Quem nunca ouviu o conselho: “todo mundo tem as mesmas 24 horas?” ou “não existe pobreza que resista a 48 horas de trabalho”? Nascidos de ambientes que visam o alto desempenho profissional, esses conselhos deixam uma coisa de fora: o corpo não responde apenas à disciplina.
Existem diversas predisposições, psicológicas e biológicas, que afetam diretamente o desempenho de pessoas mais pobres.
“Trabalhe enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham”
ditado popular do imaginário do alto desenvolvimento
Apesar de o esforço ser necessário para “subir de vida”, existem limitações importantes de se estar ciente, principalmente para as pessoas mais pobres.
Desde a preocupação constante com as finanças até a insegurança de uma vida na periferia podem gerar gatilhos e desgastes físicos profundos, que podem levar até mesmo a problemas de saúde.
Alerta permanente, sem descanso
Para realizar altas doses de esforço, o corpo utiliza recursos físicos e mentais para executar tarefas. É instalado um estado de alerta, com liberação de hormônios (cortisol, noradrenalina e adrenalina) para total atenção e estresse, como se fosse uma situação de vida ou morte. O problema é quando esses gatilhos nunca são desativados e o corpo está constantemente nesse estado de alerta.
O trabalho do neuroendocrinologista Bruce McEwen foi um dos disseminadores do termo carga alostática. O termo se refere ao acúmulo de desgaste provocado pelo estresse crônico, que possui diversos mecanismos de atuação, com destaque à resposta prolongada por desligamento tardio.
Em seus trabalhos posteriores, McEwen começou a estabelecer como o contato prolongado com estresse torna as vias metabólicas responsáveis por esses mecanismos se tornarem “viciadas”.
Há um aumento na reatividade de mecanismos ligados ao estresse e medo (amígdala), e aqueles responsáveis por contextualizar a ameaça e frear a resposta, como o hipocampo e córtex pré-frontal, perdem eficiência.
Estudos recentes, publicados na PubMed e na PNAS Nexus, associam a carga alostática com a pobreza. Em especial, o trabalho de Lam et al., de 2022, associa desvantagens socioeconômicas com estresso crônico biológico, traçando um perfil pré-inflamatório.
Pobreza também pesa no corpo
A pobreza não age apenas pela falta de dinheiro. Ela também aumenta a sensação de ameaça constante, principalmente quando a pessoa vive em regiões marcadas por violência, moradia precária e risco de despejo.
Esse medo cotidiano ocupa espaço mental. A preocupação com aluguel atrasado, transporte e segurança mantém o corpo em estado de vigilância, mesmo quando não há uma ameaça imediata. Ou seja, mergulhando a pessoa constamente em uma carga alostática.
Por exemplo, o estudo Eviction’s Fallout: Housing, Hardship, and Health, publicado por Matthew Desmond e Rachel Kimbro em 2015, mostrou que mães de baixa renda apresentaram, consistentemente, piores medidores de saúde mental, propensão à depressão e estresse parental.






