele não conseguiu chegar no horário certo naquele dia.
“O fato de não ter dormido em casa na noite anterior mudou meu destino. Talvez isso tenha feito com que eu chegasse ao trabalho cerca de 10 minutos mais tarde do que teria chegado normalmente”, disse.
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O que aconteceu naquele dia
Schenk trabalhava havia mais de um ano no World Trade Center e ocupava o cargo de gerente regional de vendas de uma empresa alemã de logística. O escritório ficava no 32º andar da Torre Norte e tinha cerca de 25 funcionários.
Naquela manhã, ele se aproximava da entrada quando viu uma multidão fugindo.
“Estava a cerca de 25 metros das portas giratórias que davam acesso ao saguão do edifício da Torre 1, onde eu trabalhava, a Torre Norte, quando vi pessoas correndo em pânico na minha direção”, afirmou.
Ao BBC News Mundo, Schenk contou que saiu do local e ficou entre as torres. Pouco depois, o segundo avião atingiu a Torre Sul.
“Houve uma nuvem negra e vermelha gigantesca. Muitas coisas começaram a voar, muitos papéis e objetos. Foi tanta coisa caindo, o impacto foi tão grande, a explosão tão forte e o barulho tão estrondoso que minha única reação imediata foi de sobrevivência, de proteger a cabeça e correr”, explicou.
A fuga pelo metrô
Na fuga, ele entrou em uma estação de metrô e permaneceu por alguns instantes em estado de alerta. O local estava quase vazio, enquanto a cidade acima começava a ser tomada pelo caos.
“Dentro do metrô, parecia que as pessoas não sabiam o que estava acontecendo do lado de fora. Não comentei nada, apenas estava nesse enorme estado de alerta em que não conseguia pensar.”
Mais tarde, ao chegar à Canal Street, Schenk encontrou uma situação que ajudou a esclarecer o que tinha acabado de acontecer:
“Vi duas jovens, que deviam ter menos de 20 anos. Elas estavam chorando. Perguntei o que aconteceu, e uma delas me disse que aviões acabaram de atingir as Torres Gêmeas”, contou Schenk.
Os colegas que ficaram para trás

Quando conseguiu reencontrar parte dos funcionários da empresa nos dias seguintes, Schenk percebeu que dois colegas estavam desaparecidos.
Uma delas era Ingeborg Joseph, chamada pelos amigos de Inga, que havia sido sua chefe durante o estágio. Inga sobreviveu inicialmente ao ataque, mas sofreu queimaduras e permaneceu internada por várias semanas antes de morrer.
O outro colega era Eddie Reyes, porto-riquenho que estava havia apenas duas semanas na empresa.
Vida depois do ataque
A experiência continuou afetando Schenk mesmo depois de deixar Nova York.
Em novembro de 2001, Schenk pediu demissão. No mês seguinte, voltou para a Alemanha. Depois do ataque, passou a ter reações intensas a situações que lembravam o ocorrido, como fogos de artifício, viagens de avião e até deslocamentos de carro.
Em 2004, enquanto morava no Rio de Janeiro, ele foi ao cinema assistir ao filme “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore. Durante um trecho com os sons dos atentados, ouviu o barulho do segundo avião e se jogou no chão entre as poltronas.

Anos depois, ao falar sobre a própria sobrevivência, Schenk descreveu ao BBC News Mundo a dificuldade de lidar com a sensação de ter escapado enquanto amigos morreram.
“A questão da culpa é muito forte. Eu me sinto sortudo, mas às vezes me sinto culpado porque, apesar de ter vivido experiências tão complicadas, tão difíceis, a vida me deu presentes e continua me apresentando oportunidades.”






