Em 26 de julho de 2026, um caminhante seguia pela geleira de Trift, nos Alpes suíços, quando encontrou dois corpos expostos pelo degelo. Somente os exames revelariam que aquela descoberta estava ligada a um desaparecimento ocorrido 34 anos antes.
A resposta veio do Instituto de Medicina Legal do Hospital de Valais. A comparação dos perfis genéticos revelou que os restos mortais pertenciam a dois alpinistas belgas, de 39 e 41 anos, desaparecidos durante uma escalada em setembro de 1992.
Nos meses seguintes ao sumiço, as equipes de busca encontraram apenas uma mochila. Durante mais de três décadas, ela permaneceu como o último vestígio concreto dos dois homens. Agora, o recuo do gelo finalmente revelava onde eles estavam e também ajudava a explicar como um corpo pode atravessar tanto tempo sem se decompor completamente.
A escalada interrompida
Na manhã de 4 de setembro de 1992, os dois belgas deixaram o refúgio de Weissmies com o objetivo de alcançar o cume da montanha, a 4.017 metros de altitude. O último ponto conhecido do trajeto ficava na região do refúgio de Almagell.
No entanto, uma forte mudança no tempo atingiu os Alpes naquele dia. Os alpinistas não concluíram a escalada nem retornaram ao ponto de partida. Por isso, as equipes de resgate iniciaram diferentes operações de busca.
Nos meses seguintes, os socorristas encontraram uma mochila, mas nenhum sinal dos dois homens. Assim, o caso permaneceu sem resposta até que o derretimento da geleira expôs os restos mortais.
As identidades foram oficialmente confirmadas por meio da comparação dos perfis genéticos, segundo a Polícia Cantonal de Valais.
Como o gelo preserva
Depois da morte, enzimas presentes nas células começam a romper os tecidos. Ao mesmo tempo, bactérias que vivem principalmente no sistema digestivo se espalham pelo organismo e participam da putrefação.
Temperaturas abaixo de zero, porém, reduzem a velocidade dessas reações. O metabolismo de muitos microrganismos diminui, enquanto a água congelada deixa de ficar disponível para parte dos processos biológicos envolvidos na decomposição.
Quando um corpo é rapidamente coberto pela neve e incorporado ao gelo, também fica menos exposto a insetos, animais e mudanças bruscas de temperatura. Além disso, o frio constante desacelera a atividade das enzimas e das bactérias presentes no próprio organismo.
Esse conjunto de condições permite que tecidos, roupas e objetos pessoais resistam durante décadas. Ainda assim, o gelo não interrompe a decomposição para sempre. Ele apenas reduz drasticamente a velocidade do processo enquanto mantém as condições favoráveis.
Estudos forenses apontam a temperatura como um dos fatores externos mais importantes para determinar o ritmo da decomposição. Em ambientes extremamente frios, portanto, as alterações avançam de forma muito mais lenta do que ocorreriam em locais quentes e úmidos.
Quando ocorre a mumificação
Grandes altitudes costumam combinar frio intenso e ar seco. Em algumas situações, o corpo perde água antes de ficar completamente envolvido pelo gelo. Com isso, os tecidos passam por uma espécie de secagem natural.
A redução da umidade dificulta ainda mais a ação de bactérias e enzimas. Dependendo das condições, pode ocorrer uma mumificação natural, com a preservação parcial da pele, dos músculos e até de órgãos internos.
O caso mais conhecido é o de Ötzi, encontrado nos Alpes em 1991, cerca de 5.300 anos depois de sua morte. De acordo com o Museu Arqueológico do Tirol do Sul, o corpo perdeu boa parte de seus líquidos, mas conservou tecidos e órgãos que ainda hoje ajudam pesquisadores a estudar sua vida e sua morte.
A preservação, contudo, varia de acordo com a temperatura, a umidade, o tempo de congelamento e o movimento do gelo. Por isso, dois corpos submetidos ao frio por períodos semelhantes podem apresentar condições muito diferentes.
O gelo também danifica
Corpos encontrados em regiões glaciais nem sempre aparecem intactos. Embora o frio retarde a decomposição, as geleiras se movimentam lentamente pelas montanhas e exercem enorme pressão sobre tudo o que carregam.
Durante esse deslocamento, os restos podem ser transportados, comprimidos, separados ou fragmentados. Além disso, pedras e sedimentos presos no gelo provocam atrito e podem causar danos aos tecidos, aos ossos e aos objetos pessoais.
Períodos alternados de congelamento e degelo também voltam a expor os restos à água e ao ar. Como consequência, bactérias retomam parte de sua atividade e a decomposição pode avançar novamente.
Pesquisadores do projeto arqueológico Secrets of the Ice explicam que a preservação mais completa tende a ocorrer em áreas onde o gelo quase não se move. Em contrapartida, massas glaciais ativas podem deslocar e danificar os restos ao longo dos anos.
Degelo revela casos antigos
O recuo das geleiras tornou mais frequentes as descobertas de corpos preservados no gelo nos Alpes. A rede Glacier Monitoring in Switzerland acompanha a perda contínua das geleiras suíças, enquanto a polícia de Valais mantém registros de desaparecimentos em áreas montanhosas desde 1925.
Conforme as camadas diminuem, surgem equipamentos, roupas, destroços e restos humanos escondidos durante anos. Cada descoberta, portanto, pode ajudar a identificar vítimas e esclarecer casos que pareciam destinados a permanecer sem resposta.
As autoridades ainda não sabem exatamente o que aconteceu nas últimas horas dos dois alpinistas belgas. O mau tempo pode ter dificultado a orientação, bloqueado o caminho ou provocado algum acidente durante a travessia.
Em 1992, as equipes encerraram as buscas com apenas uma mochila recuperada. Trinta e quatro anos depois, o gelo devolveu o restante da história e permitiu que os dois alpinistas finalmente fossem encontrados e identificados.






