Preço invisível do ‘trabalhe enquanto eles dormem’ na saúde física e mental da população

Pesquisas associam pobreza, estresse crônico e moradia instável a desgaste no corpo e na mente

Apesar do esforço ser necessário, mecanismo biológicos podem ser mais punitivos com a camada mais pobre da população

Apesar do esforço ser necessário, mecanismo biológicos podem ser mais punitivos com a camada mais pobre da população | Wilfredor / Wikimedia Commons

Quem nunca ouviu o conselho: “todo mundo tem as mesmas 24 horas?” ou “não existe pobreza que resista a 48 horas de trabalho”? Nascidos de ambientes que visam o alto desempenho profissional, esses conselhos deixam uma coisa de fora: o corpo não responde apenas à disciplina.

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Existem diversas predisposições, psicológicas e biológicas, que afetam diretamente o desempenho de pessoas mais pobres.

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“Trabalhe enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham”

ditado popular do imaginário do alto desenvolvimento

Apesar de o esforço ser necessário para “subir de vida”, existem limitações importantes de se estar ciente, principalmente para as pessoas mais pobres.

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Desde a preocupação constante com as finanças até a insegurança de uma vida na periferia podem gerar gatilhos e desgastes físicos profundos, que podem levar até mesmo a problemas de saúde.

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Alerta permanente, sem descanso

Para realizar altas doses de esforço, o corpo utiliza recursos físicos e mentais para executar tarefas. É instalado um estado de alerta, com liberação de hormônios (cortisol, noradrenalina e adrenalina) para total atenção e estresse, como se fosse uma situação de vida ou morte. O problema é quando esses gatilhos nunca são desativados e o corpo está constantemente nesse estado de alerta.

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O trabalho do neuroendocrinologista Bruce McEwen foi um dos disseminadores do termo carga alostática. O termo se refere ao acúmulo de desgaste provocado pelo estresse crônico, que possui diversos mecanismos de atuação, com destaque à resposta prolongada por desligamento tardio

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Em seus trabalhos posteriores, McEwen começou a estabelecer como o contato prolongado com estresse torna as vias metabólicas responsáveis por esses mecanismos se tornarem “viciadas”.

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Há um aumento na reatividade de mecanismos ligados ao estresse e medo (amígdala), e aqueles responsáveis por contextualizar a ameaça e frear a resposta, como o hipocampo e córtex pré-frontal, perdem eficiência.

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Estudos recentes, publicados na PubMed e na PNAS Nexus, associam a carga alostática com a pobreza. Em especial, o trabalho de Lam et al., de 2022, associa desvantagens socioeconômicas com estresso crônico biológico, traçando um perfil pré-inflamatório. 

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Pobreza também pesa no corpo

A pobreza não age apenas pela falta de dinheiro. Ela também aumenta a sensação de ameaça constante, principalmente quando a pessoa vive em regiões marcadas por violência, moradia precária e risco de despejo.

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Esse medo cotidiano ocupa espaço mental. A preocupação com aluguel atrasado, transporte e segurança mantém o corpo em estado de vigilância, mesmo quando não há uma ameaça imediata. Ou seja, mergulhando a pessoa constamente em uma carga alostática.

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Por exemplo, o estudo Eviction’s Fallout: Housing, Hardship, and Health, publicado por Matthew Desmond e Rachel Kimbro em 2015, mostrou que mães de baixa renda apresentaram, consistentemente, piores medidores de saúde mental, propensão à depressão e estresse parental.