Jogo do bicho: como surgiu e como funciona a loteria clandestina mais famosa do Brasil

Prática utiliza 25 animais e movimenta milhões de reais diariamente, mesmo sendo considerada ilegal

Jogo se baseia no sorteio de cinco pares de dezenas entre 00 e 99, cada um associado a um dos 25 animais

Jogo se baseia no sorteio de cinco pares de dezenas entre 00 e 99, cada um associado a um dos 25 animais | Doxtar/Depositphotos

Parte do cotidiano cultural brasileiro, o jogo do bicho permanece classificado como uma contravenção penal. Criado no final do século 19, o sistema de apostas se tornou cada vez mais popular.

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O jogo utiliza 25 animais e movimenta milhões de reais diariamente em bancas de jornal, botecos e borracharias que funcionam como estabelecimentos de fachada.

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De estratégia de marketing a febre urbana

A prática nasceu em 1892, idealizada pelo barão João Batista Viana Drummond. Fundador do zoológico do Rio de Janeiro, Drummond criou o jogo como um incentivo para atrair visitantes e evitar o fechamento do local por falta de verbas.

Na época, o visitante recebia um cupom com a estampa de um animal; ao final do dia, um deles era sorteado, e o vencedor recebia até 20 vezes o valor do ingresso.

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O sucesso foi tamanho que, em 1894, bilhetes já eram vendidos por toda a cidade por meio de “bicheiros”, transformando o sorteio em um jogo de azar. A prática foi proibida logo em 1895, mas já havia se tornado uma febre popular.

Perto do fim de 2025, a série “Os Donos do Jogo”, da Netflix, reacendeu a popularidade da prática.

Funcionamento da dinâmica das apostas

O jogo se baseia no sorteio de cinco pares de dezenas entre 00 e 99, cada um associado a um dos 25 animais.

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Para jogar, basta escolher um par de dezenas ou um par de animais – cada um representa quatro dezenas.

Cada animal representa um grupo de quatro dezenas sequenciais. O avestruz (Grupo 1) engloba as dezenas 01, 02, 03 e 04, enquanto a vaca (Grupo 25) fecha a lista com as dezenas 97, 98, 99 e 00.

Animais do jogo do bicho e seus respectivos números/Ilustração/Gazeta de S.Paulo

Existem diversos tipos de aposta:

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  • A “milhar seca” (ou na cabeça) ocorre quando o apostador acerta o milhar exato do primeiro sorteio, pagando até 4 mil vezes o valor investido;
  • A “dezena”, quando os últimos dois dígitos do seu milhar são sorteados (paga 80 vezes) e;
  • O “duque de dezenas”, quando forem sorteadas duas dezenas que você definir (200 para 1).

Os sorteios ocorrem diariamente e, embora clandestinos, têm seus resultados amplamente divulgados pela internet, rádio e até pelo “disk-bicho”. Para receber o prêmio, o jogador deve retornar ao local da aposta no dia seguinte com o comprovante.

Contravenção

Juridicamente, o jogo do bicho não é um crime grave, mas sim uma contravenção, com punições mais brandas. Ainda assim, a prática sobrevive há mais de um século, alimentada por superstições.

O crime prevê penas de prisão simples (três meses a um ano) e multa para organizadores, banqueiros e apostadores.

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‘Ciência’ dos sonhos

Muitos apostadores escolhem seus números baseados em sonhos, associando figuras do inconsciente aos bichos do jogo. Por exemplo:

  • Sonhar com cobra sugere apostar no Grupo 9 (dezenas 33 a 36);
  • Sonhar com dinheiro ou flores indica o Peru (Grupo 20, dezenas 77 a 80);
  • Sonhar com crianças remete à Borboleta (Grupo 4, dezenas 13 a 16).

Apesar de ser matematicamente mais fácil ganhar no bicho do que em loterias oficiais como a Mega-Sena (em que a chance de acerto é menor do que a de ser atingido por um raio), especialistas reforçam que a crença em sonhos como guia de aposta não possui base científica.