Proibido beijo em praça pública em Sorocaba: casais se refugiavam em cinemas no carro escondidos em garagens

Antes das telas gigantes, garagens com lanchonetes ofereciam privacidade a casais em uma época de forte repressão moral. 

Sessão do Cine Autorama reúne carros diante da tela em uma experiência de cinema ao ar livre em Sorocaba. (Foto: Maurício Noro/Alesp)

Ver um filme de dentro do carro, com o rádio FM sintonizado e a tela iluminando a noite. Em Sorocaba (SP), a história do chamado drive-in tem um detalhe pouco conhecido: nas décadas de 1970 e 1980, a cidade não tinha um autocine tradicional como os que existiam na capital paulista.

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Naquele período, o nome era usado para identificar garagens fechadas com lanchonete, frequentadas principalmente por casais que procuravam privacidade. Décadas depois, a expressão ganhou outro significado e passou a representar sessões de cinema ao ar livre.

O que era o drive-in

O modelo clássico de drive-in permitia assistir a filmes sem sair do carro. O público estacionava diante de um telão e acompanhava a sessão enquanto o áudio chegava ao veículo.

Lanchonetes também faziam parte da experiência. Os frequentadores podiam pedir comida e bebidas por meio de sinais luminosos dos automóveis. O som, que no início era transmitido por caixas instaladas nos veículos, passou depois para o rádio FM.

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Assim, o carro deixava de ser apenas um meio de transporte e passava a funcionar como uma espécie de sala particular.

Uma história diferente

Segundo o historiador e pesquisador Carlos Carvalho Cavalheiro, em entrevista à TV TEM, afiliada da TV Globo, a cidade não contava com um cinema drive-in fixo dedicado à exibição de filmes na cidade durante os anos 1970 e 1980.

“O que existia eram espécies de locais para namoro, em que os carros estacionavam em pequenas garagens. Além do espaço, havia também uma lanchonete”, diz o pesquisador.

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Entre os estabelecimentos lembrados pelo pesquisador estão o Koreto, no Jardim Santa Rosália, e outro endereço no Jardim Simus. Esses espaços ofereciam aos casais uma alternativa aos encontros dentro de carros estacionados em praças públicas.

Repressão e privacidade

A procura por privacidade também se relacionava ao ambiente social da época. Em 1981, uma portaria de um juiz proibiu o beijo em praça pública em Sorocaba. Para Cavalheiro, esse contexto ajuda a explicar o papel que os chamados drive-ins assumiram na vida cotidiana.

“Basta nos lembrarmos de que, em 1981, o beijo em praça pública foi proibido em Sorocaba por uma portaria de um juiz, e a instalação de motéis foi cerceada por um pedido do bispo. Só por esses dois exemplos podemos perceber a repressão sexual nessa época. Os drive-ins, portanto, foram lugares de liberdade comportamental”, afirma o historiador.

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O retorno às telas

O cinema dentro do carro ganhou uma nova vida no século XXI. O formato voltou a aparecer como evento cultural itinerante e encontrou um público interessado tanto pela experiência diferente quanto pela memória afetiva associada ao passado.

Um dos projetos que ajudaram a levar essa ideia para diferentes cidades foi o Cine Autorama, criado em 2015. Segundo os dados da matéria-base, o circuito já realizou mais de 460 sessões, passou por mais de 98 cidades brasileiras e acumulou cerca de 117 mil espectadores.

O áudio chega aos veículos pela frequência FM, enquanto a projeção acontece em uma grande tela instalada ao ar livre. A programação reúne filmes nostálgicos, produções recentes, títulos infantis e familiares e obras nacionais.

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Nostalgia que permanece

Em Sorocaba, a relação entre memória e novidade ajuda a entender por que o drive-in continua despertando interesse. O que já foi associado a garagens reservadas para namorados ganhou outra forma, agora com telão, rádio FM e sessões abertas ao público.

O Cine Autorama teve ingressos esgotados em Sorocaba e segue para Jundiaí, onde o circuito está previsto para os dias 5 e 6 de setembro.