Governo planta milhões de árvores, mas floresta ‘bebe’ água das pessoas por causa de erro de cálculo

Estudo aponta que árvores não nativas alteraram o ciclo hidrológico em áreas reflorestadas da China, com diversos impactos

O plano era realizar o plantio de milhões de árvores, a fim de criar uma barreira verde que seria capaz de barrar o avanço do deserto

O plano era realizar o plantio de milhões de árvores, a fim de criar uma barreira verde que seria capaz de barrar o avanço do deserto | jbdodane/Wikimedia Commons

O governo chinês desenvolveu um projeto de reflorestamento ambiental para frear o avanço do Deserto de Gobi e minimizar impactos negativos no meio ambiente, como a escassez de água.

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No entanto, a estratégia utilizada ocasionou efeitos inesperados no ecossistema local. Países com elevadas áreas áridas que desejam diminuir esse número passam por dificuldades na hora de enfrentar o desafio de conter desertos, e com a China não foi diferente.

O reflorestamento mal planejado fez com que a floresta passasse a suprir suas necessidades hídricas com os mesmos recursos usados pelas comunidades locais, desfalcando a população.

Por que isso aconteceu

Com o intuito de diminuir o alcance do Deserto de Gobi, que avançava sobre cidades, áreas agrícolas e rotas comerciais, as autoridades chinesas decidiram promover uma política de Estado de reflorestamento.

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O plano era realizar o plantio de milhões de árvores, a fim de criar uma barreira verde que seria capaz de barrar o avanço do deserto. Outro benefício seria a absorção de grandes volumes de dióxido de carbono.

Por ora, a solução funcionou e o Deserto de Gobi foi contido. Todavia, um efeito colateral não calculado acometeu as áreas reflorestadas.

O erro que ocasionou o fracasso do projeto

Segundo relatórios publicados na revista científica Weather, as espécies escolhidas para a criação das florestas não eram nativas da região e não possuíam aderência ao ecossistema local. O crescimento delas era acelerado e sua demanda por água, altíssima.

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A consequência para a população chinesa foi uma redução na disponibilidade hídrica para agricultura, consumo humano e abastecimento urbano.

Isso porque essas árvores devolviam umidade para a atmosfera pela evapotranspiração, retirando grandes volumes do solo e dos aquíferos.

O motivo da escolha dessas espécies tem a ver com a velocidade com que cresciam. Além disso, elas faziam as áreas reflorestadas aparecerem com muito mais rapidez nos mapas oficiais. 

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Uma pesquisa publicada na revista científica Earth’s Future explica que essa dinâmica contribuiu para uma redução de água doce em regiões do leste e do noroeste da China.

Segundo o estudo, essas árvores captavam água de camadas profundas do solo e, ao fazerem sua redistribuição, alteravam o destino das chuvas.

O resultado disso foi uma reformulação inesperada do ciclo hidrológico da região, em que, embora a água continuasse circulando, passava a cair em lugares diferentes, distantes de onde era mais necessária.

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Plantar não é o bastante para um bom reflorestamento

Um projeto que seguiu rumos diferentes do chinês aconteceu no continente africano. A “Grande Muralha Verde” da África atravessa 22 países e criou um cinturão verde de cerca de 8.000 quilômetros.

A responsável por lidar com a magnitude de uma empreitada como essa é a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), que definiu como objetivo primário do projeto minimizar a degradação do solo, abrandar o avanço da desertificação e resgatar áreas selecionadas.

Com o passar do tempo, a ideia sofreu reformulações e deu espaço a um conceito mais abrangente. O foco, que antes era somente a quantidade de árvores, passou a ser o manejo sustentável da terra, a regeneração natural e a inclusão das comunidades locais em assuntos do seu interesse.

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Se colocados lado a lado, os dois projetos demonstram que o reflorestamento é uma ciência delicada e deve ser realizado com prudência, base e estudo. Plantar a espécie errada em uma área não condizente com ela pode danificar todo um ecossistema.