Durante escavações subaquáticas no antigo porto de Alexandria, arqueólogos localizaram um thalamegoi, embarcação cerimonial ligada à elite do Egito antigo, usada em festas, recepções e procissões espirituais.
O navio estava a cerca de oito metros de profundidade e, mesmo assim, manteve partes importantes do casco. A preservação surpreendeu porque a madeira resistiu e revelou a dimensão do trecho que sobreviveu ao tempo.
Registros históricos indicam que os thalamegoi circularam entre os séculos I a.C. e I d.C. Nesse intervalo, a nobreza transformava o deslocamento em espetáculo, com convidados, música e um “palácio sobre as águas”.
O que era o thalamegoi
O thalamegoi funcionava como palco flutuante para celebrações. Em vez de servir a tarefas de carga ou guerra, ele recebia convidados e acomodava eventos oficiais, com pavilhões voltados a banquetes e encontros prolongados.
O projeto priorizava estabilidade em águas rasas. O fundo achatado facilitava a navegação em regiões pouco profundas e permitia montar estruturas no convés, embora limitasse o uso em rotas longas ou mais exigentes.
A operação no porto antigo de Alexandria
O Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática organizou as operações no porto antigo e conduziu a investigação que levou ao achado. A equipe trabalhou em uma área que concentra ruínas e vestígios importantes de Alexandria.
Esse tipo de embarcação costumava ter cerca de 35 metros de comprimento. No exemplar encontrado, aproximadamente 28 metros permaneceram preservados, um recorte raro para entender a forma, o porte e a montagem do barco.
Marcas em grego antigo no casco
No casco, os especialistas identificaram caracteres usados no grego antigo. A interpretação mais provável é que eram instruções de montagem, marcando peças e orientando o encaixe da estrutura durante a construção da embarcação.
A madeira também se manteve em bom estado, o que ajuda a observar detalhes do método construtivo. Assim, o achado não mostra apenas o tamanho do navio, mas também pistas práticas do seu “manual” de montagem.
Festas, música e possível uso religioso
A configuração do thalamegoi favorecia festas e banquetes. Estrabão descreve embarcações desse tipo cheias de pessoas tocando música e dançando, reforçando a ideia de um espaço criado para grandes festejos à beira d’água.
Franck Goddio, arqueólogo francês que coordenou a escavação, associa o exemplar a um possível uso religioso. A hipótese acrescenta outra camada ao papel cerimonial do barco, além do entretenimento oferecido à nobreza.
Cleópatra, Júlio César e o Templo de Ísis
Um thalamegoi desse tipo teria recebido o líder militar romano Júlio César durante sua visita ao Egito, em 47 a.C. O episódio mostra como a embarcação podia servir a encontros simbólicos, diplomáticos e de alto prestígio.
Como o navio surgiu perto das ruínas do Templo de Ísis, deusa egípcia da fertilidade, a interpretação é que ele participasse de rituais e homenagens. O contexto reforça o valor cultural do achado no porto de Alexandria.
Com o resgate desse thalamegoi, a cidade devolve um recorte de luxo e devoção do mundo antigo, unindo engenharia, festa e religião em uma única embarcação que atravessou séculos submersa antes de ser localizada.






