Grandes cheias na Amazônia se aproximam e animais já mudam de comportamento

Entre março e julho, rios sobem, trilhas desaparecem e animais mudam hábitos na Floresta Amazônica

Cheia dos rios cria igapós, altera deslocamentos e força espécies a viver meses nas copas

Cheia dos rios cria igapós, altera deslocamentos e força espécies a viver meses nas copas | Stella Ditt Pfundstein/Wikimedia Commons

Todo ano, entre março e julho, a chuva toma conta da Amazônia. O auge costuma acontecer entre maio e junho. É o chamado inverno amazônico, período em que quem vive na região vê a paisagem mudar semana após semana.

Com a cheia dos rios – especialmente as do Rio Amazonas, que guarda segredos que poucos brasileiros conhecem –, a água sobe devagar até entrar pela mata.

Trilhas somem, praias desaparecem e deslocamentos passam a ser feitos de canoa, como se ruas virassem canais naturais.

Os chamados igapós são justamente essas áreas da floresta que ficam alagadas por meses. Árvores continuam vivas, com o tronco inteiro dentro d’água, formando um verdadeiro bosque submerso.

Depois, entre setembro e dezembro, o nível dos rios recua. O chão reaparece, surgem bancos de areia e muitos caminhos que antes eram navegáveis voltam a ser trilhas.

Animais mudam de endereço

Com o solo coberto, muitos animais deixam hábitos terrestres. Preguiças, macacos e roedores permanecem nas copas e passam semanas sem descer para o chão.

Eles se alimentam do que encontram ali mesmo, principalmente folhas e frutos, reduzindo deslocamentos longos enquanto a floresta permanece alagada.

Até grandes predadores, como as onças-pintadas, entram nesse modo de sobrevivência. Em períodos de extremos climáticos, como já ocorreu durante a seca de 2025 na Amazônia que deixou rios em níveis críticos e isolou comunidades, esses animais também precisam adaptar rotas e estratégias.

Pesquisas do Instituto Mamirauá indicam que elas podem viver nas árvores por até quatro meses. Algumas passam a caçar nadando, pegando jacarés ou animais distraídos perto da superfície.

Comportamentos também mudam

Segundo especialistas, a inundação muda significativamente a oferta de alimento na floresta. Insetos sobem pelos troncos tentando fugir da água, e aves aproveitam o movimento para se alimentar com mais facilidade.

Sem o chão disponível, pássaros passam a ocupar galhos mais altos ou a faixa próxima à superfície alagada, alterando rotas e dieta enquanto dura a inundação.

Já espécies aquáticas como peixe boi, jacarés e botos ganham mais espaço. Eles entram na mata alagada para se alimentar e usar o local como área de reprodução até o nível do rio baixar novamente.