Nem animal, nem plástico: o tecido de abacaxi que domina a moda em 2026

Moda aposta em tecidos de abacaxi e kombucha para o fim da roupa descascando e maior durabilidade

Produzidos a partir de fibras de abacaxi, cogumelos, kombucha e até resíduos de frutas, esses tecidos prometem revolucionar o mercado

Produzidos a partir de fibras de abacaxi, cogumelos, kombucha e até resíduos de frutas, esses tecidos prometem revolucionar o mercado | Ilustração/IA/Gazeta de S.Paulo

Você já comprou uma peça de ‘couro sintético’ e viu ela descascar em pouco tempo? O mercado da moda está decretando o fim do plástico e apostando em materiais surpreendentes: de fibras de abacaxi a celulose de kombucha. A mudança ganhou força e vai além da estética, esbarrando até em leis brasileiras.

Em um movimento crescente para substituir o uso de pele animal, a indústria da moda e diversas startups estão investindo no desenvolvimento de materiais inovadores conhecidos como “couro vegetal” ou “ecológico”.

Produzidos a partir de fibras de abacaxi, cogumelos, kombucha e até resíduos de frutas, esses tecidos prometem revolucionar o mercado ao oferecer durabilidade superior às opções sintéticas tradicionais.

O fim da era do plástico (PU)

Diferente do popular poliuretano (PU), o famoso “couro sintético” ou “fake”, as novas alternativas vegetais apresentam uma resistência muito maior.

 O PU é essencialmente um plástico com vida útil curta, que tende a descascar rapidamente/Ilustração/Gazeta de S.Paulo

Segundo especialistas, o PU é essencialmente um plástico com vida útil curta, que tende a descascar rapidamente e não possui processos de reciclagem eficientes, tornando-se a pior opção para o meio ambiente.

Já os materiais de origem vegetal podem ser hidratados, são frequentemente resistentes à água e passam pelos mesmos testes de qualidade aplicados à pele animal.

Das Filipinas para as passarelas globais

Um dos destaques desse setor é o Piñatex, tecido criado pela pesquisadora Carmen Hijosa a partir das fibras das folhas do abacaxi. O material ganhou visibilidade mundial em 2019 ao ser adotado pela grife Hugo Boss.

No entanto, especialistas alertam para o “custo invisível” da sustentabilidade: embora use resíduos agrícolas, o Piñatex é processado na Espanha, o que gera uma pegada de carbono considerável devido ao transporte internacional.

Como alternativa, o incentivo à produção local brasileira — como o látex da Ilha de Marajó ou as folhas de “orelha-de-elefante” – fortalece a economia nacional e reduz o impacto ambiental.

O desafio do preço e a ‘Lei do Couro’

Apesar do apelo ecológico, o acesso a esses materiais ainda é restrito. O metro do Piñatex, por exemplo, pode custar a partir de R$ 600, valor comparável ou superior ao do couro animal, o que o mantém confinado a coleções de alta costura e pequenas escalas.

Além do fator financeiro, existe um entrave jurídico: no Brasil, uma lei federal de 1965 proíbe que esses materiais sejam comercializados com o nome “couro”, termo reservado exclusivamente para peles animais curtidas. O uso indevido da nomenclatura em anúncios pode, inclusive, gerar multas para os estabelecimentos.

Conheça as principais alternativas vegetais:

  • Mico-couro: produzido a partir de cogumelos.
  • Tecido de kombucha: feito com celulose bacteriana.
  • Látex natural: produzido por cooperativas na Ilha de Marajó.
  • Folha de orelha-de-elefante: utilizada por marcas brasileiras como a Misci.

Para o futuro, a tendência é que a moda deixe de apenas tentar imitar a estética animal e passe a valorizar esses novos materiais por sua identidade própria e propriedades únicas.